Colorir o cinza inventando vidas e encenando fins: obra de Teresa Magalhães
Sem Título (1970–2012) de Teresa Magalhães evoca uma memória histórica e pessoal que não me pertence, mas que desejo habitar por um instante, quase como se fosse uma lembrança emprestada, ou um sonho lúcido que se oferece à minha imaginação.
A obra traz duas datas, um começo e um fim, que suspendem um limiar temporal de 42 anos. Foi iniciada em 1970, quando a artista ainda estudava na Escola de Belas-Artes de Lisboa.
Deveria ter sido o último ano de um curso que, pelo menos em teoria, prometia um refúgio onde o pensamento livre pudesse ganhar formas e cores para levantar temporaneamente o véu cinzento que o regime mantinha sobre a vida e as ambições. Mas mesmo ali, onde se insinuava alguma abertura, a fantasia permanecia contida: forçada a mover-se dentro de territórios já mapeados, habitados por convenções datadas e ideias exaustas que se arrastavam lentamente, sem fôlego, quase moribundas.
Poucos professores conseguiam despertar entusiasmo e abrir uma frágil fenda de luz entre as sombras da PIDE que dominavam a faculdade. Há algum tempo, Teresa Magalhães recordou como após uma daquelas raras aulas mais iluminantes, todas as obras produzidas pelos alunos foram sequestradas por ordem do diretor, acusadas de serem «inaceitáveis». Eram pinturas simples, frutos de um exercício em que se dividia a tela e se trabalhavam naturezas-mortas de forma intuitiva, apenas usando cores quentes ou frias. Ao silenciarem estas peças não particularmente ousadas, a resposta dos alunos foi emblemática: encenaram o «funeral das Belas-Artes» realizando o cortejo com um caixão no pátio icónico da faculdade, transformando censura em gesto artístico e luto em ato de libertação.
Neste contexto de vigilância e de clausura cultural, as viagens para fora do país eram para Teresa Magalhães janelas abertas onde podia recuperar luz, cor e um sentimento de emancipação.
Sem Título (1970–2012) foi inspirada numa dessas partidas, uma travessia de Mini até Torremolinos, no Sul da Espanha, onde acampou com uns amigos. Outra experiência decisiva que influenciou profundamente a sua maneira de pintar foi a ida a Londres. Enquanto na Escola de Belas-Artes era tradição ir a Roma para a viagem de final de ano, a artista e algumas colegas escolheram a capital inglesa – afastando-se da classicidade tanto venerada pelo conservadorismo académico para se aproximar de linguagens artísticas novas e proibidas, como a da Pop Art, que viria a influenciar esta pintura.
Cada vez que olho para Sem Título (1970–2012), imagino que a mulher de costas a entrar no Mini seja Teresa Magalhães, usando um dos seus vestidos feitos à medida, inspirados em revistas estrangeiras, cujo comprimento e cor desafiavam os costumes cinzentos da época. Além disso, embora a obra nasça dessa viagem a Espanha, quando a observo penso sempre naquele famoso funeral e gosto de imaginar que, no pequeno porta-bagagens da Morris Mini, poderia estar o lendário caixão das Belas-Artes.
Esta imagem especulativa diverte-me pelo seu paradoxo visual – um caixão dentro de um carro tão pequeno – mas é o contraste simbólico que encerra que realmente me fascina. Este automóvel estrangeiro, que levou Teresa e os amigos para fora do país, era na época considerado vanguardista, um ícone da contracultura, usado até pelos The Beatles. Imaginá-lo transportando dentro de si o cadáver do ensino fascista, torna-se uma visão na qual a modernidade e a juventude parecem conduzir ao túmulo o corpo exausto de um mundo antigo, rígido e repressivo.
Referindo-se a uma pintura anterior, Sem Título (1969), de estilo pop próximo a esta, Teresa Magalhães contou que, anos depois de a ter feito, passou a ver o céu vermelho da tela como um sinal da esperança de revolução que se aproximava. Gosto de pensar que, também em Sem Título (1970–2012), o vermelho visível no close-up da traseira do carro – onde imagino o caixão – represente essa mesma revolução, nascida de mortes tanto simbólicas quanto reais. Pouco depois de se sepultarem as Belas-Artes e as ideias fascistas que as sustentavam, faleceu Salazar, assinalando não só a decadência do regime, mas também a possibilidade de um novo horizonte.
A pintura foi finalmente concluída em 2012, quando Teresa a restaurou, à sua maneira, recolorindo algumas letras na parte inferior da obra, onde se encontra a collage. Nestes anos o Mini já não era novidade, nas Belas-Artes podiam-se pintar naturezas-mortas e havia mais liberdade de expressão na forma de vestir, mas o país enfrentava uma nova forma de clausura: a austeridade.
Centenas de milhares de pessoas voltaram às ruas contra a troika, ecoando o desassossego coletivo que atravessava o ano em que a pintura começou. Essas duas datas da pintura e os eventos a elas associados sugerem um ciclo de repetições – regimes autoritários, regimes estéticos, regimes financeiros – e, ao mesmo tempo, a persistência de sonhos de resistência popular que se recusam a morrer.
Sobre os anos do enterro das Belas Artes e da ditadura, Teresa Magalhães dizia que para desafiar aquela atmosfera opressiva exigia inventar uma vida original. Nesse gesto, ela e muitos dos seus companheiros não só inventaram uma vida, mas também encenaram uma morte, uma morte necessária para abrir espaço àquilo que ainda tinha de nascer. Hoje, talvez reste perguntar: que vidas teremos ainda de inventar – e que mortes teremos de encenar – para que novos mundos possam finalmente nascer?
Este texto tem por base escritos e entrevistas de Teresa Magalhães, assim como conversas com Marcos Magalhães, filho da artista, e com Ângela Freitas, colega de faculdade e amiga de Teresa. Gostava de agradecer a ambos pela generosidade das suas partilhas.