Ópera na Prisão: aprender a cantar para “controlar o impulso”
No interior do Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens (EPL-J), no sítio onde estão penduradas as chaves, lemos “Armamento”, “Pavilhão 1”, “Pavilhão 2”, “Pavilhão de Castigo”… e, entre elas, há uma que diz “Ópera”. Uma imagem que ilustra bem o impacto de mais de uma década do projeto “Ópera na Prisão”, nas palavras do coordenador e diretor artístico, David Ramy.
“Mozart On” é a mais recente fase de um percurso iniciado em 2014 com o projeto promovido pela SAMP – Sociedade Artística Musical de Pousos no EPL-J. “O importante aqui era criar uma equipa técnica, com capacidade de autogestão de programação, de produção e utilização dos espaços e dos equipamentos”, explica David. “Quando todos os projetos terminarem, o ideal seria este espaço continuar com autonomia, gerido pelos próprios reclusos e guardas.”
Ao longo de três anos, um grupo de 40 reclusos entre os 16 e os 23 anos – dos quais ficaram 21 – participaram em oficinas criativas e na cocriação de espetáculos de dança e música. A micro-ópera “Até as Pedras Precisam de Raízes”, que apresentaram no Pavilhão Mozart no fim de maio, é a terceira produzida no espaço de um ano, e conta com música composta por João Santos, com beatmaking a cargo do seu filho, Tiago Santos. “É uma obra feita a quatro mãos, de duas gerações e dois universos musicais”, salienta David. “O Tiago tem a idade destes rapazes, traduz o universo do pai ao universo da eletrónica para eles perceberem que muito do que está no beat está na composição, e vice-versa”.
A multidisciplinaridade na produção de um espetáculo
Nesta micro-ópera, que fala do conflito entre partir e ficar, todos “fizeram um bocadinho”. Os que não quiseram subir ao palco, asseguraram a produção e a régie. É o caso do Guilherme, que participa no projeto há ano e meio: “Nunca tinha tido contacto com ópera, nem com música. Achei que ia ter de cantar, mas depois percebi que podia trabalhar na parte técnica, e agarrei-me a ela. Hoje já sei o básico das luzes, e quero aprender a fazer melhor.”
Já José Fernandes, que acompanhou os três anos do projeto e faz parte do elenco, lembra o nervosismo das primeiras atuações. “No início é difícil, mas depois de passar daqueles três segundos de começar o espetáculo, já somos nós”. Também se torna mais fácil atuar quando a encenação inclui elementos de que gosta, como a música cigana ou o boxe. “A Sofia [Neves, encenadora] perguntou-me qual era o meu objeto favorito, que relação é que eu tinha com ele – neste caso, escolhi as luvas de boxe, disse-lhe o que sentia, e ela por aí escreveu um texto mais bem feito”.
Além da produção, o momento de apresentar o resultado final também é desafiante, e uma experiência diferente consoante o público que assiste. Para Guilherme, a apresentação às famílias e a pessoas fora da comunidade prisional é mais difícil, porque sente mais pressão para “fazer bem, não falhar”. Para José, essa pressão é positiva: “Quando são pessoas aqui reclusas, a gente tem mais confiança; mas se for para as pessoas de fora, a pressão ajuda-nos a ficar mais focados no espetáculo”.
Silêncio, que se vai cantar ópera
“Há dez anos era uma loucura para eles fazer ópera, era uma senhora que dava uns berros e não se percebia rigorosamente nada, ou uma coisa muito chata que passava na RTP2”, explica David Ramy. Hoje, o cenário é diferente: “eles já sabem muito bem que vêm cantar uma coisa lírica com instrumentos ao vivo, já sabem o que é o universo da ópera e às vezes até vêm cá falar sobre óperas que ouviram na RTP2. É uma coisa muito engraçada”.
Para João Santos, que descreve o processo de composição da música como “intuitivo e colaborativo”, estes projetos ajudam também a “criar uma certa melomania e abertura mental”. E isso notou-se especialmente na apresentação do espetáculo para os reclusos: “os que vieram assistir estavam em silêncio absoluto, completamente vidrados e surpreendidos não só com tudo o que estava a acontecer, mas com o facto de terem os cantores junto a eles”.
Este contacto direto com o palco e o espetáculo é nova para quase todos. “Gente que só está habituada à vibração de uma coluna à meia-noite, que nunca viu um violino a dois metros de distância, agora sente o corpo vibrar com a voz ou um piano”, refere Ramy. E esta, para o coordenador, é uma das grandes vitórias do projeto: “estamos a conseguir levar uma arte considerada a arte mais complexa, cara e elitista a um universo exatamente oposto do elitista, embora igualmente complexo”.
O futuro cá dentro – e lá fora
Para José e Guilherme, o que levam da Ópera na Prisão é o companheirismo, a amizade e o respeito pelo outro: “Criar empatia com os outros, perceber que a nossa cultura não é sempre a mais certa, e que há outras culturas muito diferentes das nossas. Isso é o mais importante, tentar sempre melhorar a vida das outras pessoas, dentro daquilo que é possível para nós.”
No entanto, segundo David, a verdadeira componente pedagógica e educativa está na mão do maestro. “Eles acham que estão a aprender a cantar, mas na verdade estão a aprender a controlar a respiração, que é controlar o impulso. E eu não só acredito, como já comprovei pelos guardas, que uma pessoa que realmente está dentro deste processo durante dois anos, no terceiro ano, quando o guarda lhe dá uma reprimenda, respira antes de mandar a nota. Já não diz a nota desafinada que quer. Respira, porque aprendeu. Isso é muito melhor para a sua reintegração”.
Além das três micro-óperas apresentadas, está previsto um espetáculo final no Teatro de Leiria, a 19 de julho, e o lançamento de um livro com fotografias e textos de todo o processo. O futuro do projeto é ainda incerto, mas o que fica é sólido: “Há uma equipa cá dentro preparada para continuar a programar e convidar artistas. E têm todo o material para fazer o espetáculo que quiserem, que é o que era preciso: ter quem tome conta do espaço e quem saiba tratá-lo com dignidade”, afirma Ramy.
O projeto “Ópera na Prisão: Mozart On” foi apoiado no âmbito da 2.ª edição da iniciativa PARTIS & Art for Change, promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação ”la Caixa”.