Laboratório da Imaginação: «Um espaço onde o pensamento pode acontecer através da ação, e onde o erro não é um problema.»

A curadora Francisca Portugal conversou com Sara Duarte e Alfredo Martins que explicaram os objetivos do programa «Laboratório da Imaginação – Plantário» e os resultados dos trabalhos que desenvolveram com jovens durante vários meses.
Francisca Portugal 21 jan 2026 12 min

O Laboratório da Imaginação é um programa anual promovido pelo CAM para jovens entre os 18 e 25 anos com a seguinte proposta: «explorar novas formas de pensar e atuar sobre os desafios do presente, e imaginar outros futuros possíveis» através da interdisciplinaridade, a colaboração e a discussão. Em cada edição é convidada uma coordenação que é responsável por desenvolver o currículo das atividades.

Este ano, os jovens trabalharam no Espaço Engawa do CAM. No momento em que cheguei preparavam-se para falar sobre o trabalho desenvolvido nos últimos dias e explicaram que estavam divididos em grupos, cada um junto da respetiva TAZ (Zona Autónoma Temporária). Estas zonas, construídas a partir de materiais disponibilizados pelo museu como bambus, almofadas, pedaços de tecido, papel e fita-cola, delineavam espaços imaginários com regras e arquiteturas próprias que interagiam entre si através de trocas, convites e relações territoriais.

Sessão do «Laboratório da Imaginação – Plantário» © Diana Tinoco

Os representantes de cada grupo apresentaram as diferentes estruturas que compunham a sua TAZ: uma floresta e uma horta, um lugar de descanso, uma torre de observação, um safe space, entre muitas outras. De seguida, justificaram as suas fronteiras, dando a conhecer as suas leis e demonstrando os seus diferentes gestos de saudação para quem os visitasse.

Em cada proposta encontrei testemunhos de um grande sentido de pertença, que são a prova da intensidade com que os jovens viveram e se dedicaram ao projeto, não obstante a sua escala e o carácter temporário e manual. Este exercício é marcante e pode mais tarde ser projetado para situações da realidade futura; funciona como uma semente capaz de se ramificar noutras experiências coletivas.

O trabalho destes 37 participantes, que se têm reunido fora de horas ao longo de quatro meses no CAM, culmina numa reunião final aberta ao público no próximo 28 de janeiro, das 19:00 às 20:30. Os coordenadores deste Laboratório da Imaginação – Plantário, Sara Duarte e Alfredo Martins, falaram comigo sobre os seus objetivos e a experiência de trabalho que realizaram com este grupo.

Esta edição do Laboratório de Imaginação assenta na construção de um «mesocosmos habitável». O que vos levou a escolher esta ideia como ponto de partida e que potencial oferece para pensar futuros possíveis?

Alfredo Martins:  Quando propusemos a ideia do Plantário para este Laboratório, partimos da noção de meso, do meio, ou seja, de uma escala intermédia entre o individual e o global. Esse conceito interessa-nos por ser um local de encontro, de discussão, de pensamento e de criação, um território onde diferentes possibilidades podem emergir.

Pensámos desde o início na construção de espaços físicos, com uma presença concreta, a partir dos materiais disponíveis. Mas, mais do que erguer estruturas, interessava-nos criar condições para repensar formas de interação, em particular entre seres humanos. Quando falamos de espaços «habitáveis», falamos num sentido essencialmente poético, sendo eles temporários, pensados como lugares de encontro e de reflexão.

Este mesocosmos permite interrogar o tempo em que vivemos enquanto civilização, das alterações climáticas às dificuldades de viver em conjunto, passando pelos conflitos e tensões económicas. Procura também responder à realidade dos participantes e como estas questões globais atravessam as suas vidas, as comunidades a que pertencem e os territórios comuns que habitam. Talvez de forma assumidamente utópica, este projeto tenta criar um espaço onde tudo isso possa ser vivido em conjunto.

Sara Duarte: Para mim, é fundamental sublinhar que este é um espaço transicional, não exatamente de transição, mas onde se constrói subjetividade, onde o simbólico emerge e o pensamento se torna possível. A própria sala do Laboratório reflete isso: há um aparente caos, uma sensação de desregulação, que corresponde na verdade a ajustes contínuos, sempre em transformação. É um espaço do CAM que está permanentemente a ser modificado e apropriado, onde os significados não são fixos, permitindo ensaiar outras formas de estar.

Sessão do «Laboratório da Imaginação – Plantário» © Diana Tinoco

A proposta convoca contributos de áreas tão diversas como arquitetura, biologia, linguística, artes visuais, som e tecnologia. Neste Laboratório, de que forma a interdisciplinaridade se torna uma ferramenta?

SD: Quando pensamos nestas áreas, não as entendemos como campos fechados do saber, mas como modos distintos de colocar perguntas, problemas e formas de olhar para a realidade, para nós próprios e para a comunidade à nossa volta. Funcionam como entradas e saídas no processo de descoberta: algumas mais específicas, outras mais abrangentes, mas todas elas como dispositivos de deslocamento do pensamento.

A biologia é um exemplo claro: convidámos a Ana Correia, investigadora na área dos processos simbióticos, porque o seu trabalho nos permitia pensar o mesocosmos numa escala mais ampla. A ideia de que não existe um ser verdadeiramente individual, nem nós, nem qualquer outra forma de vida, pareceu-nos central. Vivemos todos em regimes de dependência, nem sempre harmoniosos, mas reais. Esse olhar afasta-se da lógica de competição e produtividade e abre espaço para imaginar outras formas de coexistência, dentro e fora do Laboratório.

Pensámos também no trabalho da Maria Remédio, artista de ilustração e videasta, que propôs trabalhar o mapa, ou uma ideia de mapa. O mapeamento interessa-nos enquanto forma de organizar o pensamento, o território e também como gesto crítico: o que se escolhe mapear, o que fica invisível, que categorias usamos? Os mapas moldam a forma como vemos e transmitimos a realidade e esse exercício tornou-se um instrumento importante nas nossas discussões.

Outro contributo fundamental foi o do linguista Rodrigo Pereira. A linguagem é também um tipo de mapa, talvez mais interno, que estrutura a forma como nos relacionamos, e interessava-nos pensá-la como algo mutável e especulativo. Durante a sessão, os exercícios de constructed languages reativaram a plasticidade da linguagem no grupo e criaram uma atmosfera de jogo e liberdade, que teve um impacto muito forte.

Sessão do «Laboratório da Imaginação – Plantário» © Diana Tinoco

AM: Estas sessões corresponderam a uma fase inicial do Laboratório, de expansão, abertura e procura de ferramentas. Neste momento, estamos a trabalhar com o coletivo Warehouse, que já realizou duas sessões e terá ainda mais duas, aprofundando a dimensão espacial do trabalho. A partir daqui, entramos numa fase mais sensorial. Vamos receber o João Bento, que trabalha na área do som e da sonoplastia, a Joana Mário, desenhadora de luz, e a Sara Marques de Oliveira (Dapperfish), que trabalha com caracterização. São áreas que nos interessam particularmente: explorar como esses elementos podem estruturar o espaço e produzir outras formas de experiência. A interdisciplinaridade, neste contexto, não é apenas um cruzamento de saberes, mas uma forma ativa para imaginar, experimentar e construir outras possibilidades de estarmos em conjunto.

Trabalham com jovens entre os 18 e os 25 anos num formato de workshop que privilegia o processo e a especulação, mais do que a produção de um objeto final. Que potencial encontram nesta combinação e quais os seus efeitos na forma como os participantes pensam o mundo e os desafios contemporâneos?

SD: Talvez comece por falar de um aspeto fundamental: neste Laboratório não existe a obrigatoriedade de produzir um objeto ou produto final. Esse tipo de resultado pode ser interessante noutros contextos, mas aqui o mais importante é o contexto que o formato cria, um ambiente sem a pressão constante da produção.

Vivemos há décadas sob uma exigência de produtividade: produzir rápido algo visível, eficaz, impressionante. Ir contra essa lógica parece-nos particularmente importante para esta faixa etária, que é marcada por uma grande abertura e elasticidade mental. É um momento de transição em que já existe agência e instrumentos para agir no mundo, mas em que os caminhos ainda não estão cristalizados.

AM: O grupo é grande e muito diverso, com participantes com ligação às artes, ciências, filosofia e arquitetura. A disponibilidade que mostram para trabalhar a partir de uma «folha em branco» é rara e potente. Existe fricção, mas estes episódios geram pensamento e aprendizagem. A curiosidade e a capacidade de partilha tornam possível trabalhar em conjunto de forma fluida, tornando a experiência reveladora e inspiradora para todos.

Sessão do «Laboratório da Imaginação – Plantário»

O Laboratório de Imaginação define-se como uma plataforma de pensamento-ação. O que significa, para vocês, trabalhar neste cruzamento entre reflexão e prática? Ao longo do processo, que transformações, em atitudes, comportamentos ou formas de estar, observaram?

AM: Para mim, um dos aspetos mais marcantes deste processo tem sido a forma como o grupo acolhe as propostas que trazemos com um nível de disponibilidade e liberdade que considero extraordinário. Há uma entrega muito grande, uma abertura real aos desafios propostos e isso é algo que me tem surpreendido profundamente. As propostas lançadas são tomadas com seriedade, mesmo quando implicam risco ou incerteza.

Apesar de existir um momento de partilha pública no final, a verdade é que ainda não sabemos exatamente até onde o projeto se vai desenvolver. Sabemos, por exemplo, que o grupo se reuniu autonomamente em assembleia, sem nós, para discutir o futuro do Laboratório e as possibilidades dessa apresentação final. Esse gesto de apropriação e autonomia é, para mim, um sinal muito claro de transformação: deixar o lugar de quem é acompanhado para assumir um lugar ativo de decisão e responsabilidade.

SD: Para mim, a transformação passa por essa combinação entre o lúdico e o formal. Há algo neste processo que se aproxima muito da forma como as crianças brincam: com entrega total, concentração absoluta e uma enorme seriedade. Apesar de o ambiente parecer leve ou experimental há um empenho real, uma disposição para o novo e para o erro, sem a ansiedade de «ter de resultar».

Sessão do «Laboratório da Imaginação – Plantário» © Diana Tinoco

Esse modo de estar é estimulante, porque vai contra a pressão constante para produzir rapidamente, para apresentar resultados espetaculares ou tecnologicamente sofisticados. Aqui, o que importa é criar um espaço onde o pensamento pode acontecer através da ação, e onde o erro não é um problema.

Também sinto que os participantes já estão claramente em ação. Os convidados que passam pelo Laboratório não vêm para dirigir ou impor caminhos, mas para trazer instrumentos como som, luz ou linguagem, e o nosso papel tem sido, sobretudo, criar e cuidar do contexto. A partir daí, o grupo apropria-se desse contexto, transformando-o e expandindo-o, e é muito evidente que este processo está a gerar autonomia. E isso, para mim, é um dos sinais de crescimento mais significativos que temos vindo a observar.

Acham que este tipo de programa pode contribuir para repensar o papel das instituições de arte no presente e para especular sobre a sua ação futura num mundo marcado por urgências ecológicas, tecnológicas e sociais?

AM: A organização interna das instituições tende a ser complexa e pouco flexível. Por isso, é importante introduzir elementos que criem fricções. Além disso, instituições, especialmente as públicas, mas também as privadas, têm a responsabilidade de criar espaços que permitam refletir sobre desafios contemporâneos, tais como as alterações climáticas e a digitalização dos processos criativos. A curadoria, o envolvimento do público e a oportunidade de experimentação são estratégias para promover a discussão, o pensamento crítico e a reflexão coletiva.

Sessão do «Laboratório da Imaginação – Plantário» © Diana Tinoco

O texto sobre este Laboratório da Imaginação introduz a ideia da necessidade de lidar com o luto, com as ruínas do sistema e com a imprevisibilidade da natureza. Como é que estes temas entram nas metodologias do Laboratório sem se tornarem paralisantes?

SD: O luto, a perda e a transformação fazem parte da consciência adulta. Reconhecemos que há desequilíbrios, modos de viver ou condições, e que isso implica tristeza, mas não como «fim do mundo». No Laboratório, não trabalhamos o luto de forma explícita; antes, propomos deslocamentos de perspetivas, por exemplo através da biologia e da relação de simbiose, que permitem vivenciar a interdependência, a fragilidade e a imprevisibilidade.

A metodologia que aplicamos valoriza a experiência direta e o nomear das coisas: dar palavras ao medo, às emoções e às perdas cria a oportunidade para os identificar e expandir. Às vezes, até inventamos novas palavras para experiências ainda não reconhecidas: isso ajuda-nos a enfrentar a realidade sem negar o sofrimento, transformando-o em ponto de partida para imaginar possibilidades de resolução.

Sessão do «Laboratório da Imaginação – Plantário» © Diana Tinoco

Em vez de controlar, exploramos e aceitamos a transformação constante da vida, nos ecossistemas, no corpo, na sociedade. Filtramos perceções, criando atenção e sensibilidade às relações entre pessoas, seres vivos e lugares. A noção de luto entra, assim, como reconhecimento e cuidado, não como paralisia. Para nós, o essencial é aceitar, agir e ampliar a capacidade emocional, oferecendo esperança e presença, especialmente para os jovens que vivem sob forte pressão emocional sobre o futuro.

Os participantes do Laboratório da Imaginação – Plantário irão organizar uma sessão final aberta ao público, no dia 28 de janeiro, das 19:00 às 20:30. A entrada é livre, sujeita à lotação do espaço.

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