Soltar o corpo, abrir espaço: um palco para todos
“Livre como uma gaivota”: assim descreve Cristina a sua experiência no projeto “Gatilho”. A liberdade do movimento, mas não só: também a possibilidade de ocupar um palco sem pedir licença, de dançar sem ter o corpo ideal, idade esperada ou rótulo imposto. “Chegamos com as nossas vergonhas, os nossos bloqueios, ferramentas que nunca tivemos, e começamos a desbloquear isto tudo. E, de repente, estamos soltos e a criar, num momento de alegria”, partilha Ana Carla Cabrita, outra participante.
Em colaboração com o NECI – Núcleo Especializado para o Cidadão Incluso –, em Lagos, e promovido pela associação Questão Repetida com direção artística de Albina Petrolati, o “Gatilho” nasce com um objetivo claro: abrir espaço para que pessoas com deficiência possam ser vistas, ouvidas e reconhecidas no contexto artístico e comunitário. “O projeto Gatilho nasce da exigência, acima de tudo, de as pessoas com deficiência terem visibilidade”, afirma Albina.
A primeira fase do projeto teve início com utentes da instituição NECI; no segundo ano, o grupo abriu-se à comunidade. “Tivemos essa recetividade com este grupo fantástico”, explica a diretora artística. Hoje, o coletivo inclui pessoas com e sem deficiência, de várias idades e experiências de vida.
Composto por cinco blocos de formação – Teatro, Dança, Música, Realização Plástica do Espetáculo e Técnica –, o projeto convidou artistas de diferentes áreas para liderar oficinas, que culminaram em apresentações públicas. Aldara Bizarro, coreógrafa convidada, confirma o impacto da experiência também para quem está de fora: “Há uma grande aprendizagem quando estamos com pessoas que não são exatamente como nós. Mexe comigo do ponto de vista emocional, mas também me dá uma certa paz”.
O trabalho desenvolvido – com apoio da iniciativa PARTIS & Art for Change, da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação “la Caixa” – tem reflexos concretos na vida do grupo: maior autonomia, autoestima, memorização, presença. “Há uma grande evolução, sem dúvida”, nota Albina.
Para Luís Navarro de Almeida, a motivação para subir ao palco é clara: “Fazer o melhor possível para haver um público que venha ver o espetáculo porque tem qualidade. Não é porque somos gordos ou mais velhos ou há pessoas diferentes no grupo”. E acrescenta: “O que cresceu com todos foi a autoconfiança”.
Daqui para a frente, haverá ainda um longo percurso a percorrer. “Esta foi a primeira caminhada”, sublinha Elsa Mathei, responsável pela direção do projeto. “A segunda caminhada [será] talvez mais relacionada com a formação, através das artes e para as artes, para pessoas com deficiência”.