«Maria» e «Delmina», de Graça Morais

O CAM adquire duas novas obras da pintora Graça Morais para a sua coleção. Numa reflexão sobre «Maria« e «Delmina», a investigadora Laurinda Branquinho analisa o papel da mulher como tema central da obra da artista e a sua conexão com questões de género, território e memória.
Laurinda Branquinho 04 ago 2025 3 min
Obras da Coleção do CAM

Nascida no Vieiro, Trás-os-Montes, a pintora Graça Morais tem a natureza como parte de si. Ligada às raízes, aos rituais do campo, às pessoas e aos animais que dele fazem parte, a artista pinta o que vê sem nunca deixar de transfigurar a realidade. Resgata memórias, imagens de infância, a magia e o mistério da sabedoria antiga dos lugares rurais.

As mulheres são um tema central na sua obra. E são protagonistas das duas pinturas recentemente adquiridas pelo CAM: Maria (1982) e Delmina (1982). Ambas as composições têm a mulher e o animal como centro, em sobreposição. As linhas do corpo humano misturam-se com a fisionomia do animal, como dois corpos que não se estranham, que se olham, e talvez se reconheçam. Há entre os dois seres familiaridade, como se se tratasse de um mesmo corpo repartido.

As manchas a vermelho que surgem em ambas as pinturas evocam sangue e violência. Em Delmina surge sobre a perna do animal uma mancha redonda que parece aludir à ferida de um tiro, propondo uma possível dor partilhada. Já em Maria, há uma tensão mais evidente entre a figura feminina e o mundo animal. À esquerda da composição, a cabeça de um outro animal, de boca aberta, avança sobre o rosto da figura feminina como se a quisesse engolir. Não está claro se a ameaça é real ou simbólica, mas é um gesto suspenso no tempo que não se concretiza nem se resolve, carregando consigo um pressentimento.

Graça Morais, «Delmina», 1982. Coleção do CAM

O vermelho, presente em ambas as obras, convoca o sagrado do quotidiano e dos ciclos da vida – a dor, o trabalho, o parto, a morte. Sugerir uma semelhança entre a mulher e o animal, é expor as violências a que ambos são sujeitos e evidenciar a continuidade entre o corpo feminino, a ligação ao instinto, à sobrevivência e o conhecimento ancestral sobre a natureza.

Graça Morais, «Maria», 1982. Coleção do CAM

As duas figuras têm nome e dão título às obras: Maria e Delmina. Não são símbolos nem arquétipos. São mulheres concretas, com particularidades, de face vincada e olhar atento. Os rostos, enquanto lugares de expressão e memória, são as zonas de maior definição nas composições, numa nitidez que se torna um ato de reconhecimento e o ponto ancoragem da pintura. Nomeá-las é fixar a sua presença no mundo e contrariar o anonimato de tantas mulheres do meio rural. As suas identidades persistem mesmo quando o corpo se dilui na paisagem ou se funde, em metamorfose, com o animal.

Graça Morais pretende que o espetador entre no imaginário do mundo rural, propondo uma escuta atenta do invisível que atravessa a vida no campo. As figuras que pinta são presenças reais, moldadas por um quotidiano marcado pelo trabalho, pela proximidade à natureza e por formas silenciosas de resistência. Maria e Delmina abrem assim leituras sobre género, território e memória.

Série

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