«Não serei eu, mãe?», por Paulo Pascoal

Convidámos o ator, escritor e curador Paulo Pascoal a selecionar uma obra da exposição «Paula Rego e Adriana Varejão. Entre os vossos dentes». A sua escolha foi «Mãe», de Paula Rego.
Paulo Pascoal 16 mai 2025 3 min
Reflexões sobre «Paula Rego e Adriana Varejão. Entre os vossos dentes»

Ao meio-dia do sétimo dia de maio, passados três dias do Dia da Mãe e ainda com alguns ecos da celebração que é o privilégio de tê-la viva, confrontei-me com uma pergunta na companhia de Filipa Bossuet, que me remete a um silêncio apático. 

Estávamos numa das salas da exibição sussurrando, entre os dentes, as nossas resistências ao tentarmos identificar-nos com artistas que excluem parte humana de nós: Quando tínhamos uma casa de campo dávamos festas maravilhosas e depois íamos para o mato matar os pretos (1961). 

A questão que insurgiu subjetivamente foi «sendo uma feminista revolucionária, e até decolonial, seria Paulo Rego capaz de me matar, por diversão, no ano em que nasceu a minha mãe», e não poderia ser nem mais concisa nem menos filosófica. Assim se faz da provocação um lugar legitimado na interpretação do que se vê, como se é visto, do que se sente e como se é sentido. 

Nessa possibilidade metafórica de me espelhar, reparo no «homem de saia xadrez» na parede ao lado, e revejo-me, não na figura do protagonista de O Crime do Padre Amaro (1875), de Eça de Queiroz, mas na jovem negra vestida de branco da qual a descrição sugere ser um reflexo das dinâmicas de poder e submissão dentro do espaço doméstico. É aí que encontro o meu lugar-comum com a Mãe, de Rego. Numa jovem de traços masculinizados, que num outro imaginário pudesse talvez ser transgénero, ou mais uma vítima dessa pobre boa gente de confusão moral do meio de que nasceu e que faz o mal inocentemente, mas que já não pode ser inocentada. 

Desta forma, a pintura alude a algo que faz de nós sujeitos biográficos, empíricos e poéticos de um quadro de 1997 que transcende o tempo, a intenção e a própria violência contida em si. Recolocando a Mãe numa categoria política independente do sistema patriarcal e devolvendo ao ser mulher a mundividência não subalternizada pelo ocidente. Logo, a Mãe é a nossa origem, é o nosso deus.

Para o título inspirei-me no livro de bell hooks Não serei eu mulher? (1981) uma obra de reflexão pioneira e obrigatória da teoria feminista. 

Série

Reflexões sobre «Paula Rego e Adriana Varejão. Entre os vossos dentes»

Convidámos pessoas de várias áreas profissionais a selecionar uma obra da exposição Paula Rego e Adriana Varejão. Entre os vossos dentes, e a partilhar uma reflexão pessoal sobre os trabalhos escolhidos. Uma série artigos que reflete a diversidade de olhares sobre as obras de duas artistas às quais ninguém fica indiferente.
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