«Há sempre uma mulher no sótão», por Leonor Rosas
Ansiosa, entrei na exposição em busca deste quadro. Com o nome emprestado de um romance de Jean Rhys que conta a história da soturna mulher presa no sótão de Mr. Rochester, o herói romântico de Jane Eyre. Antoinette Mason, à primeira leitura um empecilho louco que se põe no caminho do encontro fantástico e improvável entre Jane e Rochester, supera a categoria de fantasma e transforma-se numa mulher de carne e osso. Antoinette, mulher «crioula» jamaicana e herdeira de uma imensa fortuna, viu-se casada com Rochester através de um acordo económico feito pelo seu padrasto. «Intemperada e impura», é alvo da raiva do seu recém-marido que vê nela uma mulher dentro da qual brilha um sol que ele não suporta, que gosta de dançar, namorar e passear-se pela sua ilha. Chegada a Inglaterra, é enclausurada no sótão da velha casa e vê a sua não conformidade patologizada como loucura. Tal era o destino da mulher vitoriana que resistia ao casamento forçado, à perda de independência e aos padrões da pureza sexual: a histeria e o corpo agrilhoado.
Não leio Jane Eyre como o seu oposto. Sob o pesado manto do patriarcado oitocentista, vejo uma Jane que recusava o casamento sem amor e ser pássaro ou anjo de um homem, que se dedicava, dentro das circunstâncias em que pôde fazer a sua história, à busca pelo conhecimento. Talvez Antoinette seja realmente o tal «duplo gótico» de Jane Eyre, a expressão literária dos seus desejos, transgressões e pensamentos reprimidos. Indo mais longe, talvez ela seja o duplo de todas nós. Há sempre uma mulher no sótão. Inconformada, raivosa, malcomportada. Os séculos passam, mas continuamos a saber que a mulher zangada não é bem-vinda, é disruptiva e indomável. Mas talvez esteja mesmo na hora de abrir a porta à Antoinette do nosso sótão. Deitemos também fogo a esta casa.