SÍNCOPES, de Cristina Roldão, XEXA e Zia Soares
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Data
- sáb,
- Encerra Terça
Local
Sala de Som Centro de Arte Moderna GulbenkianEste projeto é uma criação coletiva da investigadora e socióloga Cristina Roldão, da produtora, designer de som, compositora e cantora XEXA, e da encenadora e atriz Zia Soares.
A obra leva-nos numa viagem titubeante que percorre cidades e geografias como as de Lisboa, Santiago, Cachéu, Salvador, Harlem e São Tomé; a narrativa propõe um tempo não linear que se confunde com as biografias e os imaginários das autoras.
É a partir de sons propulsivos de avanços e recuos, e a partir do ruído, da música e da palavra, que irrompem as vozes das protagonistas: as autoras, as intérpretes, Carolina X, Maria Teodora Doutora, Fernanda do Vale, Dam, Georgina Ribas, Josephine Baker.
SÍNCOPES faz parte de Coro em Rememória de um Voo em Lisboa, o programa associado à exposição de Julianknxx, com curadoria de Jesualdo Lopes, Paulo Pascoal, Rafael de Oliveira e Selma Uamusse.
Ler a transcrição dos áudiosTemas
Eu mesma, eu própria
Melik
K’aflikana
SÍNCOPES
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Carolina X
Base de escuta. Reflexões a partir das mulheres que inspiram a instalação
Apelido “X”, porque não sobra rastro da linhagem. Apelido “X” para rasurar o prefixo “preta”, que vem sempre primeiro que o nome próprio. Chegamos a ela, na verdade a elas, às centenárias Carolina e Maria Teodora Doutora, através de jornais que davam conta do seu falecimento, 1943 e 1920 respetivamente. Ambas, seriam as “últimas” escravizadas em Lisboa?
Quem é ela que pousa de pé, descalça, em plena Av. da Liberdade para o fotógrafo Charles Chusseau-Flavies, com o peito cheio de rosários, como quem usa uma extensa fiada de amuletos? Quem são elas, e tantas outras, que como elas, foram descartadas pelas “senhoras” e pelos “senhores”, depois de velhas, por falta de serventia, e largadas ao abandono nas ruas de Lisboa? “X” de incógnita. “X” de encruzilhada. “X” de marco que não é possível esquecer, apesar do silêncio. “X” de incisão, por onde se precipita o romper das coisas.
Interpretação: Isabél Zuaa
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Eu mesma, eu própria
Base de escuta. Reflexões a partir das mulheres que inspiram a instalação
Ela chegou-nos coberta de insultos pela porta enviesada que é o livro A Preta Fernanda: Recordações d’uma colonial (1912), que nos diz mais sobre a sociedade branca lisboeta do final do séc. XIX do que sobre quem foi Andresa do Nascimento de Pina, ou seria Andresa de Pina do Nascimento?, aka Fernanda do Vale. Há quem diga que é uma autobiografia, mas não, não é. É, sim, uma sátira racista e machista sobre uma mulher que escapava desmesuradamente ao formatado. Certamente que Andresa, ou Fernanda, terá tentado desaprovar publicamente aquele retrato monstruoso, e certamente terá sido amordaçada. E, outra vez, mais uma vez, a pergunta spivakiana de Carla Fernandes: “Pode a subalternizada recordar”?
A resposta:
Pode.
Interpretação: Zia Soares
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Melik
Base de escuta. Reflexões a partir das mulheres que inspiram a instalação
Não foi para aquilo que veio de tão longe: aquela fila interminável de gente e aquela terra estavam longe de ser o pináculo do progresso e da sofisticação. No Porto como no IndieLisboa 2023, a lente branca, dos olhos dos brancos e da câmara dos brancos, “zoomam” nos seios desnudos dela e apelidam-na de Rosinha.
Entre balantas, a pessoa convidada jamais seria sujeita a tal curiosidade impertinente, doentia e bárbara. Jamais seria exposta, jamais seria tocada, e o seu nome jamais seria esquecido. Seria uma espécie de milagre se aquele povo tivesse uma “influência civilizadora” sobre qualquer outro – diria quem nós sabemos que o disse.
Interpretação: Binete Undonque
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K’aflikana
Base de escuta. Reflexões a partir das mulheres que inspiram a instalação
Não sabemos se as mulheres do Ké-Aflikana (1929) – Georgina Ribas, Maria Nazareth Ascenso e a Maria d’Alva Teixeira –, para além dos saraus empertigados de música clássica, gostavam de dançar o charleston ou os ritmos negros do que viria a ser o fado. Zelosa da “respeitabilidade”, a black excellence querê-las-ia tão parecidas quanto possível com as mulheres brancas de classe média: submissas, cuidadoras e anfitriãs. Quando muito beneméritas, salvadoras e intérpretes do seu povo. Sem confusões, estas negras não são serviçais, nem “indígenas”, elas são a prova de que “somos capazes”.
Really? Tipo, “on Friday I go black”?
Interpretação: G FEMA, Cristina Roldão
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SÍNCOPES
Base de escuta. Reflexões a partir das mulheres que inspiram a instalação
Um círculo polifónico para uma conversa antiga, cujo fim não se vê. Volta não volta, e a história dá voltas, a “renascença negra” é anunciada. É o Harlem Renaissance, a apoteose de Josephine Baker, o charleston invade os clubes de Lisboa, e ao mesmo tempo os “heróis do mar” fazem as campanhas de ocupação em África.
Corre o ano de 2024, a Lisboa Crioula, o prefixo Afro metido à força em tudo e em todo o lado, e a Claúdia Simões é injusta e desavergonhadamente condenada.
Ruptura com o racismo? Black face de si mesmo ou uma caricatura crítica da caricatura? Ou então: a fonte criativa da negritude brota abundante e uma legião de tokens, negrófilos e gatekeepers da arte e da academia, ávidos de a extrair, ávidos de dela se apropriarem, salivam e montam armadilhas reluzentes.
Participação: Binete Undonque, Cristina Roldão, Filipa Bossuet, G FEMA, Isabél Zuaa, Piny, Raquel Lima, Vânia Doutel Vaz, XEXA e Zia Soares
Biografias
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Cristina Roldão
Cristina Roldão é socióloga, investigadora do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa e professora da Escola Superior de Educação de Setúbal (ESE/IPS). Participa ativamente nas discussões académicas e públicas sobre o racismo e a negritude em Portugal e é coautora do recente livro Tribuna Negra: Origens do Movimento Negro em Portugal (1911-1933).
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XEXA
XEXA é uma artista afrofuturista de ascendência são-tomense, nascida em Lisboa. O seu trabalho reflete a exploração de sons criando um híbrido de ritmos com sintetizadores, desenho de som e voz. XEXA é sound designer, produtora, compositora e cantora, apresentou-se em diversos festivais pela Europa e compôs música para a British Music Collection, CMMAS, Lagos Art Biennale, Culturgest e ModaLisboa. O seu LP Vibrações de Prata foi lançado pela Príncipe Discos em 2023.
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Zia Soares
Zia Soares é encenadora e atriz, trabalha entre a África e a Europa. Na sua prática, experimenta a construção de dramaturgias novas enraizadas em poéticas de oralidades, em que o verbo é manifestação de imagens. No seu percurso, destacam-se as criações «Pérola sem Rapariga», coprodução Sowing_arts/TNDM/apap FEMINIST FUTURES e «O Riso dos necrófagos», da sua autoria e com coprodução do Teatro GRIOT/Culturgest, distinguido com o Prémio Internazionale Teresa Pomodoro (Itália) como Melhor Espetáculo 2021/2022.
Ficha técnica
Autoria e direção artística
Cristina Roldão
XEXA
Zia Soares
Textos
Cristina Roldão
Zia Soares
Criação sonora e desenho de som
XEXA
Investigação
A partir do livro Tribuna Negra: Origens do Movimento Negro em Portugal, 1911-1933, da autoria de Cristina Roldão, José Pereira e Pedro Varela (Tinta-da-china, 2023)
Apoio à produção
HANGAR Centro de Investigação Artística
Interpretação
Isabél Zuaa
Binete Undonque
Cristina Roldão
G FEMA
Zia Soares
Participação
Filipa Bossuet
Piny
Raquel Lima
Vânia Doutel Vaz
XEXA
Produção
Catarina Ariztía
Direção técnica
João Hora
Pedro Costa
Imagem principal
© Denise Santos
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