«Esgravatando», por Bruno Pacheco
O fundo da pintura é de um cinzento quente castanho, púrpura, define o limite do retângulo e a parte superior dos corpos. O pastel é aplicado como uma base «cosmética» no limite da saturação. A perceção do suporte desapareceu nesta capa de óleo riscado e esfregado. Os dois corpos de mulheres são moldados por uma acumulação de vários tons de pele, que absorvem as cores das roupas e do espaço, um tapete felpudo que as contextualiza e lhes confere gravidade.
São pinturas sem transparência. Não há um lado líquido ou fluído, é o inverso – trata-se de uma pasta de óleo acumulada, um corpo pastoso, que se revela nas várias espessuras de marcações feitas através de barras de óleo – ora mais finas ora mais grossas – esfregadas ou borradas. Os corpos são «plásticos», construídos desta forma compulsiva do riscar do pigmento – uma mescla de óleo «bruta» rematada posteriormente através de um desenho mais preciso e fino do que a matéria que delineia.
O esgravatar é diferido, a pose dos corpos indicia o gesto da artista, na marcação incessante do pigmento. O chão é construído por gestos sucessivos de riscar e borrar o óleo. Esta repetição de gestos provoca a sensação de movimento e arrastamento temporal a diferentes velocidades. As cores dos corpos: rouges de Veneza, ocres, brancos-sujos disseminam-se no chão, numa agitação que contraria as poses estáticas das modelos. Os seus corpos imóveis estão como que petrificados, resultado da tensão colocada na pose. O dinamismo da pintura entrevê-se no tapete felpudo, tipo pele de animal, que acolhe os gestos primários… um esgravatar no passado, da mesma época que as roupas que vestem – nostálgicas, dum tempo de juventude, numa idade em que as impressões deixam marcas.
De bocas abertas, uma figura é o eco da outra, numa toada semelhante a um «rosnar», baixo e contínuo. Funciona como um lamento que reverbera nas marcações contínuas do plano horizontal da pintura – uma lamuria em tom de reflexo traduzida em riscos repetitivos, próprios de um sentir profundo, agudo, que vem das entranhas – uma condição.