O Glossário Coletivo e a disputa da linguagem institucional
Apresentado no CAM, o Glossário Coletivo inscreve-se no âmbito do projeto europeu Institution(ing)s: Co-Creating Inclusive and Sustainable European Art Institutions. Desenvolvido a partir de processos coletivos, o projeto propõe uma reflexão crítica sobre a linguagem enquanto prática institucional, entendida como um sistema de poder que organiza, legitima e exclui, questionando a forma como as instituições culturais constroem e estabilizam significados.
O trabalho surge no contexto de um percurso curatorial marcado por práticas artísticas, reflexão política e atenção crítica às estruturas institucionais da cultura contemporânea. Desenvolvido por Cindy Sissokho, curadora e produtora cultural nascida em França, o Glossário Coletivo integra uma linha de investigação centrada em práticas anticoloniais e em abordagens sociais e políticas no campo das artes, visível também em projetos recentes desenvolvidos em contextos institucionais internacionais.
Antes de surgir como ferramenta curatorial, a reflexão sobre a linguagem nasce de uma experiência de desencontro com a língua. «Interessei-me por desenvolver uma reflexão crítica sobre crescer e tentar existir dentro de uma língua que não ressoava com a minha identidade», explica. A relação com o francês, a sua língua materna, surge como um primeiro espaço de fricção, marcado pela dificuldade em reconhecer-se plenamente nas palavras disponíveis.
Esse sentimento reaparece mais tarde no contacto com o universo institucional das artes. Ao observar os seus códigos, discursos e hierarquias, a curadora identifica um paralelismo entre linguagem e instituição: «a experiência de habitar estes espaços institucionais era, em muitos aspetos, semelhante à de tentar habitar uma língua». É a partir dessa equivalência – entre língua e instituição enquanto espaços de pertença e exclusão – que o Glossário Coletivo começa a ganhar forma.
Em conversa com a BANTUMEN, Cindy Sissokho sublinha a centralidade da linguagem nas estruturas de poder e a necessidade de questionar a ideia de neutralidade institucional, defendendo o potencial transformador de ferramentas construídas coletivamente. A escolha do formato responde à necessidade de criar um espaço onde diferentes pessoas possam nomear a sua relação com as instituições culturais a partir das suas próprias experiências, sem a imposição de um vocabulário legitimado à partida.
Concebido através de encontros, conversas e workshops, o glossário funciona como um espaço de ligação entre pessoas que atravessam as instituições de diferentes maneiras – enquanto profissionais, públicos, críticos ou participantes ocasionais. Os momentos de trabalho coletivo tornaram-se espaços de partilha, onde a vulnerabilidade assume um papel central. «Encontrar espaço para a vulnerabilidade em conjunto é fundamental, porque permite que cada pessoa encontre o seu lugar dentro do grupo.»
Ao assumir esta dimensão processual, o Glossário Coletivo afasta-se deliberadamente de modelos normativos e hierárquicos de produção de conhecimento. Em vez de fixar definições, abre espaço à ambiguidade, ao conflito e à experiência vivida, reconhecendo que o significado é sempre situado e atravessado por relações de poder.
A reflexão de Cindy Sissokho sobre a linguagem institucional manifesta-se na infraestrutura, na hierarquia, nos programas que são propostos e na forma como os espaços são experienciados. Sentir-se bem-vindo ou excluído, confortável ou intimidado integra esse vocabulário silencioso que continua a preservar autoridade e a limitar a agência do público.
A leitura ganha particular relevo quando situada no contexto histórico dos museus e centros de arte, marcados por heranças coloniais que ultrapassam o conteúdo das coleções: tornar visíveis esses mecanismos surge como condição mínima para qualquer transformação que não se limite ao plano simbólico.
Embora o projeto conte com a participação do CAM enquanto parceiro, a influência direta dessas instituições no conteúdo do glossário foi intencionalmente reduzida. A sua presença tornou-se visível no acolhimento do programa público, preservando a autonomia crítica da plataforma e evitando que a ferramenta se transformasse num prolongamento de uma lógica institucional específica. Parte dessa autonomia refletiu-se também no processo de submissão de termos. Todas as contribuições foram aceites, desde que respeitassem os critérios básicos «Era importante não excluir ninguém que quisesse partilhar algo pessoal ou algo em desenvolvimento», afirma. O glossário afirma-se, assim, como um espaço de visibilidade para ideias, histórias e projetos que muitas vezes permanecem fora do circuito institucional ou não encontram plataformas públicas.
Concebido como uma plataforma digital em constante atualização, o Glossário Coletivo recusa a fixidez associada aos documentos institucionais tradicionais. Ao longo dos próximos dois anos, continuará aberto a contributos internacionais, funcionando como um espaço de expressão, aprendizagem e construção de comunidade.
Questionar a linguagem institucional implica, neste contexto, expor fricções que nem sempre encontram resposta imediata. Ao tornar visíveis os mecanismos de exclusão inscritos no discurso e nas práticas institucionais, projetos como o Glossário Coletivo colocam as instituições perante exigências relacionadas com capacidade de revisão e transformação sustentada. A curadora sublinha que existem ações concretas ao alcance das instituições, desde a escolha das histórias que contam até às pessoas que convidam a partilhar o seu trabalho e as suas perspetivas. Reconhece, ainda assim, o desgaste associado a este tipo de intervenção. «É aí que o trabalho se torna mais suportável e, ao mesmo tempo, mais gratificante.»
A experiência acumulada ao longo deste trabalho levou Cindy Sissokho a identificar um limite recorrente no modo como as instituições incorporam linguagem crítica. Sem mudanças estruturais, esse vocabulário tende a circular como superfície discursiva, sem se traduzir em alterações concretas nas práticas institucionais.
Pensado para todas as pessoas que desejam sentir-se representadas e com agência dentro das instituições culturais, o Glossário Coletivo propõe-se como uma ferramenta de encontro e de escuta. Tornar visível a linguagem institucional é, para Sissokho, uma condição necessária para atribuir agência e abrir espaço a verdades desconfortáveis. «Não consigo fazer o meu trabalho sem assumir esse compromisso», conclui.