«A intensidade de ser mulher», por Vanessa Sanches
Azulejaria verde em carne viva é um grito. É o retrato mais fiel que encontrei do que é ser mulher. À primeira vista, somos como os azulejos: belas, ornamentadas, encaixadas num padrão e a nossa presença é decorativa, moldada ao gosto do que se espera. Basta um rasgão que revela, sem pedir licença, as entranhas daquilo que tantas vezes se esconde por detrás da fachada limpa, do padrão geométrico e da superfície domesticada. É, na minha perspetiva e sensibilidade, o que é ser mulher. Ou, pelo menos, o que é ser esta mulher e o que cá dentro pulsa, sangra e se quer dizer.
Nesta obra da Adriana Varejão, o azulejo, símbolo do ornamento, da tradição e do colonialismo estético, é rompido e de dentro brota carne, crua, viva, caótica. E é precisamente essa carne que me interpela. A obra não finge. Não mascara a dor. Não pede desculpa por ser intensa, por ser demasiada. E, por isso mesmo, é profundamente libertadora.
Vejo ali também uma denúncia e uma possibilidade de verdade. A verdade de que ser mulher é carregar uma história de cortes. No corpo, na palavra, na existência e, ainda assim, continuar inteira. Inteira como a obra, mesmo quando parece em ruína. Inteira apesar de tudo. Ou por causa de tudo. Esta pintura somos nós quando nos recusamos a ser apenas superfície. Quando mostramos, sem filtros, a carne viva de que somos feitas.