«O crime está nos olhos», de Jamil Parasol Osmar
Há algo na optografia que me parece verdadeiramente fascinante e perturbador: a ideia, hoje desacreditada, de que a retina do olho poderia gravar a última imagem vista antes da morte, como uma fotografia.
Este fascínio intensificou-se porque, algumas semanas antes de visitar a exposição da Paula Rego e Adriana Varejão, tive uma conversa com a minha namorada e parceira artística sobre a sua investigação mais recente acerca de mortes injustificadas, em particular aquelas que ocorrem de forma violenta, brutal e inesperada.
Adriana Varejão explora precisamente esse tema ao apresentar três protagonistas, cada uma oriunda de diferentes partes do mundo: África, Ásia e América do Sul. Elas estão, infelizmente, ligadas entre si pelo colonialismo, pela violência e pela morte. As três são realizadas a partir de autorretratos inquietantes da artista.
Cada uma tem um dos olhos removido e exposto como num cenário de «cérebro num frasco». Os olhos apresentados não são sangrentos ou grotescos, ao contrário dos retratos, que nos fitam e nos levam a imaginar quem foram estas mulheres, com nomes, esperanças, sonhos, medos e expectativas.
Este núcleo da exposição já evocava uma sensação de laboratório de dissecação. Mas esta obra intensificou ainda mais essa impressão. A artista conseguiu transformar o ambiente branco, estéril e clínico de um laboratório, num local tão macabro e inquietante quanto um matadouro.
Cada sujeito está posicionado diante do seu próprio olho, que foi colocado sobre uma mesa de vidro e cortado horizontalmente, como se tivesse sido feita uma incisão ao meio, permitindo observar as suas retinas.
À primeira vista, as imagens não são muito claras: pequenas e só visíveis com uma lupa. Com a lupa, inicia-se um jogo de mistério. Somos levados, inconscientemente, a participar numa investigação, pois as imagens impressas nas retinas são literalmente cenas de crime. Deixamos de ser simples observadores e assumimos o papel de cientistas forenses ou detetives.
Das investigações que realizei pessoalmente, apresento o meu raciocínio dedutivo e a reconstrução das cenas do crime, utilizando provas e factos estabelecidos para tirar conclusões lógicas sobre os acontecimentos:
Sujeito X – A testemunha asiática. Possivelmente, oriunda do Leste ou Sudeste Asiático, talvez Macau. Vê o homem em pé, sente a tensão a formar-se. O seu olhar captura o início do ato. Antecipou o perigo, mas nada pôde fazer para o impedir. A sua memória cultural carrega o peso da imposição colonial, do controlo patriarcal e do silenciamento da dissidência. Morre com a imagem da ameaça a desenrolar-se, um aviso ignorado.
Notas do investigador: nos seus últimos instantes, captou o desequilíbrio de poder.
Sujeito Y – A testemunha africana. Possivelmente, uma moura. Vê o círculo. O homem desapareceu. As mulheres estão sentadas. Este é o momento do acerto de contas. O seu olhar regista a cumplicidade ou o luto. Pode representar o processamento coletivo da violência, a forma como o trauma é absorvido, partilhado e, por vezes, perpetuado dentro do grupo. Morre observando o silêncio, o luto não resolvido.
Notas do investigador: captou o sistema. O crime não é apenas um ato, é um padrão, um ritual, um ciclo.
Sujeita Z – A testemunha indígena americana. Provavelmente, oriunda das comunidades indígenas do Brasil, profundamente marcadas pela extração colonial. Vê o ato em si. A mulher a ser esfolada, consumida. Esta é a verdade crua. O seu olhar regista a violência na sua forma mais literal e física. A terra, o corpo, os recursos, sempre tomados, sempre devorados. Morre com a imagem da consumação, da transformação em algo destinado ao uso de outros.
Notas do investigador: nos seus últimos instantes, captou o custo de perpetuar esse ciclo.
Juntas, formam um tríptico de testemunho, um arquivo forense de trauma colonial, de género e racializado. O homem pode ter desaparecido, mas a história permanece, gravada nas retinas daquelas que partiram.
Testemunhas oculares X, Y e Z, de Adriana Varejão, não trata apenas de memórias. Trata de verdades internalizadas. E o facto de tudo isto estar colocado na retina obriga-nos a pensar sobre como esta violência é vista, recordada e talvez herdada.