Manuel Neves e Castro

Bolseiro Gulbenkian 1958 – Histórias de Impacto

A História de Impacto do fundador da Sociedade Portuguesa de Menopausa. Com o sonho de ser médico desde sempre, Manuel Neves e Castro teve a oportunidade de desenvolver os seus estudos nos Estados Unidos.
11 mar 2025 8 min
Histórias de Bolseiros

Desde miúdo que queria ser médico. Tinha o meu armário de remédios, tinha uma bata, um barrete e uma máscara e operava um urso de peluche, cortava, cosia, até lhe punha um dedal no focinho a fingir que era a anestesia.

O meu pai era professor catedrático da Escola de Medicina Veterinária, de maneira que eu estava muito sensibilizado para os problemas da biologia e da reprodução. E tinha um tio-avô que era médico de família em Belas, um excelente médico, colega do professor Francisco Gentil. Herdei, inclusivamente, a marquesa que esse meu tio tinha no consultório, uma marquesa de cristal importada de Nova Iorque especialmente para ele e para o professor Francisco Gentil. Ainda a tenho.

Entusiasmado com a vida de médico do meu tio e juntando a influência do meu pai, que tratava muitas coisas hormonais e de fertilidade animal, acabei por ir para medicina e tirar o curso na Universidade de Lisboa. 

E a minha história com a Fundação Calouste Gulbenkian começou quando ainda não havia Fundação Calouste Gulbenkian. No dia da morte do Senhor Gulbenkian, eu li no jornal que toda a sua fortuna tinha sido deixada a uma Fundação e que a pessoa responsável por gerir essa fortuna era o Dr. Azevedo Perdigão.

Nesse mesmo dia, para não perder tempo, descobri onde era o seu escritório, na Rua de São Nicolau se bem me lembro. Lá fui e lá perguntei se seria ali a futura sede da Fundação Gulbenkian, mas o Engenheiro Duarte Castro, encarregado do assunto na altura, respondeu-me que ainda não tinham começado a tratar de nada.

Ora, um jovem com 24 anos, acabado de terminar a licenciatura e determinado com a ideia de sair do país para estudar, disse: “pois como imagino que ainda não tenham recebido nada para aplicar o dinheiro do Senhor Gulbenkian, deixo aqui a minha proposta para uma bolsa de estudo. Pode ser aprovada ou não, mas de qualquer modo tenho o prazer de ser o primeiro a entregar um pedido de bolsa”.

Nesta altura, em 1955, eu já sabia que queria ir fazer investigação para os Estados Unidos da América, na parte de endocrinologia, de hormonas e de temas relacionados, porque era “a meca” onde se tinham descoberto as coisas mais importantes de endocrinologia. Além disto, a pessoa com quem eu queria ir trabalhar, o Dr. Gregory Pincus, era amigo de um endocrinologista português, o Dr. Baião Pinto, que mo apresentou numa viagem que fez a Portugal. E eu, mais uma vez determinado, disse: “é este homem que me interessa”. Perguntei-lhe se me recebia nos EUA caso conseguisse uma bolsa, ao que me respondeu que teria todo o gosto. Portanto, assim que recebi a confirmação da bolsa, lá fui eu.

Foram mais de dois anos de investigação fora. Não só recebi a bolsa para a minha primeira investigação na Worcester Foundation for Experimental Biology (Shrewsbury, Massachussetts), como imediatamente a seguir recebi outra bolsa para ir para a Graduate School of Medicine da Universidade de Pensilvânia (Filadélfia). Na Worcester Foundation, Gregory Pincus e M. C. Chang descobriram uma fórmula mágica, a pílula contraceptiva, M. C. Chang conseguiu pela primeira vez fazer uma fecundação in vitro e Ralph I. Dorfman identificou os esteroides segregados pelas suprarrenais e gónadas, e suas fórmulas químicas.

Todas experiências extremamente importantes como prólogo da minha futura atividade clínica. Tanto em Massachussetts como na Pensilvânia, no meio de um grupo de alunos de vários países, fui classificado em primeiro lugar, notícia que a Fundação Calouste Gulbenkian recebeu muito bem e à qual reagiu enviando um telegrama, os e-mails da época. Estava a dar os passos que determinaram a minha confiança e o meu sucesso em Portugal.

Como eu vinha com a experiência em laboratório da Worcester Foundation, numa época em que poucos percebiam de bioquímica, e como vinha com a experiência clínica da Universidade de Pensilvânia, isso foi motivo de destaque entre colegas médicos e professores, mas também de uma grande confusão porque ninguém percebia se eu ia ser um homem de laboratório ou se eu ia ser um clínico.

Não quis ir para laboratório, no entanto também não fiz concorrência aos clínicos. Os ginecologistas eram sobretudo cirurgiões e os endocrinologistas tratavam sobretudo diabetes ou doenças relacionadas com hipertiroidismo, o que me permitiu o melhor dos mundos: tornei-me ginecologista endócrino, fazendo a ponte entre as duas especialidades, ou seja, não só não fazia concorrência com ninguém, como ainda ajudava toda a gente. Tinha a minha clínica, tudo corria muitíssimo bem.

Não tardou a aventura da academia em Lisboa, por existir em mim a vocação de fazer investigação e de ser professor. E houve dois episódios muito interessantes. O primeiro aconteceu quando a Fundação Calouste Gulbenkian se dispôs a equipar um laboratório de investigação se eu fosse contratado assistente da Faculdade de Medicina de Lisboa, ao mesmo tempo que a faculdade só me contratava se eu tivesse recebido esse laboratório. Nada feito.

O segundo deu-se quando quis fazer o doutoramento. Fui em direção ao Professor Castro Caldas para que fosse meu orientador de tese, que vinha praticamente feita dos EUA, proposta que ele recusou alegando que eu a dormir o orientaria muito melhor do que ele próprio acordado. Nada feito outra vez, desisti do doutoramento.

Mantive a clínica, fui para o Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil, onde estive muitos anos, mas não me esqueci do ensino. O que me levou a fazer uma coisa engraçada e que me dava um prazer imenso: comecei a dar cursos em minha casa, à noite, com alunos que frequentavam a cadeira de Ginecologia da Faculdade de Medicina de Lisboa.

Os resultados foram brilhantes. Todos foram classificados com elevadas notas, só com base no que lhes tinha ensinado. Isto serviu também para os “infetar” com planos futuros, o que veio a acontecer com Luís Sobrinho, Catedrático da Universidade Nova de Lisboa, e com Carlos Calhaz-Jorge, doutorado com 20 valores e atual Catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa.

Costumo dizer que sou um fogueteiro: quando vejo um foguete, parado, mas com a cana direitinha para seguir a trajetória, eu vou lá e acendo o foguete. E fico radiante por vê-los brilhar e dar luz aos seus caminhos.

Nos anos que se seguiram, fui nomeado Coordenador de Pesquisas numa fundação no Rio de Janeiro, onde permaneci dois anos. Como havia um convite para docente da Universidade de Chicago, decidi fazer os exames (E.C.F.M.G.), o que não veio a acontecer porque aceitei um convite da Organon, Holanda, para ser Senior Medical Advisor no domínio de um programa de investigação sobre Medicina da Reprodução.

Ali permaneci cinco anos muito produtivos, durante os quais fiz vários projetos que resultaram em novos medicamentos. Além disto, o meu envolvimento em Sociedades Científicas a nível nacional e internacional (como Fundador ou Presidente) deu-me a oportunidade de fazer muitas conferências e dar aulas em quase todos os países das América (do norte, central e do sul) e da Europa. Percorri mundo.

Foi uma vida cheia de oportunidades profissionais, muitas das quais acompanhadas com a minha família, e eu sei que nada teria sido possível sem a bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Fazendo a analogia com a ideia que expus atrás, a Fundação Calouste Gulbenkian foi o fogueteiro quando eu estava na posição de foguete. Guardo uma fotografia do Senhor Gulbenkian no meu escritório e no meu consultório para nunca esquecer o quanto influenciou a minha carreira, a minha vida e a minha formação como pessoa.

Por isso, aos bolseiros e às bolseiras que estão a caminho das suas conquistas, reconheçam sempre quem vos ajuda, escolham bem os lugares, as faculdades, as cidades, empenhem-se na informação que recolhem e, claro, aproveitem bem. Mesmo com apoio, a vida está nas nossas mãos!

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Histórias de Bolseiros

Desde 1955, a Fundação Gulbenkian apoiou mais de 30 mil pessoas de todas as áreas do saber, em Portugal e em mais de 100 países. Conheça as suas histórias.
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