«A dormir», por Manuel Botelho
Vi pela primeira vez em 1994. Vi mas quase esqueci. Guardei o catálogo, entre tantos outros, e apaguei a imagem do pensamento… até agora, passados trinta anos.
A exposição na Marlborough era incrível. Chamava-se Dog Woman. Ao percorrer a sucessão de obras, inesperadas, perturbantes, foi-me impossível não relembrar uma série tão diferente e igualmente tão marcante na obra da Paula, de que havíamos falado profundamente nos nossos tutoriais na Slade: Girl and Dog. Nessas alegorias autorreferenciais de 1986-87 tratava-se seguramente de um cão, que a menina e tratadora tentava medicar ou impedir de morrer à fome. Oito anos mais tarde tudo mudara: agora o centro do palco era ocupado sem rodeios nem dourados com a condição feminina. A dormir saltava menos à vista do que tudo mais nessa exposição, porque tudo mais era brutal… e a minha atenção foi forçada noutras direções.
No CAM a obra foi sabiamente deslocada; aqui, esta «mulher cão» está longe das suas companheiras de série. Ficou lado a lado com as denúncias do aborto clandestino, obras seminais de um momento histórico e que influenciaram o desenlace, finalmente positivo, do referendo nacional. Aqui, neste novo contexto, A dormir surgiu-me como uma obra de pacificação e silêncio.
Num espaço seminoturno, o corpo da Lila (desde aí a sua modelo favorita) mantém-se opulento e vibrante, embora imóvel, adormecido, e a cara apaga-se na sombra dilatada do espaço em volta. A cara é a grande surpresa, porque quase desaparece; não tem gestos ou esgares, e as mãos encaixam uma na outra como se procurassem proteger-se juntas. Depois da dor, será o adormecimento a única forma de sobrevivência?