Pedro Tochas
Bolseiro Gulbenkian 1997 – Histórias de Impacto
“It’s best to have your tools with you.
If you don’t, you’re apt to find something
you didn’t expect and get discouraged.”
Stephen King, in On Writing – A Memoir of the Craft
Edições Hooder & Stoughton, 2000
Pedro Santos nasceu em 1972 em Avelar, que é uma freguesia de Ansião, que é um município de Leiria, que era à data uma cidade que ficava consideravelmente longe do que o Pedro ainda não sabia que queria. É bom especificar do micro para o macro porque assim se fez a vida e a carreira deste cool clown. Escrito em inglês fica melhor, como na frase original. E como foram tantos os países onde já se apresentou em espetáculos de rua, é bom que os anglicismos não sejam temidos.
Sim, mesmo que este palhaço e ator e artista e humorista e orador profissional comunique bastante em silêncio, através do malabarismo do corpo ora amparado com uma vassoura, ora com balões, ora com o público escolhido a dedo, no fim os elogios e as frases que marcam podem ser em qualquer língua, com o inglês a liderar o entendimento em grande escala. Que é a escala, senhoras e senhores, meninos e meninas, de Pedro “Tochas”. Começou assim mesmo, com aspas.
Filho de pai e de mãe pertencentes à classe trabalhadora, com toda a dignidade que isso acarreta, a certeza de que os recursos são escassos tocou-lhe cedo. Quis ser gestor. Um gestor que gostasse de banda desenhada e de ficção científica, paixão que sabia que não largaria mesmo que se tornasse um adulto sério e respeitado, à maneira de um gestor bem sucedido.
Um senhor doutor gestor, imagine-se. E foi este facto que o levou a integrar a organização da banda filarmónica de Avelar, para dinamizar atividades e ir vivendo no terreno a bela arte de gerir. Quem sabe não ficaria bem no currículo? Talvez na altura não se usasse tanto como agora. Bom, o que é certo é que, no Natal de 1991, tocou-lhe produzir as festividades da banda e da freguesia, onde as poucas pessoas que havia tinham de fazer o que sabiam.
Pedro, sabes malabarismo, não sabes? Então ficas com 15 minutos para ti. Mas eu não sei, só experimentei umas brincadeiras nas férias. Não interessa. As pessoas aqui também nunca viram malabarismo mesmo, por isso inventas, pões umas coisas a andar para cima e para baixo e a coisa dá-se. Ok. Ok, não. Ele subiu a palco com a cara pintada de branco, à palhaço, confere, mas para disfarçar o vermelho da vergonha. O Pedro só queria saber o que era ser gestor. Faz-se um pouco de tudo, até malabarismo!
Mas não perdeu o foco. Era bom a ciências, ótimo aluno e, como todos os bons alunos e as boas alunas da região centro, foi para a cidade dos bons alunos e das boas alunas aspirantes a senhores doutores e a senhoras doutoras: Coimbra. Escolheu o curso de Engenharia Química influenciado por uma entrevista de um outro bolseiro Gulbenkian, o já falecido engenheiro e empresário Belmiro de Azevedo.
Gestão poderia aprender num MBA (Master Business Administration, segundo anglicismo) que se seguiria depois do curso superior, mas uma base teórica e prática de engenharia seria sempre uma mais-valia. Cheio de planos para um futuro de sucesso, isso estava traçado desde o início. E não é que o visto gold da sua carreira lhe chegou por uma sanita abaixo? Haja humor.
O que foi Pedro Santos descobrir na Associação Académica de Coimbra (AAC), composta por secções que cobrem provavelmente todas as áreas do saber, do entreter e do criar? Três coisas: que se interessava por qualquer assunto, desde que falado com paixão, fosse por um colecionador de selos ou por um cientista reputado; o teatro, através do CITAC, Circulo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, que o levou à companhia do Teatrão; e a Orxestra Pitagórica.
É aqui que entram as justificações da sanita abaixo e das aspas no seu apelido. Primeira justificação: a Orxestra Pitagórica, fundada em 1890, é um grupo peculiar da Secção de Fado (Lol, terceiro anglicismo) conhecido por tocar instrumentos e o que vier à mão, como sanitas, por satirizar, por fazer de tudo em palco e ainda mais conhecido pelo facto de todos os seus elementos, homens, tocarem consideravelmente (!) embriagados.
O novato de dezanove anos não passou na praxe pitagórica à primeira porque não bebia álcool e isso era um requisito obrigatório, mas como lhe disseram para ele aparecer nos ensaios se quisesse, e o Pedro quis, acabaram por aceitá-lo para fazer malabarismo, tendo sido, em mais de cem anos de existência, o único membro da Pitagórica a não beber álcool. É obra.
E graçou-se Pedro, o Tochas, por ter ficado responsável por fazer malabarismo e brincar com o fogo. Eis que chega a segunda justificação: numa das suas atuações paralelas no Teatrão, o grupo de teatro percebeu que já havia um Pedro Santos no elenco, pelo que aproveitaram o nome de praxe da Pitagórica e colocaram este Pedro Santos como Pedro “Tochas”. Aqui nasceu o artista.
E a verdade é que nasceu mesmo. Não teve de escolher deixar o curso de Engenharia Química, simplesmente começou a ser requisitado para fazer espetáculos e começou a querer estudar a área que se tornou a sua. Também ajudou – e bem! – ter visto um documentário sobre um artista de rua, cujo o título já não se lembra para mal dos pecados de quem gostaria de o ver também. Bastou-lhe a convicção. Mas o trabalho deste homem é espetacular. Eu quero fazer isto para o resto da vida.
Em 1995, representou a Universidade de Coimbra no Festival Internacional de Leiden, na Holanda, com o espetáculo “Bolas e Balões”, organizou o 2.o Encontro de Artistas de Rua, integrado na Queima das Fitas 95/Coimbra, integrou o elenco da companhia O Teatrão, no qual participou no espetáculo “Os camelos não se pescam à linha”, com encenação de Deolindo Pessoa, produziu a performance “Ritual” para a Associação Académica de Coimbra e produziu e interpretou o espetáculo a solo “Tochas – O Palhaço Escultor”, este último que o veio a acompanhar durante mais de uma década.
Mas também foi o ano em que gastou tudo o que tinha arrecadado como artista em formações nos Estados Unidos da América, no Celebration Barn Theater, onde participou no workshop Physical Comedy, dado por Fred Garbo & Bob Berky, e no workshop Juggling Intensive, dado por Michael Menes & Peter Davison. Foi o passo para o estrangeiro sem retorno.
Por esta altura, Pedro Tochas ouviu falar de uma escola de artes circenses e de teatro físico em Bristol, em Inglaterra, a Circomedia – Academy of Circus Arts & Physical Theatre. Foi o destino académico seguinte, antecedido por um interrail (quarto anglicismo) pela Europa. Durante a viagem percebeu a importância de viajar sozinho na sua profissão, depois de os amigos se terem esquivado à última hora, e no final na viagem percebeu a sua importância como artista, uma vez que passou nas provas de admissão da Circomedia, na qual fez o curso introdutório ainda com a ajuda financeira dos pais.
No curso, percebeu a importância de encontrar os seus pares, pessoas a quem não foi necessário explicar o que é malabarismo, com quem foi possível criar em conjunto. Por isso, encontrou também a certeza de que queria seguir para o segundo ano de estudos. Como o dinheiro tinha acabado, e disposto a fazer qualquer coisa para continuar a estudar, em 1997, candidatou-se ao programa de bolsas da Fundação Calouste Gulbenkian.
O que é que eu tenho a perder? Nada. Mas como deve ser bem estranho apoiar um artista de rua no meio de tantos artistas clássicos, tudo o que a Fundação me pedir nos requisitos, eu vou dar a dobrar. Assim fez e assim ficou. Na sua vida, não há plano B porque o plano A é desejado e planeado com toda a inteireza e intensidade. Pedro Tochas soube o que quis aos dezanove anos. Nunca mais largou.
Ser apoiado numa altura em que 1000$00, os atuais 5€, faziam toda a diferença é uma marca que Pedro Tochas ainda hoje vive com plena gratidão. O que quer que a Gulbenkian me pedir, eu faço. Não só foi o empurrão material que o poupou de um eventual trabalho alternativo para pagar as propinas, como foi o reconhecimento do seu trabalho. Talvez eu esteja no caminho certo. Sempre esteve. Mas ali sentiu-o de fora para dentro, não apenas de dentro para fora.
O que talvez o tenha motivado, no final da bolsa, aquando da fase de entrega do relatório final escrito, a propor fazer o espetáculo final do seu curso nas instalações da Fundação. Nunca nos propuseram isso em vez do relatório escrito, mas venha. Assim fez e assim continuou.
A pedido da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, concebeu e orientou o workshop “Expressão Corporal e Desenvolvimento”, apresentou o passatempo Siemens na Expo Telecom em Lisboa, organizou em colaboração com o Teatro da Trindade as “Conversas sobre Stand-Up Comedy”, que contaram com a participação do Nuno Markl e do Nuno Artur Silva, produziu uma performance encomendada pela TVCABO Portugal para o lançamento do Canal EuroSport em português, entre as participações em programas de televisão, como o Dá-lhe Gás da SIC ou o Vais ou Ficas? da RTP, em programas de rádio, na Mega FM, e entre as centenas de espetáculos de rua que nunca parou de criar e de fazer, em Portugal e fora.
‘Tou que nem posso. Frize, a água com gás para quem não gostava de água com gás. É uma das imagens de marca portuguesa de Tochas. Começou em 2003 e valeu-lhe uma boa história com um taxista. Você é o rapaz da Frize. Sou sim. Aquilo não tem ponta por onde se lhe pegue. Pois… Mas também a culpa não é sua, não é a pessoa que escreve os textos, não é verdade? Pois bem, os anúncios da Frize resultaram de longas horas de improvisação, por isso… É verdade, sim, foi o Tochas que inventou os textos na hora e pôs a marca nas bocas do país, literal e simbolicamente. Não lhe faltam histórias.
Ter visto um colega artista a ter de lidar com um bêbedo na rua, que o ameaçava com uma garrafa de vidro partida, ou um colega equilibrista a cair de uma vara porque alguém propositadamente o empurrou. Ter ambulâncias a passar no meio de um espetáculo. Ter começado a chover torrencialmente enquanto atuava, o que fez dispersar toda a gente que o estava a ver. É tão prazeroso ser artista de rua, saltar de cidade em cidade, quanto desafiador. É preciso gostar-se muito, saber abrir uma praça que não tem ninguém e que, no fim, pode ter centenas de pessoas em círculo.
Para Pedro Tochas, estejam dez pessoas, estejam setecentas, é como se fossem sempre para cima de um milhão. O importante é estar no palco, fazer o que o coração pulsa e o que a paixão dita. E isto também lhe tem dado histórias felizes.
You are a cool clown, disse-lhe uma criança. Soube que mudou o dia a um senhor mais velho, em Edimburgo, que nem era suposto ter passado na rua onde ele estava, àquela hora, mas que ficou pelo espetáculo e para que os seus problemas desaparecessem por instantes. Recebeu uma nota de uma senhora, em Pombal, que lhe quis dar alguma coisa mesmo que ele estivesse a fazer um espetáculo já pago.
Não são precisas coisas complicadas para fazer rir. Mas eu já estou a receber. Não interessa, vim aqui para lhe dar o que me deu a mim também. Quer passe o chapéu, quer não, o que é dele a ele sempre irá dar.
EUA, Inglaterra, Suécia, Austrália, França, Suécia, Nova Zelândia, Áustria, Noruega, Singapura, Canadá, Irlanda, Portugal. São muitos países. E há tanto mais para além deste texto. São muitos espetáculos, aqui por ordem cronológica intermitente: O Palhaço Escultor, Lado B, Work in Progress, Já tenho idade para ter juízo, Experiência Teste, Palestra em Construção, 20 anos, Nariz Preto, Making Of, Tochas e Telmo – (A)Variado, Descobrimentos, Escolhas.
O currículo é digno de um senhor doutor palhaço. Não faltam workshops, palestras, apresentações, espetáculos, um verdadeiro gestor da sua arte de comunicar. Conseguiu entrar no mundo dos negócios, veja-se, sendo formador e orador em empresas como a Sonae, a Vodafone, a Era, a Würth, o Banco Mais, a Galp ou a Accenture. No fundo, aproveitou a metáfora de Stephen King sobre as ferramentas que são necessárias para escrever, que vão aumentando de nível para nível, e acumulou as suas próprias ferramentas através da formação académica e profissional que ainda continua a procurar, mesmo já estabelecido e reconhecido, mas também através das diferentes experiências que resultam das várias formas que tem de trabalhar, de se expressar
Outra parte importante do seu trabalho, e do seu prazer, é ver espetáculos, de todo o tipo. Gosta de analisar os pormenores da encenação, as luzes, o som, o texto. É curioso e investigador. Não será difícil de imaginar a alegria com que recebeu o convite para ser jurado no programa Got Talent Portugal, da RTP. Pagam-me para ver espetáculos. Isto é genial.
Tudo parece genial quando dito pelo Pedro Tochas, os olhos dele brilham. É uma criança madura instalada, é tão emocionante quanto inspirador. Mas se tivesse de escolher entre o palco, em que a rua tem um lugar central, e os holofotes, não hesitaria um segundo. O Pedro Santos “Tochas” é artista, a sua vida é atuar. Os meios de comunicação social são só isso: meios. O fim é a sua entrega à criação e ao público, para cima de um milhão de público.
Mesmo que os anos se acumulem, não prevê que os descobrimentos sobre si e sobre o que faz diminuam. Há matéria para formar, para transformar. Há novos temas para escrever sobre. Há nervos para gerir antes de entrar em palco, assim era no início, assim é agora, assim espera que seja sempre. Porque, se houver um dia em que não seja, será o dia em que a sua carreira terá terminado. O Tochas só é Tochas se pegar fogo por dentro. É o combustível de uma representação inteira, segura e duradoura.
Não se saberá se se perdeu um grande gestor ou um grande engenheiro químico. Talvez Pedro Tochas ainda ouça Belmiro de Azevedo, mesmo que em surdina, a perguntar-lhe quando vai terminar o curso. Sabe-se o que existe, para bem da virtude de rirmos em conjunto. Somos tantos pelo país e pelo mundo. E já rimos bastante e bem à sua custa. No site onde se encontram depoimentos empresariais como este, poderiam estar os depoimentos individuais dos certamente milhões de pessoas que já foram tocados pelo palhaço. Ei, palhaço não. Bolseiro Gulbenkian. Respeito. Sim, respeito. Ele é o Pedro Tochas, the cool clown!