«Os Macacos de Paula Rego», pelo chef André Magalhães
Nasci em Luanda, cresci em fazendas no Sul de Angola, conheci muitos macacos, a maioria eram saguis e macacos azuis de estimação, presos por coleiras à volta da cintura. Tivemos até uma amiga chimpanzé, a Sofia, que gostava de dar abracinhos e arrancava, com a unha, os cravos dos joelhos da minha irmã. O meu peluche favorito era um macaco castanho com luvas de boxe de napa vermelha e calções de cetim encarnados.
Não percebia porque é que alguns meninos brancos chamavam «macacos» aos meninos pretos nossos amigos, especialmente quando levavam fintas a jogar à bola.
Já em Portugal, na aldeia, o Zé Rato zangou-se comigo e disse-me que na minha família éramos todos macacos e (porque) a minha avó era preta. Só então comecei a refletir sobre as idiossincrasias dos homens e dos macacos enquanto passeava pelo campo com o Mondego, o cão da família.
Jovem adulto apaixonei-me por um desenho de macacos, assinado pela Paula Rego, que encontrei na Galeria Sesimbra, nas antigas Galerias Ritz. Juntei dinheiro para comprar os macacos, mas quando voltei já se tinham escapulido.
Desde então, interessei-me mais e mais pelo imaginário de bichos e homens da Paula Rego.
Neste quadro que escolhi não vivem macacos, mas levou-me a pensar que os macacos dos quadros da Paula Rego são sempre homens brancos maus. Dele emana uma reverberação quase telúrica, que me transporta para a minha família africana, para a minha infância, para a passividade inocente de viver numa sociedade imperfeita, injusta e moralmente caduca.
Este quadro de 1961 é de uma atualidade preocupante – em demasiadas geografias continuam a matar-se seres humanos depois de festas maravilhosas.