Lugar à Mesa: «A mesa é um lugar imaginário»

Nesta entrevista, a curadora Jule Kurbjeweit conversa com as artistas e equipa de mediação por detrás do «Lugar à Mesa», programa pedagógico do CAM que conecta arte, alimentação e cidadania, transformando todas as pessoas envolvidas.
Jule Kurbjeweit 13 jul 2026 8 min

Jule Kurbjeweit: Por que é importante para o CAM fazer o programa LUGAR? Por que é importante esse trabalho contínuo com as escolas?

Andreia Dias: Acreditamos na educação pela arte e neste grande poder da arte enquanto motor de transformação, quer pessoal, quer social. A experiência fica ampliada quando temos artistas vivos a partilhar as suas práticas. Isso é muito forte, ao ponto de as crianças se lembrarem de tudo, como aprendizagens significativas. O Lugar à Mesa trouxe-nos uma potencialidade enorme de trabalharmos arte e cidadania em simultâneo. Podemos resolver problemas à mesa, mas antes disso passamos por uma experiência artística, imersiva e esteticamente sensível, que nos vai encaminhando.

Andreia Coutinho: Num projeto em continuidade, podemos ver a transformação: da primeira sessão à última, como as crianças interagem umas com as outras, o que pensavam no início, o que pensam no fim. Não só queremos propor uma transformação; podemos realmente vê-la.

AD: E a transformação é em todas nós. Há um território educativo alargado entre escola, museu, artistas, mediação, que se constrói nesta troca.

Lugar à Mesa, 4.ª edição projeto LUGAR «Sessão 3 - Viagens dos alimentos» © Diana Tinoco

JK: Como é que a evolução das sessões foi construída?

Maria Ângela da Silva: As sessões construíram-se pouco a pouco. Primeiro, as artistas introduziram memórias da infância. Tudo culminou na sessão em que fizemos uma salada de frutas, que era um grande ritual feito em conjunto.

Alice Artur: Desenhar o projeto como um todo foi importante para nós. Todas as sessões já estavam pensadas desde o início: que tipo de experiência queríamos que eles tivessem? E houve vários fatores: o tempo, a estação do ano, onde queríamos começar: com a história da alimentação e a desconstrução do que é o museu.

Francisca Paiva: Esse caminho foi pensado para ser surpreendente e construtivo. Havia uma expectativa de quando íamos cozinhar. Mas todo esse caminho nos preparou para podermos cozinhar.

AD: O projeto é também um cozinhado, em que os temas vão sendo interligados. Antes da sessão da salada de frutas tivemos a sessão de cozinhar problemas. Cada um descreveu um problema – pessoal ou do mundo – e depois foram mexer-se numa sopa dos problemas. A salada de frutas foi uma resposta ao problema da fome, identificado em todas as turmas: de quase nada podemos criar abundância.

Rolaisa Embaló: Aquela pergunta inicial, que ficou marcada neles: a peça de fruta que cada um trouxe pode alimentar a turma toda? Se calhar não. Então, se calhar, precisamos de juntar todas.

Mariana Faria: Apesar de falarmos da abundância, falamos também da escassez. Havia crianças que vinham fazer a primeira refeição do dia na escola. É um projeto artístico, mas não deixa de ter um lado social: o nosso olhar é social, estamos atentos uns aos outros.

AA: A alimentação está de tal maneira colada a tudo o que somos e fazemos que não a vemos. Aproxima-nos porque é um gesto íntimo que nós fazemos com o nosso próprio corpo, mas coletivamente.

Lugar à Mesa, 4.ª edição projeto LUGAR «Sessão 7 - Lugar maçã» © Diana Tinoco

JK: Como é que ligaram estes temas ao museu?

AA: Tivemos uma sorte enorme com a exposição do Carlos Bunga. Foi um feliz acaso: Habitar a Contradição – uma exposição sobre casa e lugar transitório. Queríamos esta relação com o museu, mas teria que ter a ver com o que estivesse lá.

JTB: Nunca repetimos o mesmo sítio, para usar o museu como uma única casa, ou mesa. O Lugar à Mesa não é fixo, pode ser em qualquer lado.

Lugar à Mesa, 4.ª edição projeto LUGAR «Sessão 7 - Lugar maçã» © Diana Tinoco

JK: É bonito ter essa experiência muito cedo, porque para muitas pessoas o museu não é um espaço convidativo.

AD: Um dos eixos do projeto é tornar o museu parte do quotidiano. Temos conseguido isso: que sintam o museu como uma casa, como espaço deles.

AA: Isso altera completamente a perceção que eles terão no futuro do que é um espaço cultural, do que é ver arte. Permite que habitem o espaço da criação como algo mais íntimo. Isso pode fazer toda a diferença.

Lugar à Mesa, 4.ª edição projeto LUGAR «Sessão 9 - Lugar natureza» © Diana Tinoco

JK: Podem falar de momentos que vos surpreenderam ou transformaram? E, para as artistas, como é que esta experiência vai marcar a vossa prática?

AA: O mais transformador foi estar com os miúdos e perceber a surpresa – do quanto uma coisa que nós achámos insignificante cria, de repente, um portal, a partir de um bocado de cartão. Os miúdos percebem a linguagem do ritual melhor do que nós. Aquilo que nós falamos teoricamente, eles têm-no de uma maneira instintiva. Sabem anular-se na própria experiência. Foram eles que nos transformaram. O que ficou para nós é simplificar cada vez mais. Cada vez menos ruído, cada vez mais simplicidade. E isso é extraordinariamente difícil para um artista.

Joana Trindade Bento: Para mim, tem sido revelador ligar-me ao meu lado infantil como criadora: desde o dia um, que nós trouxemos as nossas memórias para eles experimentarem. Não trazemos grandes temas, trazemos pequenas ferramentas para eles próprios passarem por elas. É fácil conectar todos através da alimentação, porque todos têm isso no quotidiano.

FP: Eu colocava-me neste corpo de criança para perceber como ia experienciar a sessão. Muitas das nossas adaptações tiveram a ver com isso. Pensámos num lugar de crianças. E confirmou a minha vontade de trabalhar com crianças – tem-me devolvido mais do que outros públicos, e levado a pensar sobre a alimentação de uma forma mais livre.

AD: É uma transformação afetiva. Em várias turmas, eles consideraram-nos família. Porque aprendemos neste lugar de carinho, de cuidado, de amor.

RE: Quando perguntámos, «o que aprenderam com os artistas?», pensámos que iriam dizer algo sobre comida, mas diziam: ouvir os colegas, respeitar os colegas. Um hábito de respeito.

FP: Disseram que ficaram mais calmos. Não é só estar à mesa, é estar conectado, com atenção e consciência presente.

AA: Voltar sempre a essa ideia de que estamos em conjunto. E se alguém faltar, não é a mesma coisa.

DX: Nós, adultos, não sabemos digerir os problemas do mundo. Ficamos com eles entalados. E eles já conseguem ter essa capacidade de leitura do mundo – através do pensamento de que vale a pena e da amorosidade. Quando falámos sobre Nowruz, sobre o Ramadão, as comidas de vários locais, as crianças que não são daqui tinham algo a dizer, elas é que sabiam. Cada um ia completando o que o outro dizia.

MF: As diversas frutas também representam aquilo que nós somos: de várias origens, com vários pensamentos. Eles começam a perceber que têm opinião, que vivemos numa diversidade e está tudo bem.

AC: Com as pequenas indicações que fomos dando, eles próprios podem construir um caminho deles e a própria perceção do mundo.

MF: Nós, enquanto museu, somos um espaço de possibilidade. É possível fazer; vamos fazer juntos.

JTB: E a mesa pode ser um sítio de igualdade. Queríamos que professores e alunos pudessem estar todos ao mesmo nível. Não infantilizamos as crianças. Também desconstruimos regras: brincámos com comida, mas não a desperdiçamos, e o cuidado esteve sempre presente. O importante não são regras como estar direito, mas respeitar a voz de cada um.

AC: A mesa não é só o espaço da comida; é um espaço de interação humana, mesmo quando a mesa é uma toalha ou um tapete.

FP: O micélio, esta forma de estarmos juntos e ligados, também era uma mesa. A mesa é um lugar imaginário. Foi sempre a metáfora para estarmos juntos.

MF: Houve um apoderamento: no final de cada sessão escreviam uma palavra na toalha-mesa, num gesto que dizia: «esta mesa também é minha». Nestas palavras vemos também a diversidade de pensamentos e da conversa.

AA: Para nós, o mais importante é que tenham aprendido que estar à mesa é ouvirmos uns aos outros, de toda a gente ter um lugar. É o cuidado com o outro. Estas crianças estarão muitas vezes à mesa durante a sua vida. E a mesa está a perder a sua força: o fast food, o telemóvel na mesa, as pessoas deixarem de estar umas com as outras. Mais do que nunca, do ponto de vista da cidadania, é importante trazer esta questão da mesa e usar a comida como desculpa para pararmos e conversarmos.

FP: Quando perguntámos como podiam continuar o projeto em casa, eles referiram-se muitas vezes à hora de jantar. A missão de colocar essa semente dentro deles está cumprida.

AA: Essas experiências passam pelo corpo de forma somática e ficam nele. Projetos assim criam memórias fundamentais para o futuro.

RE: Além das práticas todas, temos como produto final uma toalha-mesa de memórias: com as palavras de um ano inteiro. É um objeto lindíssimo e está vivo. A palavra final de uma das crianças foi «pensar sem errar».

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