Inês Nunes: “Ter tempo é o mais importante para fazer cinema”
Comecemos pelo que está mais quente: como foi a experiência de ter um filme selecionado num festival como Cannes?
Foi bastante positiva. Foi a primeira estreia internacional que tive, portanto não foi só estar no Festival de Cannes, mas também poder mostrar um filme fora do meu país pela primeira vez, e encontrar o feedback de pessoas que habitualmente não conhecemos, de diferentes lugares e contextos.
Fale-nos desse filme, A Solidão dos Lagartos. Como surgiu?
É uma curta-metragem que comecei a trabalhar em 2020, durante a pandemia. Foi filmado em 2022. Começa com uma primeira ideia de fazer um filme aqui no Algarve, de onde eu sou, nas salinas. Depois acabei por estar mais presente aqui na região de Castro Marim, em específico no spa Salino Água Mãe, e adaptei a ideia inicial a este espaço.
O que me pareceu mais interessante é que, de certa forma, este espaço era uma espécie de microcosmos, um ponto de vista sobre a região algarvia e sobre o que é passar-se um verão aqui, a convivência entre o turismo e o trabalho, entre o lazer, as férias e outro tipo de responsabilidades. Fui conhecendo as pessoas que estavam envolvidas neste projeto e todos os trabalhadores das salinas, e acho que a motivação das pessoas também fez com que se transformasse naquilo que é.
E sentiu que foi bem recebido no festival? Houve bom feedback?
Sim, tive bastante feedback, foi muito bonito poder estar lá com a minha equipa e poder ver o filme em sala, partilhar este momento com elas. São pessoas que admiro e com quem quero continuar a trabalhar.
Voltando agora às raízes: o que a levou a querer estudar cinema?
Isso é uma pergunta muito difícil. Acho que também tem um bocado a ver com a origem deste filme. Por exemplo, os meus pais sempre trabalharam em turismo, têm um trabalho sazonal. Então, acho que a minha vida, assim como a vida de muita gente que cresceu aqui no Algarve, foi muito influenciada por esta sazonalidade. No inverno, que é uma altura em que as pessoas costumam estar a trabalhar, eu e os meus pais tínhamos muito tempo livre para nos distrairmos, para irmos ao cinema, para vermos filmes.
Era mais fácil ir ao cinema quando era nova do que agora, sobretudo aqui no sul, em que já há poucos cinemas e o preço dos bilhetes está mais caro. A programação do Cineclube de Tavira também me ajudou muito, porque pude ver outros filmes que não eram os produzidos nos Estados Unidos. E começou a surgir esta ideia de poder fazer cinema, mas de uma forma muito secreta. Não era coisa que partilhasse com outras pessoas porque dizer que queria trabalhar em cinema era o mesmo que dizer que queria ser astronauta ou qualquer coisa do género… é muito difícil explicar que existe um cinema português, que existem pessoas a fazer filmes em Portugal.
Terminou o curso em 2015, mas voltou a estudar recentemente (2023). O que a levou a tomar essa decisão?
Quando saí da Escola Superior de Teatro e Cinema, em 2015, foi tão intenso que perdi a vontade de continuar os meus estudos. Nessa altura era mais importante para mim conseguir uma independência financeira e conseguir ficar em Lisboa. Mas depois comecei a sentir-me um bocado estagnada criativamente. Passava oito ou nove horas do meu dia a trabalhar no meu emprego e depois o resto do tempo a trabalhar nos projetos que realmente queria fazer… e a verdade é que estava muito cansada e não recebemos o suficiente neste país para termos o luxo de parar e investir nos nossos projetos.
Numa escola, há uma reunião de pessoas que te ajudam a crescer e a desenvolver o espírito crítico, a partilhar coisas e a conhecer e fazer mais. Há uma motivação enquanto estamos a estudar que depois cá fora é difícil de manter. Eu sentia-me desmotivada e isolada, tinha um projeto – já estava a editar esta curta-metragem – e tinha uma longa-metragem que gostava de escrever, então decidi candidatar-me à escola e à bolsa da Gulbenkian. Foi graças à bolsa que pude ter esse espaço e tempo para pensar naquilo que realmente queria fazer e que há muitos anos não tinha.
E foi o que precisava?
Claro, sim. Foi muito bonito porque é uma escola relativamente nova e temos muita independência no que diz respeito aos materiais que queremos usar ou ao tipo de projetos que queremos fazer. Eu estava à procura de uma coisa que não fosse tão clássica na abordagem ao cinema, e nesse sentido é uma escola muito aberta.
Mas, para mim, das coisas mais incríveis é mesmo o facto de podermos ir para um sítio novo e conhecer outras pessoas de todo o mundo, fazer novas amizades. O facto de ter finalizado o filme nesta escola deveu-se a essas amizades e ao contributo por parte dos professores. Cada pessoa leva-te a descobrir algo mais sobre ti ou sobre o outro, a encontrar pontos de contato e também futuras colaborações, formas de nos ajudarmos uns aos outros. Eles tinham muita fé no filme, talvez um bocadinho mais que eu, que já estava a editar há quase dois anos, e essa motivação foi essencial.
E como vê o futuro? Quer ficar pelo Algarve? Quer continuar a fazer cinema?
Sim, continuar a fazer cinema quero sempre, mas quero também que deixe de ser o meu hobby e passe a ser o meu trabalho a tempo inteiro – mas é muito difícil… Gostava de ficar no Algarve, e que outras pessoas viessem para cá, que se sentissem motivadas, que houvesse outro tipo de apoio para trabalhar na produção cinematográfica nesta região, com outra preocupação que fosse além do turismo.
O que a motiva a ficar por aí?
Sinto que aqui tenho uma maior estabilidade. É um lugar que faz sentido para mim, vou descobrindo coisas novas todos os dias. O facto de ser uma zona um pouco sem fronteiras, onde existe convivência mesmo sem se partilhar a mesma língua, é algo que me atrai. Gosto de conhecer quem está de passagem e quem aqui vive, dessa ideia de proximidade e da possibilidade de criar pequenas relações com os espaços e os lugares com que me cruzo todos os dias.
Tem algum plano para os próximos tempos?
Neste momento, estou a tentar encontrar a forma de produzir os meus projetos futuros, a candidatar-me a apoios, a tentar encontrar produtores, pessoas que estejam interessadas em colaborar no futuro. Mas também, claro, a um nível mais básico de sobrevivência, estou a tentar encontrar outros trabalhos que me permitam trabalhar à distância e poder estar aqui. Esse fator económico também me oferece tempo, e ter tempo é o mais importante para fazer cinema.
Na candidatura à bolsa referiu que “há uma metodologia convencional que prevalece na forma de pensar e fazer filmes em Portugal e da qual se quer distanciar”. Consegue explicar o que quis dizer?
A verdade é que sinto que se continua a fazer cinema, em Portugal, como há 50 anos atrás: num contexto muito elitista, em que há sempre, por exemplo, na formação de equipas, uma espécie de esquema pirâmide em que umas pessoas têm mais poder do que outras. Eu gostaria de tentar fazer outro tipo de estrutura, encontrar formas de fazer filmes mais saudáveis, menos nocivas para as pessoas que trabalham, em que todos podemos ser criativos e sentir que estamos a fazer qualquer coisa juntos.
É que a produção de filmes é uma coisa super violenta, e quanto maiores são as produções, mais facilmente se perde o controlo. Acho que há uma geração nova de artistas e realizadoras que estão a questionar isto e a trabalhar de forma diferente, mais transparente, com outro tipo de projetos. E a Gulbenkian tem um papel muito significativo no desenvolvimento desta geração de cineastas. É muito difícil encontrar apoio, sobretudo no início de carreira. Muitas vezes, tudo gira em torno da seleção para um festival importante, e o projeto em si, a ideia que nos move, acaba por ficar em segundo plano, ou nem chega a ser considerada. Esta bolsa permitiu-me prosseguir os meus estudos, mas, acima de tudo, representou um voto de confiança no meu trabalho, que teve um impacto real no meu percurso.