Dino D’Santiago e o Jardim de Verão da Gulbenkian, meia década depois
O Jardim de Verão da Gulbenkian acontece, este ano, entre 27 de junho e 12 de julho, ao longo de três fins de semana em que a Fundação Calouste Gulbenkian abre os seus jardins—e também o Edifício Sede e o CAM—a concertos, conversas, DJ sets, filmes e atividades para famílias, com entrada gratuita. É um gesto que faz daquele espaço, normalmente associado a um certo peso institucional, um território de toda a gente: o cartaz percorre Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Portugal, do mais tradicional ao mais contemporâneo, e inclui ainda a apresentação dos sete episódios da antologia “Novas Narrativas de Caça”, seguidos de conversas.
A curadoria musical está, pelo quinto ano consecutivo, nas mãos de Dino D’Santiago. Meia década de relação com a instituição, traduzida em mais de duzentos artistas no Grande Auditório, no Anfiteatro ao Ar Livre e no Jardim, e a uma forma de pensar a cultura afrodescendente no centro de Lisboa que se tornou, ela própria, parte da história da casa.
Nesta entrevista, Dino D’Santiago fala sobre o que aprendeu ao longo destes cinco anos de curadoria, sobre os critérios que o guiam na construção do cartaz, sobre a relação que foi desenvolvendo com a Gulbenkian e sobre uma travessia pessoal, entre Portugal, Cabo Verde e o Brasil, que reconfigurou a maneira como olha para a vida e para o trabalho.
Quando lhe perguntamos o que foi aprendendo ao longo do tempo, Dino regressa sempre ao mesmo ponto: as pessoas. A coisa mais bonita, diz, foi perceber o impacto que a cultura tem, onde quer que esteja. E mede esse impacto por sinais miúdos, quase domésticos: o momento em que as famílias dos próprios funcionários da Fundação passaram a querer estar ali, quando antes nem apareciam. “Mudou a forma como as famílias se apropriaram daquele espaço, que é de toda a gente”, resume. O peso simbólico não lhe escapa: começou por ver-se a si próprio como uma das poucas caras não-brancas à frente de um projeto daquela dimensão e, cinco anos depois, fala de um público que se desloca de Chaves, de Bragança, do Algarve, do Alentejo, só para viver o espírito do festival, e de programadores internacionais que, sempre que passam por Lisboa em digressão, lhe enviam o catálogo a pedir para entrar nesta história.
A frase que repetiu numa edição anterior—a de que curar música é, no fundo, curar encontros—mantém-se de pé, mas ganhou um acrescento que faz questão de sublinhar: “Só acrescentaria que curar música cura.” E sustenta-o com nomes e com carreiras como a de Jota.pê, que descreveu o concerto no anfiteatro como o melhor momento que viveu na Europa, e com quem passou desde então a colaborar; a Toty Sa’Med, hoje de regresso a Angola a fazer o mesmo exercício de curadoria junto dos talentos de lá; passando por Momi Maiga, do Senegal, que dali partiu para uma digressão pelo mundo; e por Libra, cuja carreira disparou depois daquele palco. Para Dino, o que torna tudo isto possível é a natureza democrática da proposta: um espaço no centro da cidade que enche sem que o artista precise de se preocupar com a bilheteira, com a estrutura montada e o público certo à espera da sua arte. É aí que reaparece a ideia que atravessa toda a conversa, e à qual ele volta como a um refrão, “a obra maior é o público. Só assim faz sentido.”
Oitenta por cento de caras novas, zero anticorpos: os critérios por trás de cinco anos de curadoria
O cartaz deste ano coloca lado a lado nomes consagrados e caras novas. Os Tubarões, um dos grandes nomes da música cabo-verdiana, partilham programação com Nancy Vieira, voz já há muito estabelecida, mas também com Soraia Ramos ou Rita Vian. Como se equilibra, então, o legado e a renovação? Dino corrige a premissa antes de responder, e a correção revela que não se trata bem de um critério, mas de uma proporção assumida. “Oitenta por cento do cartaz é de caras novas, de sangue novo.” A presença d’Os Tubarões, este ano, é uma das exceções que confirmam a regra, e explica-se por uma circunstância concreta: a Fundação levou a sua orquestra a Cabo Verde, no âmbito dos cinquenta anos da liberdade, e o convite ao grupo surgiu quase como retribuição desse gesto, num caso em que os custos de deslocação levariam, em circunstâncias normais, a privilegiar artistas já radicados em Portugal.
Mas há um critério que, esse sim, não admite cedência. “O primeiro critério é excelência, excelência artística”, afirma, e demarca-se de qualquer leitura assistencialista: não é um projeto existencialista nem social, é um projeto cuja intenção é que qualquer pessoa, venha de onde vier, assista a um excelente espetáculo. Para sustentar essa fasquia, Dino recorre a uma comparação: os artistas que sobem àqueles palcos têm potencial para construir carreiras da dimensão de Mayra Andrade, Carminho ou Slow J. A transição para esse patamar ainda não se deu, mas, no seu entender, é questão de tempo. A par da excelência, o segundo eixo passa por garantir um cartaz maioritariamente assente nos sons do tambor afrodiaspórico, e abrir espaço, ao mesmo tempo, a artistas portugueses que entendem esses trânsitos e fazem a sua própria travessia em contacto com as raízes.
Há ainda lugar para a descoberta, e é talvez aí que o festival mais se distingue de uma programação de nomes. Dino recorda o ano em que os Ferro Gaita subiram ao palco. Uma banda com que os cabo-verdianos cresceram, mas cuja dimensão muitos portugueses desconheciam, e que acabou por ser uma revelação, com a plateia sem parar de dançar. E há a generosidade dos próprios artistas, que descreve com gratidão: como todos recebem o mesmo cachê, cada um decide se vem com uma formação maior ou sozinho, de violão na mão, e não raras vezes opta por trazer a banda inteira. O que lhe interessa, diz, é que tragam aquilo que verdadeiramente são, e não uma versão reduzida de si mesmos.
Sobre a relação com a Gulbenkian, Dino é direto ao explicar porque continua ali ao fim de cinco anos, e a explicação tem tanto de gratidão como de surpresa. “Em cinco anos, sempre confiaram a cem por cento.” Descreve uma flexibilidade e um respeito que lhe permitiram conduzir as narrativas pelos próprios termos, sem ter sentido, em momento algum, que alguém se servia das suas plataformas para fins alheios; pelo contrário, é muitas vezes a própria Fundação a sugerir-lhe caminhos. É essa ausência de atrito, de “anticorpos”, que aponta como a verdadeira razão da permanência. E lê-a como parte de um movimento mais amplo da instituição: o de se transformar num espaço onde qualquer pessoa pode entrar, ainda que seja só para beber um café. Enumera, a propósito, o que a casa tem editado e exposto: o volume sobre as rotas do tráfico negreiro, que diz estar a devorar, ou a exposição complexo brasil, que trouxe livros inéditos e lhe deu acesso a uma parte da sua própria cultura que desconhecia. “Tornei-me fã, sem saber como era aquela casa”, confessa, acrescentando que, quando ali está, se sente em casa ao ponto de preferir assistir a trabalhar.
Na edição deste ano, um dos destaques vai para a série “Novas Narrativas de Caça”, cujos episódios vão ser exibidos na Fundação, com conversas que reúnem atores, produtores e realizadores em torno de cada um deles, acontecimento que classifica de histórico e que liga a um sinal mais largo. A série, nota com evidente entusiasmo, chegou ao topo das mais vistas na RTP, o que para ele desmente a ideia de que a produção afrodescendente vive confinada à internet e prova que o público quer mesmo absorver aquilo que se faz. “Nós sempre fizemos. Simplesmente agora são melhores, as plataformas.”
Salvador, a Amazónia e o conselho de Criolo: a travessia atlântica que reconfigurou tudo
A leitura destes cinco anos não se faz, porém, sem o que aconteceu em paralelo na vida de Dino, e é aqui que a conversa muda de registo. Os últimos três anos foram, nas suas palavras, uma travessia, sobretudo o tempo passado no Brasil, que lhe deu um espaço que diz não ter tido antes: o da espiritualidade ligada ao continente africano. Conhecia as religiões de matriz africana de longe, sobretudo pela internet, e sentia que, mesmo no continente, as culturas muçulmana e católica predominavam; chegar a Salvador, onde essas raízes permanecem vivas, foi um choque térmico que descreve como bom, e que coincidiu com um período em que questionava muito o seu lugar naquele triângulo entre os PALOP, o Brasil e Portugal. Hoje, antes de subir ao palco, reza aos seus orixás. Reconhece-se filho de Oxóssi—o caçador que tem uma única flecha e por isso não pode falhar—e atribui a essa imagem uma mudança a nível pessoal e profissional: deixou de “disparar flechas à toa” e tornou-se mais assertivo na vida. Ao mesmo tempo, faz questão de notar, cresceu também a sua admiração pela presença de Jesus Cristo na Humanidade.
Foi um conselho de Criolo, cantor, rapper e compositor brasileiro, que o ajudou a habitar a tensão de pertencer a vários lugares ao mesmo tempo. “Não tens de segurar bandeira nenhuma a não ser a tua existência”, recorda terem-lhe dito, numa altura em que sentia quase ter de reclamar o direito de pertencer ao país onde nascera. Filho de cabo-verdianos nascido em Portugal, com duas pátrias que ama e o direito de usufruir de ambas, ganhou no Brasil uma terceira que lhe deu espaço para vibrar na sua africanidade sem ter de lutar por esse lugar. Daí a gratidão, que quantifica: mais de oitenta por cento da sua biblioteca vem do Brasil, país que traduziu e estudou pensadores e filósofos africanos e afro-brasileiros a quem, diz, não teria acesso a partir da Europa e cuja perspetiva distingue da norte-americana, demasiado centrada, no seu entender, na história afro-americana.
No fundo de tudo há uma reorientação de prioridades, que situa com precisão no tempo: depois de ser pai, percebeu que tudo o que fazia passava a ter impacto direto nos filhos. Quinze dias na Amazónia ensinaram-lhe que aquilo a que chamava silêncio era, afinal, ausência de vida. Custou-lhe adaptar-se à floresta “sempre aos berros”, até que, por volta do sexto dia, entrou em harmonia e entendeu que era aquela a conexão com a natureza que os povos africanos sempre sentiram. “Por isso é que sofremos quando vimos trabalhar para a Europa”, observa. A partir daí, focou-se na família e na ação social, e o projeto Mundu Nobu, associação que dirige com Liliana Valpaços, tornou-se um dos pilares da sua vida, com os miúdos que acompanha a ocuparem o lugar de filhos. Quanto às redes sociais, optou pelo afastamento deliberado: não lê mensagens, faz as suas partilhas e segue em frente, recusando-se a ser absorvido por aquele campo energético. “A rua sempre me deu amor”, diz, por oposição ao universo paralelo que se construiu online e que deixou de legitimá-lo.
Sobre o que pede a esta edição, Dino deixa um conselho que é tanto prático como ético. Os bilhetes são gratuitos e levantam-se no próprio dia, a partir das 15h00 e até dois por pessoa. E quem desconfie que afinal não vai a um concerto deve abster-se de levantá-los, para não ocupar o lugar de quem realmente quer estar ali. É um cuidado que, nas suas palavras, prolonga o próprio espírito da coisa: o de famílias sentadas na relva, com colunas a tocar, corpos a pertencer àquele lugar sem atrito. Mais do que a música, mais do que qualquer outra coisa, é essa apropriação do espaço que considera o mais belo do Jardim de Verão. É, no fim, a mesma ideia por outras palavras: a obra maior é o público.
E depois do verão? Em setembro, Rio de Janeiro e uma digressão pelo Brasil. E, no último trimestre do ano, um novo álbum—o primeiro depois de Badiu, editado em 2021, gravado ao longo de três anos, precisamente nessa travessia entre Brasil, Cabo Verde e Portugal, abordagem semelhante ao projeto Criolo, Amaro & Dino, lançado este ano. O nome já existe, mas fica guardado: há uma intervenção artística a ser preparada para o momento da revelação.