“Viva as Cantadeiras do Campo do Gerês!”
Carmelita Pires recorda-o bem: “Nasci no Campo do Gerês, ali numa casinha, no meio da aldeia, no dia 13 de outubro de 1948. A gente cantava desde pequena em casa. Cantei sempre.”
O projeto “Aldeias Criativas”, promovido pela associação cultural Rural Vivo, são, na verdade, “vários projetos que pretendem dinamizar uma oferta cultural para diferentes comunidades que habitam nesta aldeia e noutras”, explica Evelyne Mussons, responsável pela direção social. Uma parte do projeto foi a colaboração com o Grupo das Cantadeiras do Campo do Gerês, que é “um grupo muito antigo, local, polifónico.”
Para Rita Barros, participante, o primeiro contacto deu-se num momento festivo: “Conheci-as num S. João. Deram aqui um espetáculo muito bonito, na Eira Grande, altura em que fui falar com elas, a perguntar se seria possível juntar-me ao grupo.” Desde então, esses encontros são “momentos intensos de partilha e aprendizagem”.
Mas nem tudo são memórias de abundância. “Vinha gente de todo lado para aqui, dançar e cantar connosco. Mas, agora, estamos tão pouquinha gente, sabe? Não há nem uma terça parte. Este lugar está roubado. Foi-se tudo daqui”, lamenta Lúcia Dias, outra participante.
A diretora artística, Teresa Melo Campos, sublinha a força do canto como ferramenta de pertença e conexão: “O canto tem esse potencial de juntar pessoas, de trazê-las para cá, fazer com que elas empatizem com a história dos lugares, fazer com que sintam que aprendem dos próprios lugares.” E acrescenta: “Há um aspeto da música tradicional que é contar episódios da vida quotidiana da gente. No fundo, acompanhar as várias fases – do nascimento ao envelhecimento, os trabalhos, o que se cultiva, como é a paisagem.”
A aposta nas artes participativas revelou-se empoderadora, tanto para a comunidade como para a própria equipa promotora. “Permite-nos crescer e, em coletivo, quando acontece, tem um efeito terapêutico muito forte”, defende Evelyne Mussons. “Nós já estávamos um pouco na área das artes participativas e comunitárias, mas sem muita consciência do que estávamos a fazer. Quando olhamos para trás, percebemos que já estávamos nesse caminho. E, então, a iniciativa PARTIS & Art for Change ajudou-nos a seguir mesmo este rumo.”
Entre vozes antigas e novas, entre memórias de abundância e desafios da atualidade, o projeto mostra que cantar continua a ser uma forma de manter vivo o lugar – e de reinventá-lo para o futuro.