«Maré d’estórias» desafia crianças a reinterpretar a arte com Tristany e Ondjaki

A BANTUMEN falou com o escritor Ondjaki e o músico Tristany Mundu sobre o projeto participativo Maré d’estórias, que resultou num audioguia poético feito por crianças inspirado em obras da exposição «Linha de Maré. Coleção do CAM».
Marisa Mendes Rodrigues 24 mar 2025 5 min
BANTUMEN na Gulbenkian

Ondjaki e Tristany Mundu uniram forças no projeto Maré d’estórias, uma iniciativa do CAM, que explora o cruzamento entre literatura, música e pintura com um grupo de crianças. A proposta foi clara: reinterpretar obras de arte através da perceção infantil e criar um audioguia poético para o CAM, dando voz às narrativas espontâneas dos mais novos.

«Foi uma provocação do CAM», explicou Ondjaki. «O convite foi: usem a vossa arte, a vossa visão, a vossa maneira de ser, para, com um grupo de crianças, fazermos uma reinterpretação de obras de arte.»

Sessões do projeto «Maré d’estórias» © Artur Miranda

Desde o início, os artistas perceberam que estavam a lidar com dois mundos distintos: a liberdade imaginativa das crianças e a estrutura formal dos espaços museológicos. Ondjaki destacou que, em muitos casos, as crianças tinham interpretações completamente diferentes das esperadas. «Algumas obras invocam temas pesados, como a guerra e o sofrimento, mas as crianças faziam leituras novas, mais leves. Isso foi um privilégio de observar», contou o escritor.

Tristany partilhou uma experiência semelhante. Segundo o músico, a primeira reação das crianças ao conceito de arte revelou um padrão curioso: «Elas tinham muito a ideia de que arte é sofrimento. Falavam de tristeza, de melancolia… Isso é um pouco o que lhes é passado», disse.

Para contrariar esta visão, os artistas esforçaram-se por tornar a experiência mais lúdica e interativa, incentivando os participantes a libertarem-se da formalidade do museu. «Nós queríamos ser mais crianças e eles queriam ser mais adultos», comentou Tristany. «Sentíamos que tínhamos de fazer uma espécie de triagem, até que eles se sentissem à vontade. Se este tipo de projetos tivesse continuidade, as crianças sairiam daqui com um poder brutal para desconstruir o seu próprio imaginário sobre o que é uma obra de arte.»

Sessões do projeto «Maré d’estórias» © Artur Miranda

Ondjaki acrescentou que um dos aspetos mais interessantes do projeto foi a observação do impacto da arte sobre os mais novos. «O museu tem esta função: provocar. Mas, muitas vezes, a experiência do museu é silenciosa. As pessoas guardam para si as reações e só comentam depois, em casa. Aqui, nós incentivámos as crianças a falarem, a exteriorizarem o que estavam a sentir.»

A experiência também gerou reflexões sobre o ensino da arte nas escolas e o próprio modelo educacional atual. Ondjaki apontou que o sistema tradicional, com horários rígidos e métodos obsoletos, já não corresponde à forma como as crianças aprendem hoje. «Os métodos de aprendizagem estão desatualizados. As crianças não se reveem na ideia de estar sentadas durante 45 minutos, ouvir um professor a ditar matéria. A educação precisa de adaptação e a arte pode ser integrada noutras disciplinas – matemática, ciências, português. Por que não?»

Sessões do projeto «Maré d’estórias» © Artur Miranda

Tristany reforçou essa ideia com uma referência histórica. «Houve um tempo em que a ciência e a arte não estavam separadas. Um artista como Leonardo da Vinci era também cientista, porque o pensamento artístico estimulava a busca pelo desconhecido», afirmou. Para o músico, a separação entre as áreas acabou por enfraquecer a criatividade e a inovação no ensino.

Outra questão levantada durante o projeto foi a perceção da arte como algo elitista. Ondjaki acredita que esta realidade varia consoante a intenção de quem organiza as exposições. «Há galerias que não querem que toda a gente frequente o espaço. E há outras que pensam na arte como algo acessível para todos.» O escritor sublinha que não cabe ao artista criar para um público específico, mas defende que os espaços de exposição devem garantir que as suas obras chegam a um público mais amplo.

Sessões do projeto «Maré d’estórias» © Artur Miranda

Tristany acrescentou que, embora a arte em si não seja controlada por elites, a sua comercialização e aceitação podem ser. «A criação artística é livre, mas o acesso e a valorização das obras passam por mecanismos que acabam por criar barreiras», afirmou.

«A arte reflete a sociedade. Assim como nem toda a gente tem acesso aos mesmos hospitais ou escolas, também a arte está sujeita a essas diferenças. Uma escola pública em Lisboa é diferente de uma na margem sul ou na linha de Sintra. Isso acaba por se refletir em tudo, incluindo no acesso à cultura.»

Sessões do projeto «Maré d’estórias» © Artur Miranda

O resultado do Maré de Histórias será um audioguia alternativo para o CAM, que inclui não só as vozes das crianças, mas também a visão dos próprios artistas. O projeto vai ao encontro dos objetivos do CAM de diversificar a sua abordagem e atrair novos públicos. «A Gulbenkian não nos chamou só para executar uma ideia pronta. Tivemos liberdade para decidir e moldar o processo», destacou Tristany.

Ondjaki concluiu que esta abordagem é essencial para garantir um impacto real. «Poderiam ter encomendado um audioguia tradicional, mas escolheram fazer um alternativo, que inclui o pensamento e as vozes das crianças. Isso faz toda a diferença», concluiu.

Série

BANTUMEN na Gulbenkian

A BANTUMEN, plataforma dedicada à Lusofonia Negra, junta-se à Fundação Gulbenkian para oferecer um novo olhar sobre atividades e artistas, numa parceria que promove a diversidade das perspetivas e sensibilidades das comunidades afrodescendentes dos países que partilham a língua portuguesa.
Saber mais

Explorar a série

Relacionados

Definição de Cookies

Definição de Cookies

Este website usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. Podendo também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.