Piny: «A ideia de inclusão parte de um lugar de hierarquia»

Piny é uma artista, arquiteta, performer, bailarina e coreógrafa. Natural de Lisboa, mas com raízes em Angola, a sua vida foi sempre um equilíbrio constante entre duas artes que, embora distantes, foram a soma para que se sentisse completa: a arquitetura e a dança.
Eddie Pipocas, Marisa Mendes Rodrigues 28 jan 2025 5 min
BANTUMEN na Gulbenkian

Nesta entrevista, Piny falou-nos sobre a sua experiência com o Laboratório de Imaginação, onde teve total liberdade para desenvolver e implementar um projeto focado no corpo como experiência da alma e como espaço de expressão física e emocional. No seu programa, convidou outros artistas com quem já trabalhou, valorizando redes de cuidado e afeto. A abordagem usada abrange desde questões físicas, como toque, cor da pele e textura do cabelo, até reflexões sobre as mecânicas da dança.

Para selecionar participantes, Piny priorizou diversidade, focando-se em pessoas racializadas, trans e dissidentes, muitas vezes excluídas de espaços institucionais. Com 40 selecionados, o projeto é gratuito para os participantes, permitindo inclusão de pessoas com menos recursos. 

Aproveitando a sua participação nesta plataforma de experimentação, que procura explorar novas formas de pensar e atuar sobre os desafios do presente, e imaginar outros futuros possíveis – conversámos com a artista sobre descolonização da Educação e da Arte.

Durante o final da década de 90, Piny começou a estudar arquitetura e admite que esse período foi parte importante para perceber pela primeira vez a discrepância entre o centro e a periferia. À época, morava em Santo António dos Cavaleiros e, mais do que o tempo que demorava a chegar à Universidade, chocava-a a distância, no sentido literal e simbólico, entre os dois mundos. «Essa realidade começou a moldar o meu olhar sobre a cidade, as tensões e os espaços de conflito», relembra.

A conexão que tem até hoje com o hip-hop foi um ponto de partida crucial para a sua compreensão da cidade e das dinâmicas urbanas. Foi através de formas de expressão como o grafitti e o breakdance que encontrou uma forma de ler os códigos das ruas e conectar-se com outras pessoas.

«Eu comecei a ouvir muito hip-hop, e havia temas que ressoavam em mim», confessa, admitindo que no período que antecedeu a era da internet e das redes sociais, costumava frequentar festas de hip-hop na margem sul e explorar espaços como a Casa Amarela e o Metro da Rotunda, em Lisboa. Não nega que todas essas experiências foram uma ajuda essencial para construir uma base cultural e criativa capaz de transcender os limites académicos. 

«Dependendo do local, eu escolhia apresentar-me como bailarina ou arquiteta. Era uma forma de valorizar tanto o percurso académico quanto o de rua», partilha. Essa habilidade de navegar entre dois mundos permitiu-lhe desafiar estigmas e encontrar uma voz autêntica, mas ainda assim não deixa de criticar as barreiras e limitações, quer ao nível do reconhecimento, quer ao nível das oportunidades que os artistas enfrentam. «Na dança, nunca chegas a esse lugar de visibilidade como acontece com outras artes», lamenta.

Parte do trabalho que desenvolve atualmente é marcado pela luta contra a institucionalização eurocêntrica da cultura e por um olhar que entenda as formas da cultura urbana como formas de resistência e expressão. Para Piny, é crucial resgatar saberes africanos e incluí-los nos currículos escolares, mas mais do que isso, é necessário resolver essa lacuna de representação, que na sua opinião se reflete na ausência de artistas negros em posições de poder e decisão.

«Estamos ainda num sistema hiper eurocêntrico, onde o que nos ensinam é apenas uma versão da história», reflete. O resgate da ancestralidade é, portanto, uma missão pessoal e política. «Dizer os nomes faz com que as pessoas não desapareçam», reforça.

Visitou Angola apenas uma vez e não esconde que foram tempos de descobertas, mas também de desafios. De um lado, o confronto com a própria história e com dinâmicas familiares marcadas pelo colonialismo e patriarcado. Do outro, a espiritualidade, a música, a dança e o (re)encontro mais profundo com a ancestralidade.

Crítica da ideia de inclusão como gesto condescendente, defende que deve existir um verdadeiro sentimento de pertença nos espaços institucionais. «A ideia de inclusão parte de um lugar de hierarquia. O que precisamos é pertencer, estar», afirma. E sublinha: os códigos da rua também são conhecimento. Reconhecê-lo é valorizar os saberes informais e comunitários, reconhecendo a riqueza da oralidade e da experiência vivida, mas é acima de tudo descolonizar os espaços institucionais e educacionais, integrando códigos e linguagens que reflitam a diversidade das culturas urbanas.

Certa de que é na comunidade que está a força, Piny trabalha para construir pontes entre o popular e o académico. «Se eu abro uma porta, não vou sozinha; levo quem veio antes de mim e quem vem atrás». O seu sonho é um futuro onde corpos, vozes e histórias encontrem espaço, respeito e equidade.

Série

BANTUMEN na Gulbenkian

A BANTUMEN, plataforma dedicada à Lusofonia Negra, junta-se à Fundação Gulbenkian para oferecer um novo olhar sobre atividades e artistas, numa parceria que promove a diversidade das perspetivas e sensibilidades das comunidades afrodescendentes dos países que partilham a língua portuguesa.
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