Afrofuturismo, resistência e identidade: a trajetória sonora de XEXA
Filha da diáspora santomense, XEXA cresceu na Quinta do Mocho, em Lisboa, onde o som era uma extensão da memória familiar. O pai, embora não músico, cultivava uma coleção de cassetes e discos com paixão curatorial. «O meu pai tem um amor imenso pelo som. E quando eu digo som é mesmo ouvir música», recorda. A infância foi marcada por festas e sessões musicais caseiras. Apesar disso, só mais tarde surge o impulso de criar, após estudar piano clássico. Percebeu que a rigidez do repertório não permitia a experimentação. «O clássico é algo que aconteceu no passado e tem de se manter assim. Senão não é clássico.»
Na Escola António Arroio, optou por ourivesaria, fascinada pela lógica e detalhe da arte de moldar metais. «Estás com martelos enormes para fazer uma martelada mínima.» Nesse meio artístico, aproximou-se de jovens ligados à música e artes visuais, começando a produzir sons de forma autodidata. Mesmo num universo dominado por homens, não se inibiu: «Acho que consigo.» Primeiro explorou texturas e sintetizadores, depois integrou batidas e voz.
Ao terminar o secundário, sentiu que os cursos em Portugal não satisfaziam a sua sede de experimentação. Uma pesquisa simples levou-a à Guildhall, em Londres. Foi aceite e tornou-se a primeira mulher a concluir o curso de Study Production Arts. «Foi a primeira vez que pude trabalhar com sistemas de som envolventes.» Com o tempo, entendeu que os seus interesses eram específicos. «O que me cismava não o cismava aos outros.»
Em 2022, na Bienal de Coimbra, descobre o termo «afrofuturismo» numa sessão com o fotógrafo Rafa de Oliveira. Já articulava referências africanas e afro-diaspóricas, mas faltava o nome. «Sabia que queria desenvolver a cultura africana com as minhas técnicas, mas não sabia que nome é que isso tinha.» O afrofuturismo, para XEXA, permite pensar herança, descolonização, identidade e autonomia imaginativa. «É visualizar o futuro, sendo o futuro o desenvolvimento, a independência.»
Critica o uso do prefixo «afro» como necessidade de validação. «Algo para ser africano não precisa de ter esse “afro” antes.» O exemplo do «afrofado» é ilustrativo: «Então o fado sem um “afro” não era nosso, quando o fado tem bastantes influências africanas.» A rotulagem é um esforço de tradução que serve mais à receção europeia do que à origem.
Em 2020, durante a pandemia, cria o Calendário Sonoro, libertando-se das convenções da indústria musical. A cada lua cheia, produzia uma faixa e imagem de raiz. «Produzia a música from scratch, misturava, masterizava… para pesquisar sobre mim.» O projeto revelou padrões e consolidou a sua linguagem. «Quando fazes algo várias vezes diferente com o mesmo intuito, consegues ver ali um padrão.» O projeto chamou a atenção da editora Príncipe, com quem colabora atualmente.
No palco, XEXA cria atmosferas imersivas. «Gosto bastante da ideia de criar uma experiência. As pessoas muitas vezes usam a palavra hipnose.» Estrutura a prática num triângulo: performance, arquivo e colaboração. «Estou sempre a fazer música. Porque estou no palco, ou em institutos e academias, ou em colaborações.»
Entre os projetos recentes está SÍNCOPES, instalação sonora sobre mulheres negras na Lisboa do século XX, criada com Cristina Roldão e Zia Soares, em exibição no CAM. XEXA compôs a banda sonora com base em ritmos como batuque, funaná e morna. Parte do trabalho foi inspirado no livro Tribuna Negra. «Ouvir o som, perceber como se faz, tentar fazer igual com outro instrumento.»
A experiência foi também humana, através do encontro de gerações e visões distintas. «Nós mulheres somos uma força autêntica da natureza. Duvidar-nos é algo social.» Enfrentou descrédito por ser jovem, mulher e negra. «Desenvolves uma persona mais fria para te proteger.» A seriedade é arma contra o desmerecimento: «Não aparecer muito, mas aparecer quando é preciso. Mas quando aparece, está séria e focada.»
Perante o encerramento de espaços e o esvaziamento do financiamento à cultura, defende a criação de estruturas próprias. «A nós, cabe-nos criar mesmo. Criar.» Alerta ainda para os efeitos das redes sociais na perceção da realidade. «Vês um feed criado para te manter contente e preso.»
A reflexão crítica sobre o estado da cultura, a erosão da atenção e o papel das redes sociais como molduras enviesadas da realidade não encerram a entrevista num tom de lamento, antes servem de impulso para o que XEXA delineie no próximo ciclo do seu percurso artístico. Com o álbum Many Blessings em fase de finalização e uma participação na compilação da editora Príncipe, intitulada Não Estragou Nada, a artista prepara um período de lançamentos que promete consolidar a coerência estética e política que tem caracterizado o seu trabalho. «Agora é só partilhar», diz com a serenidade de quem sabe que o gesto criativo se completa no encontro com o outro.