Da terra à boca, da boca ao coração
Numa visita à CERCIAV, em Aveiro, somos convidados a começar pela boca. Um caldo de alga kombu e outros legumes, cozinhado durante seis horas, serve de ponto de partida para uma experiência sensorial que nos desafia a prestar atenção aos sabores, aos aromas e à origem dos alimentos. É um pequeno exemplo do trabalho desenvolvido nos Laboratórios Climáticos de Criação Artística – Alimentação, dinamizados por Mariana Silva Oliveira, no âmbito do projeto Da Terra à Boca, da Boca ao Coração.
Enquanto provamos o caldo, ouvimos falar de fermentação, biodiversidade e alimentação sustentável. Ao longo da tarde, conhecemos também alguns objetos-manifesto, resultado de oficinas de arquitetura e design, concebidos para responder a cenários de cheias e escassez de recursos, e conhecemos o processo de criação performativa que dará origem a um espetáculo construído coletivamente.
Desenvolvido pela 4iS Inovação Social, em parceria com a CERCIAV e o Colectivo Warehouse, o projeto reúne pessoas com deficiência ou incapacidade, artistas, técnicos e mediadores num processo de criação e aprendizagem que cruza diferentes disciplinas de expressão artística para responder às inquietações que os efeitos cada vez mais visíveis das alterações climáticas provocam no território.
Um projeto que nasceu da escuta
Há já alguns anos que a 4iS e a CERCIAV têm vindo a trabalhar juntas em iniciativas de participação cultural e artística, construindo uma relação de proximidade e confiança que permitiu conhecer melhor as aspirações, preocupações e capacidades dos participantes.
Num território marcado pela proximidade da Ria de Aveiro, os impactos das alterações climáticas fazem parte do quotidiano de muitas famílias. A subida do nível do mar, as inundações, os períodos de seca e as alterações nos ecossistemas locais não são apenas previsões para o futuro.
“Percebemos que havia um conjunto de medos, ansiedades e inquietações que apareciam repetidamente nas conversas”, explica João Pedro Rosa, cofundador e diretor-geral da 4iS. “Mas também percebemos que estas pessoas raramente eram chamadas a participar nas discussões sobre o tema.”
“Começámos por ouvir as pessoas”, acrescenta Diana Lima, cofundadora da 4iS e responsável pela área de inovação e desenvolvimento, “e percebemos que estávamos a construir um percurso. Começamos na terra, porque é aí que tudo tem origem: os ecossistemas, a agricultura, as paisagens que habitamos. Depois chegamos à boca, associada à alimentação, mas também ao diálogo e à partilha. E terminamos no coração, que está ligado à saúde, às emoções e àquilo que nos mobiliza para agir.”
Mais do que um projeto artístico, a iniciativa procura criar oportunidades para que pessoas habitualmente afastadas dos espaços de decisão possam contribuir para conversas fundamentais sobre o futuro. “Não queríamos apenas sensibilizar; queríamos criar condições para que estas pessoas se vissem como agentes de transformação, capazes de interpretar aquilo que está a acontecer à sua volta e de participar ativamente na construção de respostas”.
Aprender pelos sentidos
O trabalho na CERCIAV, entretanto alargado a outras instituições parceiras da região de Aveiro, incluindo a CERCIMIRA (Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Cidadãos de Mira), a CERCIAG (Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos com Incapacidades de Águeda,) e o CASCI (Centro de Acção Social do Concelho de Ílhavo), passa por dois formatos: os laboratórios criativos, que acontecem com uma regularidade semanal, e as residências artísticas.
Nos Laboratórios Climáticos de Criação Artística – Alimentação, a reflexão passa pelo corpo e pelos sentidos. Ao longo das sessões, os participantes exploram novas formas de olhar para os alimentos, experimentam ingredientes pouco familiares, produzem conservas e fermentados, e discutem a relação entre alimentação, saúde e sustentabilidade. “O que procuramos é desenvolver uma alimentação mais consciente”, explica a dinamizadora, Mariana Oliveira. “Parar para observar, perceber as texturas, os aromas, a origem dos alimentos e aquilo que eles provocam no nosso corpo.” A cozinha transforma-se assim num espaço de descoberta, mas também de criação.
Mas a alimentação é apenas uma das linguagens do projeto. Há também laboratórios de expressão dramática e residências artísticas, desenvolvidos por Patrick Murys e Pepa Macua, num trabalho que tem vindo a consolidar-se desde o ano-piloto, em 2025, e envolve atualmente um grupo estável de participantes.
Entre eles está André, que descreve a experiência como um processo de descoberta. “Trabalhámos sobretudo a confiança em nós próprios e nos outros”, conta. “Aprendemos a comunicar, a passar uma mensagem, a estar em palco sem medo. Despertou uma vertente artística enorme. Fez-nos perder o medo e ajudou-nos a ser nós próprios.”
Para João Pedro Rosa, o envolvimento dos participantes continua a surpreender a equipa. “Estamos a trabalhar com um compromisso impressionante. Desenvolvem improvisações, comentam o trabalho dos colegas, recebem críticas e continuam o processo. Criou-se uma verdadeira ética de trabalho artístico.” A continuidade do projeto, pensado numa abordagem de longo-prazo, tem sido determinante, permitindo aprofundar relações, desenvolver competências e consolidar aprendizagens.
Imaginar respostas para um futuro incerto
A par com a alimentação e a expressão criativa e dramática, a imaginação ganha particular relevância nas oficinas de arquitetura e design desenvolvidas pelo Colectivo Warehouse, em colaboração com formandos das áreas de carpintaria e agricultura da CERCIAV.
Em exposição nos jardins da cooperativa encontramos estruturas construídas em madeira e materiais reutilizados. Algumas lembram máquinas agrícolas; outras parecem protótipos saídos de um exercício de ficção científica. Na realidade, são objetos-manifesto desenvolvidos pelos participantes destas oficinas. “O primeiro passo foi identificar preocupações e desafios”, explica Mari Cara d’Anjo, uma das arquitetas que integram o Colectivo Warehouse. “Depois procurámos transformá-los em objetos que ajudassem a imaginar possibilidades.”
Entre as propostas encontra-se uma “Jangada Apocalíptica”, concebida para responder a cenários de inundação, equipada com zonas de cultivo, sistemas de recolha de água da chuva e espaços de armazenamento de sementes. Outras estruturas exploram formas de enfrentar secas prolongadas ou proteger culturas agrícolas expostas a fenómenos meteorológicos extremos.
Mais do que apresentar soluções técnicas acabadas, os objetos materializam perguntas, receios e desejos expressos pelos participantes. Nas palavras de João Rosa, “quando alguém imagina uma jangada para enfrentar as cheias ou um sistema para proteger uma horta da seca, está a fazer mais do que construir um objeto. Está a refletir sobre problemas reais e a imaginar formas de lhes responder. Isso é participação.”
Um lugar à mesa das decisões
Ao longo da visita, surgiu repetidamente uma ideia: a importância de criar contextos onde os participantes possam revelar capacidades frequentemente invisibilizadas. João Rosa recorda o caso de Marco, participante surdo que integrou as oficinas de arquitetura e design. “Num exercício de desenho técnico, começou a comunicar connosco através do desenho. Percebemos que tinha uma capacidade extraordinária de representação visual.” Hoje, Marco continua ligado ao projeto e é apontado pelos formadores como uma presença essencial nos processos de criação coletiva.
Histórias como esta ajudam a compreender por que razão a equipa insiste tanto na participação efetiva dos participantes em todas as fases do projeto. Não se trata apenas de envolvê-los em atividades. Trata-se de criar condições para que possam imaginar soluções, tomar decisões e contribuir para conversas que habitualmente acontecem sem eles.
Foi isso que Diana Lima sentiu no final da primeira residência da fase piloto. Nesse dia, os participantes tinham levado a “Jangada Apocalíptica” até à água para testar se a estrutura que imaginaram conseguia realmente flutuar. O exercício marcava o culminar de um intenso processo de criação coletiva, mas as conversas rapidamente foram além do objeto construído. “Perguntavam-nos: e agora, como fazemos chegar isto às pessoas que decidem? Como mostramos que estas ideias são importantes?”, recorda. “Para mim, esse foi um momento decisivo. Percebemos que o projeto estava a cumprir aquilo que desejávamos: criar condições para uma participação ativa e para uma verdadeira cidadania.”
Da terra à boca. Da boca ao coração. Um percurso que começa na observação do território, passa pela criação artística e desemboca numa ideia simples: todos devem ter um lugar à mesa quando se imaginam futuros mais inclusivos e sustentáveis.