«Cor de qual pele?», por Gisela Casimiro
Durante um ensaio, encenadora e técnico conversam:
– Os microfones são de que cor?
– Cor de pele.
– Cor de qual pele?
– Aquela assim… Dourada.
Reza a lenda que se podia ver o fumo a sair da minha cabeça.
Em «Irmã Marginal», Audre Lorde medita sobre «Um quarto só seu», de Virginia Woolf: «Os reais requisitos para produzir artes visuais também ajudam a determinar, nas linhas de classe, de quem é determinada arte. Nesta era de preços inflacionados dos materiais, quem são as nossas escultoras, as nossas pintoras, as nossas fotógrafas?» A prótese disponível, quando teve cancro da mama, não era da cor certa, a sua. Durante onze anos, a bailarina clássica Ingrid Silva chegou mais cedo aos ensaios para pintar as sapatilhas do castanho da sua pele.
Adriana Varejão criou uma paleta de tintas – com o nome atribuído por pessoas brasileiras à própria cor num censo racial. Ou seja, os nomes que achou mais «poéticos» e «exóticos»: Morenão, Cor firme, Mestiça, Chocolate, Branca suja, Turva, Queimada-de-sol, Escurinha, Mulatinha, Retinta, Cabocla, Branquinha, Azul marinho, Café com leite, Bugresinha escura. Já fui chamada de alguns destes nomes, e já usei um ou outro para me descrever.
Noutra peça da série, vários «auto-retratos» encomendados mostram a artista, tela branca e universal, pintada dessas cores com linhas geométricas. A cor das tintas saiu; a da pele, não. A obra bateu recordes de vendas, mas a vida das pessoas que a inspiraram segue igual, ou não fosse a racialização de uma pessoa branca distinta da de uma pessoa não-branca. Para mim, dialoga com Caixa Brasil, de Lygia Pape, que apresenta três mechas de cabelo ordenadas pela longevidade dos povos no território: indígena, branco, negro. O Brasil segue marcado por séculos de colonialismo, miscigenação, branqueamento, epistemicídio e colorismo.
Em Portugal, ativistas antirracistas lutam pela inclusão de dados étnico-raciais nos censos. Não se escreve corpo sem cor, e quem não vê cores deturpa a história. Hoje em dia as minhas paletas são amplas e ilimitadas como as bases da Fenty, marca de Rihanna que revolucionou a maquilhagem e, logo, a vida de tantas mulheres. Cor de jornalista e apresentadora de televisão. Cor de atleta olímpica medalhada. Cor de diretora de escola, de teatro, de estação de televisão, de museu. Cor de ministra. Cor de vencedora do prémio de interpretação feminina em Cannes. Cor de estar viva.