À Volta da Mesa: Comida como Meio Artístico e de Memória

À volta da mesa, tal como no museu, criam-se relações. O CAM reconhece a comida como matéria artística e metafórica: uma lente para pensar as dimensões simbólicas, ecológicas e afetivas da experiência vivida, pensada por Jule Kurbjeweit.
Jule Kurbjeweit 19 nov 2025 5 min

Quando nos reunimos, é muitas vezes à volta de uma mesa. Os encontros sociais tendem a ter um elemento culinário no seu centro – um café, uma refeição, uma bebida – que oferece, ao mesmo tempo, pretexto e enquadramento. Mais do que sustento, a comida é o meio através do qual nos conectamos, recordamos e sentimos o mundo. Estrutura relações e memórias, tornando-se uma linguagem de cuidado, pertença e continuidade. Nesse sentido, a comida torna-se o palco e o guião das nossas vidas partilhadas – uma expressão tanto artística como política.

Tal como a mesa, o museu é também um espaço onde se criam relações. Estuda e molda a forma como nos relacionamos uns com os outros, com o ambiente e com a história. Tradicionalmente, os cafés de museus mantiveram-se periféricos, separados do núcleo artístico. No entanto, a comida, enquanto matéria e metáfora, abre caminhos para repensar como o museu pode cultivar a experiência coletiva. Comer juntos no museu é reconhecer que a experiência cultural não é apenas visual ou intelectual, mas também sensorial e corporal – passando pelo corpo e renovando-o.

Jantar Paula Rego e Adriana Varejão na "Mesa do CAM" © Diana Tinoco

Como observa o artista e agroecólogo Luigi Coppola, «curadoria significa mudar a condição do corpo e criar uma materialidade diferente do viver».[1] Ao envolver-se com a comida a um nível conceptual, o CAM reconhece-a como um meio artístico com significados poéticos e políticos. Através do restaurante A Mesa do CAM, concebido para incentivar a convivialidade dos seus programas e colaborações, na grande mesa que alberga, o CAM trata a comida como uma lente através da qual se pensa as dimensões simbólicas, ecológicas e afetivas da experiência vivida.

Jantar Paula Rego e Adriana Varejão na "Mesa do CAM" © Diana Tinoco

Nas palavras de Ana Botella, diretora adjunta do CAM: «No nosso compromisso com práticas interdisciplinares e relacionais, a alimentação é uma área de grande interesse para o CAM. Através das lentes da arte e da comida, podemos explorar questões contemporâneas da sociedade, como a identidade cultural e pessoal, a coesão social e a criação de futuros sustentáveis. Quando as pessoas se reúnem em torno da mesa, abre-se um espaço generoso de diálogo, reflexão e imaginação – é este espaço de convivialidade produtiva que valorizamos.»

É neste cruzamento entre convivialidade, criação e cuidado que o CAM situa o seu interesse pela comida como prática artística e social – como é disso exemplo os seguintes projetos.

Na sua prática de investigação, Rain Wu,  em colaboração com Inês Neto dos Santos e Mariana Salvador, e ao seguir a sucessão de espécies costeiras, criam arquivos comestíveis que mapeiam as histórias ecológicas do que comemos. No seu menu, convidam-nos a saborear as camadas temporais da paisagem, transformando a alimentação numa forma de sentir o lugar.

Apresentação do projeto Lisbon Spice Rack da residência de Arte e Gastronomia 'Eating Between Tides', por Rain Wu, Inês Neto dos Santos e Mariana Salvador.

O duo português Landra, que recentemente realizou uma sessão de leitura e um workshop no CAM no âmbito do programa Institution(ing)s, convida-nos a considerar a comida como forma de entrar em relação com o ambiente mais-do-que-humano. A sua prática explora como os sistemas de coexistência da natureza podem oferecer modelos para a organização humana e institucional. A comida, aqui, é o meio através do qual apreendemos estas ideias. Os artistas explicam que «as pessoas sentem e percebem, com os sentidos, as narrativas que nós estamos a construir.»

Landra na performance «A Emergência da Instituição» Abril 2024, Fundação Calouste Gulbenkian © Pedro Pina

No projeto educativo Lugar à Mesa, as artistas Alice Artur e Joana Trindade Bento da Joy Food Experiences e a artista Francisca Paiva trabalham com cerca de 200 alunos do ensino básico, explorando a mesa e o alimento como espaços de ritual, nutrição e ligação social, transformando a refeição num lugar de experimentação sensorial, aprendizagem e participação cívica.

Projeto educativo "Lugar à Mesa", o coletivo Futuros do Passado © Diana Tinoco

Em 2023, a artista japonesa Lei Saito apresentou a sua Existential Cuisine no Jardim Gulbenkian, com uma paisagem performativa e comestível que espelhava a topografia do lugar, de Lisboa e da sua cultura culinária. O seu trabalho explorava o «entre» do engawa, um espaço de transição na arquitetura japonesa, em termos relacionais. Saito convidou o público para uma refeição partilhada, sublinhando o ato de comer como gesto participativo que formava uma comunidade temporária.

Cuisine Existentielle, por Lei Saito © Joanna Correia

Para a artista palestiniana Mirna Bamieh, a comida é «o sopro da história, não as suas notas de rodapé»: contém a política da memória – um contraponto corporal às histórias dominantes. Através do ato de cozinhar e partilhar, Bamieh ativa arquivos sensoriais, reclamando o passado ao mesmo tempo que o transmuta. A fermentação – com a sua temporalidade lenta e o olhar voltado para as refeições futuras – torna-se uma prática de esperança, uma forma de afirmar agência sobre o tempo e a imaginação.

Mirna Bamieh no workshop «Sour Things - The Workshop» © Diana Tinoco

A arte alimentar não diz apenas respeito à efemeridade do ato de provar em conjunto, mas também ao que se segue: quando o alimento é incorporado, tornando-se parte de nós e transformando-nos. À volta da mesa, a arte torna-se um convite a saborear, a recordar e a reinventar a forma como vivemos juntos.


[1] Coppola, Luigi. Entrevista com Jule Kurbjeweit. 29 setembro 2025.

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