A Bolsa Gulbenkian “reforçou a noção de que vale a pena arriscar”
Podia estar em qualquer lugar do planeta, mas Jorge Almeida decidiu instalar-se em Portugal, na Universidade de Coimbra, onde dá aulas, dirige o ProAction Lab – Laboratório de Perceção e Reconhecimento de Objetos e Ações, e gere duas bolsas milionárias.
Ficar em Portugal foi uma opção. Além de querer ficar perto da família, também queria mudar as coisas, lutar por melhores condições de trabalho para os investigadores, e aproximar o ensino da Psicologia ao que se faz lá fora.
Filho de uma professora de Matemática e de um engenheiro eletrotécnico, nasceu e cresceu em Lisboa onde, enquanto não cumpria o sonho de ser cientista, jogou à bola, andou de cabeça no ar a ver estrelas e constelações, tocou guitarra numa banda “de qualidade muito duvidosa”, foi escuteiro, e fez muitas experiências… na cozinha. Optou pela área das Ciências sem qualquer dúvida mas, ao chegar ao fim do liceu, foi quase por acaso que se candidatou a Psicologia.
Ainda não acabara a licenciatura e já estava a escrever para investigadores do mundo inteiro, a pedir um estágio. Acabou em Harvard, onde o custo de vida o levou a pedir uma bolsa. Voltou a escrever a várias instituições, dizendo: “Estou em Harvard, a trabalhar com o Alfonso Caramazza, sobre o modo como o cérebro armazena conhecimento. Não estou a fazer doutoramento, mas vou fazê-lo brevemente. Haveria alguma possibilidade de eu receber uma bolsa de investigação?” A Fundação Gulbenkian respondeu positivamente à sua ousadia.
A bolsa de investigação foi atribuída em 2004 e renovada para 2005. Seguiu para doutoramento. Hoje, aos 44 anos, “estacionou” em Coimbra, onde dá aulas e tem um laboratório de investigação onde trabalham cerca de 20 pessoas das mais variadas nacionalidades (apenas quatro são portuguesas) e áreas de investigação.
Nesta entrevista, fala do seu percurso, da sua paixão pelo que se passa no cérebro, da ciência em geral, e da importância da bolsa Gulbenkian para a sua vida.
Comecemos pela Bolsa Gulbenkian. Conte-nos essa história.
Como qualquer história, começa antes do pedido.
Tirei a licenciatura em Psicologia, na Universidade de Lisboa. No quarto ano, enviei e-mails a um conjunto de professores para fazer um estágio. Um deles respondeu-me. Trabalhava em Birmingham, no Reino Unido, onde estive um mês. No ano seguinte fiz outro estágio, na faculdade, e aí ficou claro que o que queria fazer era investigação fundamental, não aplicada.
Antes de acabar a licenciatura (em novembro de 2003), voltei a escrever a vários investigadores. Um deles era o Alfonso Caramazza, de Harvard, a quem disse “quero trabalhar contigo.” E o professor de Harvard respondeu: “sim, tudo bem, mas isto é muito caro e não tenho dinheiro para te apoiar.” Ao fim de dez e-mails, lá fui eu, com fundos próprios, para um laboratório que trabalhava memória semântica e linguagem.
Que é o que continua a estudar…
Sim. Para ter uma ideia, estamos a estudar um paciente que sabe dizer que isto é uma caneta, mas não sabe dizer que isto é uma caneta de metal; mas se eu lhe mostrar um pedaço de metal, já diz “ah, isto é metal”. Portanto, tem um problema na compreensão do material quando o material é associado a um objeto. Estes casos únicos dizem-nos muito sobre a mente humana. Se acontece assim, é porque a mente humana tem uma organização, uma estrutura, e quando parte dessa estrutura é lesionada, leva a que isto aconteça.
Voltemos à bolsa…
O Alfonso foi quem começou o campo da Neuropsicologia Cognitiva, ou pelo menos uma das pessoas que mais impulsionou o campo do estudo de pacientes para se compreender a mente humana – não o estudo de pacientes para os ajudar em si. O importante, aqui, é perceber a mente humana. E, ao percebê-la estou a ajudar quem depois quiser fazer a aplicação.
O que fazia, exatamente, em Harvard? Um estágio?
Estava no laboratório como assistente de investigação, ajudava a fazer experiências e tinha as minhas próprias experiências. Foi-me dado um visto, por Harvard, tinha o meu gabinete, tinha um conjunto de coisas… e, de facto, não era propriamente barato, e não era confortável, para mim, continuar dependente dos meus pais.
E é aí que entra a Gulbenkian.
Mandei um e-mail à Gulbenkian, a dizer “Estou em Harvard a trabalhar com o Alfonso Caramazza, a fazer investigação sobre o modo como a memória de conhecimentos está organizada. Não estou a fazer doutoramento, mas vou fazê-lo. Haveria alguma possibilidade de eu receber uma bolsa de investigação?” E a Gulbenkian concedeu-me uma bolsa durante dois anos.
Não é comum, começar pelo estágio (em Harvard!) antes do doutoramento…
Alguns dos meus colaboradores, no primeiro ano da licenciatura em Harvard, foram para um laboratório e disseram “eu quero trabalhar aqui.”
Quando se quer ser cientista, é para se resolver um problema societal, para descobrir o um tratamento. Eu apaixonei-me por esta questão de como é que o cérebro funciona.
E porquê Psicologia e não Psiquiatria ou Neurologia?
Tinha um grande amigo que quis fazer Psicologia. E pensei que era capaz de ser giro.
Ao entrar, começo a ter cadeiras sobre cognição, sobre como é que a mente funciona, e a partir desse momento tudo o resto deixou de fazer sentido.
A ida para Psicologia foi quase um acaso. Já a passagem de Psicologia para o estudo da mente e como é que isto funciona…
Os seus olhos brilham.
Eu digo a meus alunos para pararem para pensar como é que fazemos isto. Estou a falar e este processo é a coisa mais complexa do mundo. Como é que passo da ideia da mensagem para a entrada lexical? Como é que depois pego nas várias entradas lexicais e as organizo numa frase? Depois, tenho que passar para uma fonologia. E depois a articulação. É completamente louco.
E quem diz linguagem, diz tudo o resto – escrever, reconhecer, fazer um pequeno-almoço. Como é que eu sei o que é um copo? Um copo pode ter pé alto, pode não ter pé, pode ser vidro, de plástico, pode ser visto de cima, de lado… e eu sei sempre que é um copo. Como é que isto acontece? Estas são as perguntas que trabalhamos. Só temos consciência disto quando temos um paciente à nossa frente.
Dá-me um exemplo?
Pacientes com prosopagnosia, falta de conhecimento visual. Estou a olhar para a minha esposa e não reconheço a cara dela. Mas reconheço a voz, o cabelo, o modo de andar, o cheiro. Mas cara, visualmente, não reconheço.
Outro: tive um paciente que, quando via caras, via a parte direita toda a derreter – o nariz a derreter, o olho a derreter, a boca. A parte direita da cara derretia, mas a parte esquerda estava normal. Ajudámo-lo a perceber porque e onde é que isto acontece, em que parte do processo.
O que é que o move, nestes casos?
Compreensão do cérebro.
Voltemos a 2006.
Fiz o doutoramento em Harvard e, ao acabar, mandei um e-mail a todos os diretores das faculdades de Psicologia de Portugal a dizer que queria voltar. Saído de Harvard, facilmente teria conseguido fazer um pós-doc numa das melhores universidades do mundo, mas eu queria fazer qualquer coisa cá. Só recebi uma resposta, de um professor que tinha sido doutorando nos Estados Unidos e estava na Escola de Psicologia da Universidade do Minho. Tinha uma posição no Minho como professor convidado e uma Marie Curie em Lisboa na FPCE-UL.
Uns tempos depois, candidatei-me a uma posição na Universidade de Coimbra. Não fiquei em primeiro, fiquei em terceiro, mas as pessoas que estavam à minha frente felizmente não quiseram o lugar. Antes de aceitar, reuni com a direção para negociar, coisa que é muito comum nos EUA. Queria ter um espaço laboratorial e condições para ganhar uma bolsa ERC [bolsa do European Research Council] no prazo de cinco anos.
E teve ambos.
Sim, ganhei a ERC à terceira. Foi a primeira ERC da Universidade de Coimbra e a primeira em Psicologia, em Portugal. Tivemos de desbravar caminho… Como é que se lida com 1.8 milhões de euros? Como se gasta o dinheiro?
Não foram 2.5 milhões?
Tenho dois projetos europeus, que estou a fazer ao mesmo tempo. A ideia central da ERC, de 1.8 milhões, é mapear o cérebro: como funciona, como é que a informação é armazenada e representada no cérebro, qual a estratégia da organização e porque é que isso é importante.
Há realmente um mapa do que vemos, e esse mapa é refletido no cérebro. O córtex auditivo também tem um mapa topográfico, só que aí não segue a localização, segue o tom. Na parte motora, temos os músculos: se eu estimular aqui, vai mexer o braço assim. Há uma razão de ser para isto acontecer. Este é o estudo do nosso Content Map, cujos resultados já estão a ser publicados.
E a bolsa de 2,5 milhões?
Enquanto desenvolvia este projeto, debatia-me com outra questão: em Portugal, quando se pensa em Psicologia, pensa-se em saúde mental, em tratamento, e só nisto. Mas não é assim no resto do mundo. Nós aqui temos 50 professores de Psicologia no curso e 35 a 40 são clínicos. Em Harvard, tínhamos talvez 20 professores, dos quais dois eram clínicos.
Se pensarmos no étimo da palavra, Psicologia é o estudo da Psique, da mente. Não é o estudo da mente doente ou da saúde mental.
Não temos, por exemplo, Desenvolvimento. O que é que as crianças sabem? Como é que aprendem? Como é que evolui a mente de uma criança? O que é que é core, central? Há muito pouca gente a fazer isto em Portugal. Quase ninguém, infelizmente.
É nisto que se centra o outro projeto?
O outro projeto chama-se Cog Booster – é um booster de cognição. São 2,5 milhões de um programa europeu chamado Widening, que tenta fechar o fosso entre os países widening (em desenvolvimento – Portugal, Bulgária, Polónia, Estónia) e países non-widening (países desenvolvidos – Espanha, França, Alemanha, Inglaterra).
Em Portugal, Bulgária, Estónia, 70% dos docentes nos departamentos de Psicologia são clínicos ou da Psicologia de Educação.
Mas há quem trabalhe em Cognição, em Portugal.
Em Portugal temos 5% de cognição. Em França temos 50% e nos Estados Unidos temos 70%.
Cá, o que eu faço, estudar a mente, é considerado esotérico, mas fora de Portugal, é absolutamente normal.
Mas insiste em ficar em Portugal.
Precisamente. É para isto mudar. E está a mudar.
Este projeto é para contratação de pessoas, de professores, para fechar o gap.
A bolsa de 2.5 milhões dará para financiar cinco professores durante x anos. É essa a lógica?
Os 2,5 milhões vão ser para dar uma equipa às pessoas, espaço laboratorial, horas de ressonância, que são caríssimas, e outras estruturas para que possam fazer investigação.
A ERC é um projeto científico. Esta é uma ação de coordenação, de mudança organizacional. Esta é a mudança que eu quero fazer. E a mudança passa, antes de mais, por mostrar que a Psicologia não é só a saúde mental, há esta outra parte que é importante.
E qual foi a importância da Gulbenkian neste percurso?
Foi sobretudo a compreensão de que se não fizermos nada para obtermos o que queremos, não acontece; se fizermos, pode acontecer. Não temos que nos guiar pelo cânone… foi assim que cheguei a Harvard. E isso levou-me depois a concorrer três vezes à ERC (e não apenas uma), e a ir atrás desta bolsa europeia de 2.5 milhões. Arriscar compensa.
E agora?
Agora é continuar a puxar. Candidatei-me a outro projeto europeu, de 30 milhões de euros. Portanto, é mesmo continuar a puxar.
Era mais fácil se se percebesse aplicação disto tudo…
A aplicação é importante, mas não é a única coisa importante. A ciência fundamental é importante? É. O que é que isto pode dar? Muito! Mas vive-se o imperativo do aplicável. E isso é matar, hoje, a ciência fundamental e, amanhã, toda a ciência. Não podemos apoiar pacientes com Alzheimer se não soubermos como funciona o cérebro. Mas ficaria muito contente se as pessoas pegassem no que eu faço e amanhã o usassem para resolver Alzheimer.