“Temos de mergulhar na violência”

Catarina Câmara une dança e psicoterapia Gestalt para pensar a liberdade a partir da prisão. O seu livro corpoemcadeia, agora editado pela Fundação Gulbenkian, reflete sobre arte, violência e humanidade em movimento.
21 out 2025 12 min

O que a motivou a criar o projeto corpoemcadeia?

Eu sempre me senti muito intensa e com muitas histórias a cruzarem-se dentro de mim. Portanto, acho que esse é o mote: o que é que faço com a intensidade que há dentro de mim? É uma longa história, mas fiz o curso de Direito e cheguei ao final do curso e disse “não é isto que quero fazer, quero dançar”. E fui para a Escola Superior de Dança.

A dança sempre esteve muito alinhada com aquilo que era a minha forma de sentir. Tinha sempre esta sensação de que quando dançava, dançava a minha experiência, a minha relação com o mundo. E, portanto, havia aqui esta coisa de autoconhecimento, de querer mergulhar dentro de mim. Sinto muito a tensão entre o movimento e a ideia, entre aquilo que dizemos que é o corpo e a mente, a emoção, e preciso de desalinhar para sossegar as minhas vozes.

Então, quando comecei a dançar, comecei a sentir o desassossego que se ia transformando, mas com vontade de ter um reportório para aquilo que me acontecia em movimento. Essa dimensão entre a teoria e a prática foi-se tornando cada vez mais evidente, e depois, como bailarina e professora, fui pesquisando abordagens ao movimento que tivessem a ver com a psicologia, filosofia, até que dei com a psicoterapia Gestalt.

O que lhe trouxe a psicoterapia? E como foi parar às prisões?

A psicoterapia Gestalt é uma abordagem mais filosófica que psicológica, que parte do existencialismo, tem muito a ver com o trabalho do corpo e com fazer perguntas através do movimento. O existencialismo põe em cima da mesa uma questão fundamental para mim, que é a liberdade e a responsabilidade. O que é a liberdade? Isto já faz aqui um elo com as cadeias.

Por outro lado, a psicoterapia da Gestalt vai também beber à fenomenologia, que tem a ver com trabalharmos o fenómeno, não interpretar, descrever, estar no “aqui e no agora”, entender o corpo como uma coisa temporal. A existência precede a essência. No fundo, é rasgar estas caixas identitárias e entendermos que a vida é um fluxo e que estamos em perpétuo ajuste criativo, que é a dança.

Enquanto estava na companhia Olga Roriz, surgiu a necessidade de fazer o estágio da Gestalt. Interessavam-me muito as questões da violência, porque eu odeio violência, é qualquer coisa que me rasga, e a minha forma de diminuir essa força é trabalhando de perto com ela. Então pensei nas prisões, que são um sítio violento, onde o corpo não se move, onde há muita masculinidade, que é também um tema que me interessa – o diálogo com o feminismo, a necessidade de falar sobre a emancipação do homem a par com a emancipação da mulher; porque violência, patriarcado, criminalidade, fazem parte do mesmo circuito. E, claro, a dança é uma provocação para uma prisão.

Catarina Câmara © Pedro Pina

Este livro estava previsto entre os objetos finais do projeto como manual de boas práticas, mas acabou por se transformar num livro com mais de 300 páginas. Como é que isto aconteceu?

Aconteceu porque eu tenho uma limitação, que é uma grande incapacidade de síntese. Há uma frase muito potente para mim, que diz que “a arte é síntese não violenta do disperso”. É a possibilidade de reduzir algo, mas sem o matar. Porque a arte deixa o espaço aberto para que o interlocutor complete. E nunca vai completar, porque uma obra de arte está sempre incompleta.

Mas não deixa de ser um gesto de fechamento. Quando pensei neste produto inicial, era o tal manual, mas depois percebi que não dava porque há tanta coisa a falar aqui. Como é que posso fazer um manual de boas práticas que se cinja a um receituário de algo tão vasto como é a Gestalt, a dança, as prisões?

Portanto, este livro surge precisamente de um reconhecimento da dignidade da Gestalt, que não poderia passar por uma apresentação de técnicas. E, nesse processo, fui abrindo, abrindo, foram quase quatro anos. Precisava dessa dilatação para ser fiel à Gestalt, à dança, às prisões e àquilo que foi o projeto.

O livro inclui fotografias de sete fotógrafos. Qual a importância do diálogo do texto com as imagens e com a fotografia?

Desde o início do projeto que tínhamos uma parceria fantástica, quase em autogestão. Relacionava-se connosco, mas organizava-se de forma própria, coordenada pela Susana Paiva, com fotógrafos alinhados com uma visão comum, mas depois cada um com a sua singularidade.

Eu gostei muito de não saber o que ia acontecer, de eu própria estar alheada daquele processo. E isso, no livro, transfigura-se da seguinte forma: é que não há uma relação figurativa de mimetização, de explicação, daquilo que é o projeto através das imagens. As imagens têm uma vida própria, falam por si, têm a sua própria lógica. Ou seja, nem o texto instrumentaliza a fotografia, nem a fotografia instrumentaliza o texto. Algo que também acontece dentro do projeto, na lógica da Gestalt e da dança: é um agenciamento, uma colaboração de forças, mas que não se absorve e não se instrumentaliza.

O livro "Corpoemcadeia" foi agora editado pela Fundação Calouste Gulbenkian © Pedro Pina

Depois de tantos anos de experiência, o que leva do trabalho na prisão e do contacto com a violência?

Talvez uma consciência mais clara, mais profunda, daquilo que é a complexidade humana. E mais dor também. Quando entras profundamente num sítio que é a prisão, é como se fizesses uma espécie de raio-x da sociedade. Quando mergulhas profundamente na sombra, há qualquer coisa em ti que fica banhado de uma consciência sobre o mundo, sobre o outro, e que é indissociável de uma experiência de dor, de limite, mas traz-te a comunhão.

Ou seja, tocas a dor dos outros, partilhas dores, sais da tua bolha, do palco, do estúdio, mergulhas na miséria humana, mas é uma miséria humana partilhada, que é vivida com amor, com entrega, e então é quase como se estivesses num cenário pós-guerra e visses romper uma planta. Eu não sou otimista em relação ao que estamos a viver, não tenho muita fé na humanidade como conceito abstrato e universal. Mas tenho na relação com as pessoas: é uma chama que fica ali a cintilar.

Daí a necessidade do contacto com a violência, para conseguir desconstruí-la.

Temos de mergulhar nela. Temos de mergulhar na violência. Mergulhar e lambuzar-nos nela, não no sentido de a replicar, mas de a entender, de dançar com ela. E quando digo violência, é a minha também. Nós somos uma sociedade altamente violenta. Achamos que não porque somos educados, porque comemos com talheres e nos sentamos em cadeiras, mas há um nível de violência sobre os corpos. E ultimamente, cada vez mais, nos canais de televisão, nas redes sociais, estamos expostos a um nível de violência aterrador.

E nesse contacto acaba por se encontrar alguma esperança?

Sim, é maravilhoso. Por exemplo, no Corpo de Guardas, que para mim é um corpo muito opressivo e violento, vamos encontrando movimentos, palavras, ações, que desconstroem a violência.

O que me interessa é, dentro da violência, o que descentra a violência. O que é que faz agitar qualquer coisa que está imposta de uma certa forma. Quando estou numa prisão e vejo estes gestos, e vejo os risos, as danças, os atos de gentileza, é como se subvertêssemos a violência. Como só dobrar a roupa ao contrário. É uma energia, uma força. E eu acho que a experiência artística ajuda a refinar esse caudal que é pressuroso, que é intenso.

Uma das frases que mais refere ter ouvido dos participantes é “Estou preso, mas, quando danço, sou, em todos os sentidos, um homem livre”. Que impacto acredita que o projeto teve nos participantes e na comunidade prisional?

Não tenho dúvidas nenhumas de que a experiência da dança é libertadora – e ao mesmo tempo, responsabiliza-te. A liberdade só existe porque há responsabilidade, não é o contrário. E na dança, sobretudo na que praticamos no corpoemcadeia, que é uma dança de relação, encontramos essa tensão relacional com o outro, que tem a ver com possibilidade e limite. Eles sentem-se livres, não porque podem fazer tudo, mas porque podem fazer escolhas. Escolhas de peso, escolhas de movimento, escolhas de toque, e tu só escolhes porque há um outro. Há uma alteridade. Portanto, quando eles dizem que se sentem livres, estão a dizer que se sentem responsáveis por si e pelo outro.

Essa responsabilização também me faz pensar na ideia de empoderamento de que falava há pouco, sobre a libertação do homem.

Completamente. Porque empoderar, para mim, é estar no corpo. To empower is to embody. Quando eles estão nesse lugar do corpo, desmontam a lei, a autoridade. A lei não é o código penal, nem a carta dos direitos humanos, nem a constituição; são sistemas autoritários introjetados, que vêm por um lugar que é o inconsciente. Não podemos pensar a liberdade sem pensar o inconsciente.

Quando eles dançam, descobrem-se nas relações de cuidado, descobrem-se no movimento redondo, numa horizontalidade, em lógicas de interajuda e não de competitividade. E o que o mandato patriarcal diz é que tens de ser forte, não podes mostrar delicadeza, que é uma coisa sobre a outra, no fundo a lógica da nossa justiça. E não, eu acredito que a justiça é um processo, é uma ética relacional. Portanto, o mandato de masculinidade desmorona.

E porque é que a ética relacional vivida na dança é tão eficaz ? Porque ela é descoberta, não é ensinada, não é explicada. Quando descobres uma coisa, já está, não volta atrás. Claro que também elaboramos estas coisas e falamos, mas é nessa relação entre os corpos – e eu tento que haja outros corpos além de masculinos nas sessões – que eles percebem tudo isso.

Que histórias ou momentos a marcaram mais ao longo desses quatro anos?

Eu gosto sempre daqueles momentos em que se desmontam personagens. Lembro-me que durante a pandemia enviávamos cartas aos rapazes e essas cartas não lhes eram dadas diretamente, mas o diretor lia-as em voz alta. E eram cartas filosóficas, poéticas. Então, de repente, tinhas um diretor de uma cadeia com os reclusos a dizer “meus queridos, abro a janela, veja o sol e penso em liberdade”. E estes cenários improváveis aconteciam aqui e ali. Eu adoro, porque é um desarranjo total.

Também tivemos agora um rapaz novo que entrou, que é dos comandos, mal se mexia. Dava para ver a tensão no corpo dele, queria fazer, mas não sabia como. Então eu disse “agora sentas-te e observas”. E ele começou a ver o grupo e entrou, e a cara dele foi relaxando. Gostei tanto de ver esse processo, quando a coragem supera o preconceito sobre si mesmo. E vemos isto sempre a acontecer: a pele a cair – que dói –, e outra pele a nascer.

Catarina Câmara © Pedro Pina

Que papel é que fundações como a Gulbenkian podem ter no desenvolvimento e na continuidade destes projetos?

A Gulbenkian tem sido o pulmão e o coração destes projetos. O que eu desejaria é que existissem mais Gulbenkians para que estes projetos possam florescer. E eu acho que a Gulbenkian não é um influencer, não influencia políticas culturais, faz políticas culturais, porque a cultura é política.

A Fundação tem um papel muito importante, porque não só financia, dá recursos financeiros e humanos, mas também cria um espaço de discussão, de formação e de crescimento, de questionamento destas práticas artísticas. Isso é brilhante, é confiar também no nosso papel enquanto criadores destas políticas públicas, que são políticas de justiça social.

O que espera que este livro deixe para o futuro, nesta área? E como é que este tipo de práticas pode contribuir para o futuro das prisões?

Eu gostaria muito que o livro, da mesma maneira que dialoga com muitas vozes, pudesse chamar a atenção de muita gente diferente que trabalha nas prisões. Desde os agentes artísticos, sociais, sobretudo pessoas ligadas à Direção-Geral de Reinserção, educadores sociais, enfim, gostaria que tivesse um público diversificado. E gostaria muito que, ao lerem o livro, as pessoas pensassem como é que podem fazer a diferença desde o seu lugar de autenticidade.

No fundo, queria trazer aqui um lado mais humano, mais crítico e, sobretudo, defender algo que considero essencial, que é a importância da arte na construção do indivíduo. Eu acredito, sinceramente, que nos transcendemos em três dimensões: a da criação, a do cuidado e a da educação. Andamos muito ocupados a produzir, a fazer o progresso, a tecnologia, mas o que eu gostaria era que repensássemos o nosso paradigma social e colocássemos a produção artística participada como o coração da nossa civilização. E acho que, quando isso acontecer, passarei a ter mais fé na humanidade.

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