“Às vezes, quando estou aqui na ópera, esqueço até que estou preso”
“Cantamos, dançamos, rimos um bocadinho, falamos sobre as nossas emoções” – assim descreve Pedro Pinto a participação no projeto Ópera na Prisão. E acrescenta: “Também era um bocado tímido, deixei de ser reservado”.
“Ópera na Prisão” é um projeto que procura diminuir a taxa de reincidência criminal através da prática do canto lírico e do teatro musical no Estabelecimento Prisional de Leiria-Jovens, desde 2014. Atualmente o projeto encontra-se na edição “Mozart On”, que tem como objetivo abrir à comunidade leiriense o Pavilhão Mozart, um espaço prisional adaptado exclusivamente para a criação artística, com apresentações públicas trimestrais.
Para David Ramy, coordenador, o primeiro efeito do projeto é “desmistificar que a ópera é uma coisa de senhoras que cantam numa outra língua e dão uns berros que não se percebe nada”. Nas óperas de Mozart “está o ser humano inteiro. A experiência de palco, a catarse artística, é uma ferramenta de mudança muito grande. E eles saírem um bocado de ser o criminoso e ser um artista, volta a colocar neles uma outra postura, e na família e na sociedade também”.
Os participantes Fábio Santos e José Fernandes destacam “a junção de culturas – a cultura cigana, brasileira, afrodescente”, que ajuda a ganhar empatia e sensibilidade pela diferença, e o tratamento “de igual para igual”: “Aqui, o David, não é por sermos reclusos ou pelo crime que cometemos, que nos trata de maneira diferente. A partir do momento em que entramos por aquela porta, somos pessoas iguais”.
Já para Augusto Matemba, o que fica é uma sensação de liberdade. “Às vezes, quando estou aqui na ópera, esqueço até que estou preso. Estou noutro mundo”.
Este projeto, que tem o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação “la Caixa”, resulta da parceria entre a Sociedade Artística Musical dos Pousos e a Direção-Geral de Reinserção e dos Serviços Prisionais.