A preservação do Espólio Helena Almeida
Helena Almeida (1934–2018) foi uma das artistas mais relevantes da arte contemporânea portuguesa. Reconhecida pela exploração do corpo, do espaço e do gesto na pintura, na fotografia e no desenho, desafiou consistentemente os limites tradicionais da representação artística.
Doado à Biblioteca de Arte em 2022, o espólio Helena Almeida constitui um recurso indispensável para compreender a vida e a obra desta artista de referência internacional, cuja criação marcou profundamente a arte contemporânea portuguesa.
Esta incorporação veio enriquecer um acervo que já integrava os espólios de Fernando e Cândida Calhau, Fernando Lemos, René Bértholo e Alberto Carneiro, entre outros artistas plásticos portugueses. Nesse sentido, veio também reforçar a missão da Biblioteca de Arte enquanto fonte de informação especializada, original e autêntica relacionada com a criação e produção artística contemporâneas, sobretudo nas áreas das artes visuais, da arquitetura, da fotografia e do design em Portugal, do século XX até à atualidade.
O espólio está organizado em dois grandes núcleos – o fotográfico e o textual – e inclui ainda a biblioteca da artista.
A componente fotográfica é constituída por cerca de onze mil espécies. Neste grupo incluem-se os negativos originais das suas obras e as provas de contacto dos trabalhos que realizou entre 1968 e 2018. E ainda negativos de trabalhos identificados pela própria como “não realizados, maus, não executados”.
Este conjunto tem uma relevância fundamental para a compreensão do processo de criação artística e da dinâmica de trabalho de Helena Almeida. Com efeito, até meados da década de 1980, a artista atribuía números de referência aos trabalhos que produzia, o que possibilitou a reconstituição do seu fluxo de criação, desde o início da sua atividade. Nas provas de contacto observam-se notas manuscritas, com a seleção das imagens, indicações sobre cortes, margens, contrastes, dimensões e montagens, quase sempre dirigidas ao técnico do estúdio de fotografia.
Além dos negativos originais das obras, este núcleo reúne negativos, provas de contacto e provas fotográficas de médio formato que reproduzem obras de arte e eram utilizados para comunicação com galerias e museus ou para ilustrar catálogos e publicações, bem como maquetas e protótipos de diversos catálogos.
Já a componente textual, ainda em tratamento, integra um vasto conjunto de recortes de imprensa, documentação relativa a exposições – como plantas dos espaços expositivos e listas de obras com anotações manuscritas – várias versões de textos para catálogos, muitas vezes dactilografados e corrigidos, assim como correspondência pessoal e institucional com galerias, museus e outras entidades nacionais e internacionais.
Com o espólio, a Biblioteca de Arte recebeu também parte da biblioteca da artista, que integra mais de 480 monografias e publicações periódicas e que, entretanto, já se encontra catalogada e disponível para consulta.
O projeto de preservação
O projeto de preservação e tratamento documental do espólio, iniciado em 2024, teve como objetivo assegurar a conservação, organização e descrição da documentação, respeitando o seu contexto de produção e garantindo a sua consulta pelos leitores.
Os trabalhos consistiram, numa primeira fase, na realização de uma pesquisa bibliográfica exaustiva sobre a vida e obra da artista, seguida do estudo da organização do espólio, permitindo compreender e definir a sua estrutura documental original.
Paralelamente, procedeu-se à observação de todos os documentos, recorrendo, em alguns casos, à ampliação com microscópio digital, de modo a detetar possíveis deteriorações e anomalias físico-químicas.
Após a observação foi realizada a higienização de todos os exemplares, em função das patologias apresentadas: a maioria foi limpa mecanicamente com pera de sopro e trincha, mas em casos de evidência de atividade biológica e de remoção de determinados adesivos, procedeu-se à limpeza por via química, através do uso de álcool etílico a 96%.
Os adesivos cristalizados, amarelecidos e com perda de função, foram substituídos por adesivos de conservação.
Após esta limpeza, todos os documentos foram numerados e acondicionados em embalagens de conservação, respeitando sempre a ordem estabelecida pela artista, incluindo a manutenção da agregação física da relação entre os negativos e as provas de contacto, de modo a assegurar uma completa compreensão da sua metodologia de trabalho.
Paralelamente, foi realizado o pré-processamento da documentação, o qual consistiu na descrição de todos os exemplares, a partir da respetiva unidade de acondicionamento, e na indexação dos seus conteúdos, sempre que alusivos às obras de arte.
Após a conclusão das ações de conservação e descrição, o espólio foi armazenado em depósito climatizado, assegurando condições adequadas para a sua preservação a longo prazo.