«As loucas», por Carolina Deslandes
É impossível ver esta exposição e separar feminismo de Paula Rego e Adriana Varejão. É impossível ser mulher e não me sentir representada nas partes mais óbvias e nas mais escondidas, ao mesmo tempo que me sinto pequena perante a sua coragem e a sua criatividade.
São elas e, ao mesmo tempo, somos todas.
Cheguei à exposição vinda da minha última ecografia e acho que isso fez com que a minha experiência fosse ainda mais impactante. Porque está ali, em todas obras – o limite, o céu à altura dos olhos, a pequenez que nos é imposta. E, ao mesmo tempo, o desafio a cada obra e a cada pincelada – nós também somos o que não vês, e somos maiores que tu.
Do sangue por trás do colonialismo, da violência sexual à expressão política e contestatária, vamos sendo puxados para a história real, aquela que é contada por mulheres e vivida por mulheres. E tive sempre esta pergunta na cabeça: onde estavam as mulheres nos meus livros de história? Onde é que cabíamos? O que fomos nós além de esposas ou prostitutas? Que mais existe na história contada por homens, escrita por homens, que asfixia a nossa palavra? Paulo Rego e Adriana Varejão contam-na.
No meio de tantas obras e de tantas mensagens, houve uma que chamou a minha atenção. A Daniela disse-me «este conjunto de quadros chama-se Possessão e retrata as mulheres que eram despachadas para os hospitais psiquiátricos e chamadas de loucas». E eu olhei-a, essa mulher – a louca. Ou será errado dizer que me vi ao espelho? O desafio no olhar, a linguagem corporal de quem se impõe, de quem não tem medo do ridículo, do extremo, de quem é louca porque não se cala, de quem é louca porque escapou pelas frechas da subserviência. Continuamos até hoje a ser Loucas. Inspiradas por outras Loucas. Continuamos até hoje a ser «despachadas» e chamadas de histéricas, de exageradas, das que querem tudo e não estão bem com nada. Aquela mulher quer tudo, eu quero tudo. E a Paula Rego quer tudo e pinta tudo para que não percamos a coragem. É um conjunto de quadros que dão a sensação de uma mulher em movimento, desconfortável em todas as posições, irrequieta e urgente – aquela mulher é a mudança. A recusa. A loucura que acende a revolução.
Sei que fui transformada por alguma coisa quando não consigo deixar de pensar nela, quando a trago para uma conversa, quando a carrego para os livros, para as canções e para as insónias – esta exposição é tudo isso. Causa-nos desconforto, aponta-nos o dedo indicador ao nariz e diz: agora não tens como escapar, agora vais ter de me ouvir. E eu fico para ouvi-las. As loucas. As nossas loucas. Nós.