“A política nunca vai sair de mim”

Entre a prática médica e a decisão política, Manuel Leite – bolseiro Gulbenkian Novos Talentos – defende uma visão integrada da saúde, que una ciência, políticas públicas e comunidade na resposta aos desafios sociais. Conheça o seu percurso e as ideias que o movem.
25 set 2025 8 min
Histórias de Bolseiros

No Ensino Secundário pensou que queria estudar Física e Matemática, mas acabou a estudar Medicina. Porquê esta mudança de percurso?

Foi um bocado por acaso, suponho. Desde miúdo que tudo me interessa, o que até acho que é mais um defeito do que uma qualidade. Nunca soube muito bem o que fazer quando fosse grande… Mas acho que, acima de tudo, sempre me interessei por coisas que me desafiassem e puxassem por mim. Durante o secundário sentia muito isso em relação à Física e à Matemática, e durante o 12.º ano fui ganhando interesse pela Medicina, talvez também por ter sido na altura da pandemia Covid-19, e pela parte do contacto humano – achei que teria mais disso na Medicina do que na Física ou na Matemática.

E onde entram as Políticas Públicas?

Em casa, os meus pais e avós sempre foram muito interessados em política e, portanto, sempre pensei muito sobre essas questões. Depois de entrar para a Faculdade, juntei-me a uma juventude partidária, sem conhecer ninguém, só porque queria ter um papel mais interventivo na sociedade, e percebi que a maior parte das pessoas estão em Direito ou em cursos mais relacionados com a área. E o que senti quando entrei, nos debates que tinha com as pessoas, é que me faltava formação na área. Daí ter-me inscrito no mestrado, este percurso nas Políticas Públicas na área da saúde e a Bolsa Gulbenkian. Foi assim uma conjugação entre, por um lado, tudo me interessar, e depois perceber que era nessa área que poderia deixar a minha marca no mundo e ter um impacto na sociedade.

Está a ser possível conjugar um curso em Medicina com um mestrado em Políticas Públicas?

Isso é uma pergunta difícil. Quando entrei, já foi com o plano de demorar um tempo a fazer o mestrado. Candidatei-me quando fui do terceiro para o quarto ano em medicina e o plano original era concluir a parte curricular, o primeiro ano, até ao quinto ano de Medicina, ou seja, fazer metade das cadeiras a cada ano. No primeiro ano fiz um bocadinho menos de metade das cadeiras, mas no ano passado, por várias razões, não fiz cadeira nenhuma. Não foi um ano muito fácil.

Manuel Leite está a começar o sexto ano do Mestrado Integrado de Medicina na FMUL © Ricardo Lopes

Pela questão académica? Medicina não é propriamente um curso fácil.

Pela questão académica e outras. Por acaso até acho que Medicina é mais fácil do que a maior parte das pessoas pensa. Obviamente é muita matéria, é muito intenso e há sempre a responsabilidade acrescida de que um dia vamos ver doentes e aquilo que estamos a aprender vai ser posto em prática. Mas acaba por ser um curso um pouco mais mecanístico, para decorar matéria, não será como a Matemática ou a Física, ou mesmo as Políticas Públicas, em que é preciso um entendimento profundo sobre a coisa. Isso, para mim, não é assim tão difícil.

Isso também se relaciona com a maneira como se estuda Medicina, não é?

Sim, acaba por ser uma crítica à forma como a Medicina é ensinada. Mas, de qualquer forma, no último ano também estive na direção da ANEM (Associação Nacional de Estudantes de Medicina), sou discente do Conselho de Escola, estou na Mesa da RGA (Reunião Geral de Alunos), estou a fazer a bolsa da Gulbenkian; meti-me em muita coisa ao mesmo tempo e acabei por não conseguir conciliar tudo. Mas tenciono continuar e terminar o mestrado, cuidando da minha saúde mental.

Na candidatura à bolsa Gulbenkian Novos Talentos, disse que escolheu Medicina para fugir a um sentimento de impotência, mas depois percebeu que, não só não conseguiu fugir, como até se aproximou mais dele. Pode explicar melhor o que isto significa?

Eu vim para Medicina porque é uma coisa em que sinto que consigo ter algum impacto, não estou a fazer coisas só para mim. Mas não gosto muito do discurso que muita gente nesta área tem, de “eu venho para aqui salvar pessoas”, acho bastante redutor. Aquilo que de facto poderia fazer a diferença na vida dos nossos doentes, muitas vezes não é sequer algo que um médico sozinho consiga fazer, porque muitos dos problemas de saúde são uma manifestação do contexto em que se inserem.

Por exemplo, Portugal é dos países da Europa onde há maior consumo de antidepressivos. Enquanto médico, muitas vezes a melhor opção que temos, para um doente que está deprimido, é prescrever o antidepressivo. Portanto, há, às vezes, o discurso de que o que está errado é prescrever o antidepressivo. Mas será que o que está errado não é termos tanta gente deprimida? Não deveríamos antes pensar porque é que isto acontece? Se calhar tem a ver com a forma como a sociedade está organizada, com as redes de apoio que as pessoas têm. E isso é algo que a Medicina não vai resolver.

Para resolver precisamos de agir enquanto um todo, enquanto sociedade. Estas pequeninas coisas foram as que me fizeram desiludir um bocadinho em relação à Medicina, e me puxaram para a área das Políticas Públicas.

De que forma é que se imagina a articular as duas áreas, da Saúde com a Política?

Muito provavelmente não vou querer ter uma carreira como médico clínico, no sentido clássico. Há uma especialidade que é a Saúde Pública, que está um bocadinho neste ponto entre a medicina e as políticas públicas, que é pensar a medicina ao nível da população, e das medidas que podemos tomar para melhorar a saúde na população inteira, sem a noção do doente em específico. É provável que siga essa especialidade, mas também me vejo potencialmente a seguir mais uma carreira pela via académica, na área das políticas de saúde em concreto.

De qualquer forma, se acabar por ter uma carreira clínica normal (que é algo que não excluo completamente), a política nunca vai sair de mim. E há muitos médicos que, sendo clínicos no sentido tradicional, também pensam muito sobre o assunto e têm uma intervenção política ativa. Sinto que a bolsa e a formação académica que estou a ter também me estão a preparar para isso.

Além do curso, Manuel está, lentamente, a completar o mestrado em Políticas Públicas, no ISCTE © Ricardo Lopes

Como é que a bolsa da Gulbenkian está a ajudar a dar esse passo?

 O maior mérito da bolsa, para mim, é a exposição que temos ao que é a investigação. Até porque o mestrado aqui do ISCTE é algo de âmbito geral, e a bolsa, no fundo, é o que fica no intermédio entre os dois e que me permite ter atividade em Políticas de Saúde, com a ajuda de um tutor.

Em Portugal e na União Europeia é proibido fazer publicidade a medicamentos sujeitos a receita médica. O que estou a investigar com a bolsa é a forma como a presença desses medicamentos nos média pode estar a ser usada como uma forma de contornar essa proibição. É algo que empiricamente já foi mais ou menos observado, mas sobre o qual não há dados concretos. Por exemplo, embora não seja permitido fazer publicidade direta sobre determinado fármaco, às vezes aparecem artigos sobre a doença que o fármaco vem tratar. Queremos entender o processo através do qual a sociedade entende que determinado problema é resolúvel através de um fármaco, e o papel que os média podem ter nesse processo, para levar a que o fármaco seja comparticipado, ou a que os médicos estejam mais aptos a prescrevê-lo, etc., o que, no fundo, é uma forma de contornar a proibição da publicidade, e leva à tomada de decisões que não são totalmente fundamentadas.

Se tivesse de descrever o que é que é a saúde, o que diria?

A OMS (Organização Mundial da Saúde) define que é um total estado de bem-estar, e não só a ausência de doença. Acho que é importante focar isso. Implica tanto bem-estar físico, como mental e também social.

Obviamente, o principal foco da medicina é resolver o que está mal com o corpo do indivíduo. Mas cada vez há um foco maior nos problemas de saúde mental, e também esta terceira vertente: as pessoas não são seres isolados, todos somos seres integrados na comunidade. Isso também tem um papel muito grande na saúde das pessoas.

Portanto, o futuro da Medicina passa por uma visão mais integrada e menos individualista da saúde?

Parece-me que sim. Às vezes o que pecamos por excesso é achar que conseguimos resolver mais problemas do que de facto conseguimos resolver. Não vai ser uma intervenção breve de 15 minutos que vai convencer alguém de que tem de se cuidar, ou largar o marido que lhe bate, ou convencer uma pessoa idosa a fazer uma caminhada de 15 minutos todos os dias, se vive sozinha num espaço onde não é de todo prático fazer uma caminhada. É na procura de respostas para este tipo de situações que começamos a sair do domínio da Medicina e a entrar no das Políticas Públicas.

Série

Histórias de Bolseiros

Desde 1955, a Fundação Gulbenkian apoiou mais de 30 mil pessoas de todas as áreas do saber, em Portugal e em mais de 100 países. Conheça as suas histórias.
Saber mais

Explorar a série

Relacionados

Definição de Cookies

Definição de Cookies

Este website usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. Podendo também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.