«Fiz-me convidada», por Joana Barrios
Há uma sala que me tomou de assalto. Chama-se «Rituais de Limpeza» e embora seja aparentemente igual às demais em configuração, o que contém contrasta de maneira profunda com todas as outras. Se por um lado a forma pressupõe uma urgência, um ímpeto, uma necessidade quase vital de passar para um suporte físico aquilo que a memória alberga e jamais poderá apagar, por outro há uma sensação de solidão acolhedora no ali representado. Como se uma coisa que se conhece profundamente pela repetição silenciosa de que se é testemunha uma vida inteira tomasse finalmente uma forma e pudesse encontrar interlocutores.
«The Guest» é uma paisagem silenciosa, diria que no feminino.
Aponta para uma presença fértil, porém ausente. Para o que é o presente de um antes e de um depois. É um verbo declinável em vários tempos. Aponta para um estar a ser reconhecível. Sugestivo. O azulejo é frio. As ações que o tingem também? De onde brotou aquele sangue? Que sangue é? A quem pertence?
Esta Adriana contida, que não transborda, que é tensa e bidimensional, interessou-me muitíssimo. Esta Adriana que transborda escondida atrás de uma coluna fria, sem sair da sua dimensão, quase que sem ocupar o espaço, opondo-se a grande parte da obra aqui apresentada.
A ausência espeta mais fundo. Faz doer mais as dores caladas. As dores abstratas. As dores do fundo. E de fundo.