Quantos «brasis» existem?
complexo brasil chega à Gulbenkian para mostrar o país a partir das suas singularidades
A exposição complexo brasil, patente na Fundação Calouste Gulbenkian até 17 de fevereiro de 2026, constrói uma leitura crítica e sensorial das múltiplas identidades que compõem o território brasileiro e propõe um diálogo direto com o público português sobre a herança, as tensões históricas e as estéticas contemporâneas que moldaram e continuam a moldar o país.
O projeto, que demorou três anos a ser concebido, é assinado por um trio de curadores com percursos distintos – Milena Britto, Guilherme Wisnik e José Miguel Wisnik –, e procura afastar leituras simplificadas ou folclorizadas sobre o Brasil, apresentando-o como «uma entidade viva, múltipla e impossível de captar na totalidade».
O ponto de partida da exposição assenta na dimensão continental do Brasil e na forma como a geografia, a história e a diversidade cultural produziram realidades distintas entre si. A vastidão territorial e a coexistência de biomas, climas e modos de vida deram origem a regiões com dinâmicas próprias: a vida urbana de São Paulo contrasta com a ruralidade do interior de Goiás da mesma forma que Salvador preserva expressões culturais afrodiaspóricas que não se manifestam da mesma maneira noutras partes do país.
Para Milena Britto, compreender o país exige reconhecer que «são muitos Brasis, que só podem ser entendidos se experimentados». Essas diferenças revelam-se nas geografias, mas também nas línguas, nas relações com a natureza e nas memórias partilhadas, moldando identidades regionais que coabitam sem se confundirem.
A curadora sublinha que esta multiplicidade tem raízes profundas. Antes da chegada dos colonizadores portugueses, coexistiam no território diversas nações indígenas, com organização social e cosmovisões próprias. Com o processo colonial e, mais tarde, com a formação do Estado brasileiro, essas culturas foram sendo empurradas para a invisibilidade, enquanto outras camadas se impunham – da escravização de africanos ao desenvolvimento urbano acelerado no século XX. Lembra ainda que a história brasileira não se reduz ao período colonial e que o país «é independente há duzentos anos, com processos políticos e sociais que não podem ser explicados apenas pela relação com Portugal».
Nas suas palavras, para se compreender o Brasil é necessário aceitar que o colonialismo é uma parte da história, mas não a totalidade: «há conflitos, lutas e contradições que se desenvolveram dentro da própria nação, muitas vezes de vida, outras de morte». A exposição convocou todas essas temporalidades para compor um retrato que não se fixa em fases isoladas, mas na simultaneidade dos seus efeitos sobre o presente.
É neste cruzamento que surge o conceito de «complexo», um termo que, segundo Milena, comporta a intersecção entre história, território, política, urbanização e cultura. Complexo como rede de elementos que se influenciam mutuamente; complexo como lugar físico associado a conflitos, como o Complexo do Alemão; e complexo como nó simbólico que não se desfaz sem expor o que foi encoberto.
A exposição procura precisamente deslocar a leitura tradicional, marcada por narrativas de harmonia racial ou de identidade tropical, para evidenciar tensões que continuam presentes tanto na esfera social como na estrutura política do país. «Como decodificar algo que não é pacificado?», questiona, sublinhando que a mostra evita respostas fáceis e não pretende apresentar «um Brasil resolvido».
A seleção das obras foi um dos processos mais exigentes para a equipa curatorial. Sem linearidade cronológica e sem fronteiras rígidas entre «alta cultura» e cultura popular, o projeto articula trabalhos de diferentes regiões, documentos históricos, instalações sonoras e peças que convocam memórias individuais e coletivas.
Há obras que revisitam arquivos para expor ausências e reinscrever simbologias, e outras que trabalham a música, o corpo, a cor e o gesto de forma a aproximar o visitante de experiências que escapam à narrativa oficial. Britto explica que a intenção nunca foi conduzir uma leitura pedagógica da história, mas permitir que a estética abrisse espaço a interpretações plurais, mesmo quando provocam desconforto: «não queríamos que fosse um tribunal», afirma, «mas não íamos encobrir nenhuma das violências».
A dimensão audiovisual torna-se particularmente relevante pela forma como combina imagem e som para revelar encontros entre matrizes culturais indígenas, africanas e europeias. A música, elemento central da cultura brasileira, é trabalhada como rasto, um vestígio que acompanha o visitante e prolonga a reflexão além do momento da observação.
Para alguns, essa entrada faz-se pela memória; para outros, pela emoção despertada pelo ritmo; e, para muitos, pelo reconhecimento de expressões que fazem parte da identidade brasileira, mas cujas raízes foram historicamente desvalorizadas ou descontextualizadas.
O diálogo com Portugal exigiu um cuidado adicional, dada a carga histórica que liga os dois países, e Britto reconhece o desafio de apresentar esta leitura crítica da formação brasileira num país que, ao longo do tempo, criou uma narrativa própria sobre o período colonial. Para evitar uma duplicação dessa lógica, a curadoria adotou o termo «encobrimento», procurando revelar aquilo que ficou ocultado pelo discurso oficial.
Num momento significativo da conversa, lembra que a própria língua funciona como espaço de aproximação e tensão entre os dois países: «A língua é algo que é tão próximo e tão distante ao mesmo tempo. Existem vários falares portugueses, e até hoje não falamos o brasileiro. Nunca houve sequer uma proposta de mudança de nome, e isso também é poético: a possibilidade de, pelas diferenças, nos encontrarmos não como iguais, mas como diferentes».
O diálogo entre públicos brasileiros e portugueses foi igualmente considerado desde o início. Muitos brasileiros que visitam a exposição, incluindo pessoas que vivem fora do país há décadas, reencontram aspetos do Brasil contemporâneo que não integravam o seu imaginário atual.
Por outro lado, os visitantes portugueses confrontam-se com camadas menos presentes na memória coletiva. Ainda assim, considera que esse impacto faz parte do processo de reflexão mútua que a exposição pretende desencadear enquanto espaço de escuta e reconhecimento.
A curadora espera que complexo brasil não se esgote no espaço expositivo; a ambição é que a mostra desencadeie debates, abra espaço a novas colaborações e estimule uma atenção mais fina à diversidade do Brasil presente no quotidiano português, das escolas às comunidades migrantes, das práticas culturais às relações linguísticas.