O direito à cultura
Algures num vídeo nas redes sociais, encontrei a atriz Denise Fraga, que dizia, parafraseando: “assim como temos direito à saúde, temos também de ter direito à arte, porque a arte ajuda-nos a viver”, e acrescenta “quem lê Clarice e Pessoa, quem lê Dostoiévski, quem lê os poetas, no mínimo vai sofrer mais bonito” e bem devo à Florbela Espanca a beleza e a legenda do sofrer mas também às canções de infância em rádios de casa em FM, às primeiras peças de teatro que assisti, ao que comi. A cultura mais do que uma forma de estar, é algo que nos nutre enquanto humanos, tal como o sol, a chuva, a cultura surge como alimento e rega do sentir, do pensar e do ser.
Na conferência de abertura “Isto é PARTIS & Art for Change” partindo do tema “Direitos Culturais: Como Passamos à Prática?”, com a presença de Jazmín Beirak, Diretora Geral de Direitos Culturais do Ministério da Cultura de Espanha, recordamos que na história, os direitos culturais surgem a par com os direitos humanos, constituindo-se por isso uma dimensão integral e indivisível do ser humano.
Porém, a visão da cultura como um altar, consumível ou como algo distante, inalcançável e exclusivo, pode criar um afastamento e inibir uma participação cultural efetiva. Ter uma oferta cultural, por isso, pode nem sempre ser sinónimo de participação, tornando-se fundamental que as instituições mais do que provedoras se tornem facilitadoras e encontrem modos de ativar os objetos culturais nos contextos locais, para que as pessoas se tornem protagonistas.
Tristany Mundu, a respeito do espaço e (não) lugar, mostra-nos que a cultura também se faz na rua, longe do centro e das instituições, lembrando pelas palavras de Jazmín que “até é mais potente quando as escapa”. Esta potência vem também de projetos como o da “Orquestra Geração”, cuja abordagem de capacitação pela música vem mostrar outra face menos noticiada dos lugares e impulsiona o crescimento de novos artistas, entre os quais Edvânia Moreno que com o seu violino, exemplifica o papel da arte no sobrevoar das expectativas sociais. Patricia Carmo, atriz e professora de Língua Gestual Portuguesa, enquanto pessoa surda, foi igualmente conquistando espaço e surge em representação do potencial artístico presente na comunidade surda. Estes e mais nomes, ilustram a necessidade de criar caminhos, oportunidades e um olhar atento às potencialidades dos lugares, mas sobretudo das pessoas que os habitam.
Ao longo da conferência e nos projetos apresentados nos três dias de programação, além da participação cultural, o espaço e o lugar, foi abordada a identidade cultural. A atriz Maria Gil refere que “onde está uma pessoa cigana está sempre uma expressão cultural”, não obstante, nesse olhar para comunidade cigana, até onde vão as nossas lentes e (des) conhecimento?
O “Museu Nómada Lungo Drom”, em romanon, traduzido ”A Longa Viagem”, deu assim a conhecer a história e a cultura da comunidade cigana no Alto Alentejo, em Portugal, num museu itinerante com a reflexão e em resposta ao questionamento “Porquê são nómadas os ciganos?”, personificado pelo caracol Serafim, que transporta a sua casa às costas. Também, foi recordado que na história, “a alegria na cultura cigana é resistência, mas também é alegria genuína”, emprestando aqui as palavras de Maria Gil e da sua filha, Mariana Gil, que enfatiza “não somos apenas as nossas cicatrizes” e o “humor é mais do que um mecanismo de defesa, é um mecanismo de vivência”. Este desconstruir de percepções surge ainda no documentário “Empoderío” que pôs em foco a experiência de representação de um grupo de mulheres ciganas de Otxarkoagaque, esclarecendo que “não se vê outra visão da mulher cigana, vê-se a visão da mulher cigana”, mostrando a importância de nos aproximarmos e com isso encurtarmos o desconhecido.
Foram vários os momentos na programação em que artistas e público se envolveram e fortificaram o sentido da palavra comunidade, desde o Grande Auditório que se ergueu com o concerto de “La Familia Gitana & ZHA!” em celebração da comunidade cigana, até ao Anfiteatro Ao Ar Livre, num carrossel em movimento, em viagem nas sonoridades e fábulas tradicionais ucranianas apresentadas no espectáculo “Mais uma volta… mais uma viagem” na instalação “Jardim Zoológico Pedonal”.
Também o Auditório 2, numa verdadeira polifonia de palavras, gerações e sentires, acolheu as vozes das “Cantadeiras de Campo do Gerês” e do “Coro dos Anjos”, num reportório fiel ao resgate da herança e tradição, com espaço para a poesia e para o beatbox. No concerto, as canções foram entoadas para e com o público, onde a letra da música “Labuta” foi facilmente aprendida e entoada em coro com a plateia, em passos e palmas firmes, vivas, “que dão sentido e amor à luta”, num semear de esperança coletivo e repasto dos lugares baldios, criando o retrato de um palco cheio, ritmado, num eco livre e plural.
Todavia, tal como exposto na instalação Q-Circo, a par dessa pluralidade existe uma essência individual, já que “cada ser humano é um mundo” e cada um carrega na sua bagagem as suas paisagens interiores, o lugar dos sonhos, da memória, o que nos move. Ainda assim, o espírito de união e cooperação veio pautar os testemunhos dos participantes e surge como denominador comum dos processos de criação.
Em conversa, após o documentário “A Inglaterra chegou a Portugal” exibido no Auditório 3, Beatriz Silva e Folly Sallah, jovens envolvidos na produção e na vertente musical, respetivamente, abordaram os desafios e mais-valias da co-criação e as superações e descobertas ao longo da experiência. De igual modo, a performance “Fome de Bola”, que arrancou no espaço Engawa do Centro de Arte Moderna, na qual participaram jovens do Porto, com cenários ficcionais da série “Oliver e Benji”, relacionou paisagens e problemáticas reais, destacando igualmente o espírito de equipa, união e cooperação, convocando à pergunta: “Este lugar é meu?”.
Já que o espaço, para ser realmente de pertença, de lugar, precisa de permitir às pessoas “vesti-los”, “vestindo-se”, abraçando a cultura e identidade de cada um.
Resgatando a pergunta vinda da plateia na conferência: “O que tiveste de deixar fora da porta para entrares aqui hoje?”. Estamos a deixar-nos do lado de fora ao abrir a maçaneta?
Faz um pouco lembrar a descida de elevador na série “Severance”, em que nos subdividimos, mascaramos, para nos encaixar em diferentes espaços e nos dissociamos das diferentes possibilidades de nós. Que espaços podemos então criar para que a cultura de cada um, possa ser respeitada e acolhida?
Entre várias interrogações que ficam, a arte e a cultura, surgem indubitavelmente, nesta edição, como união, refúgio, voz e luz, pelas palavras de Rajendra Shiwakoti “With art, wherever I go, I can spark”, esse brilho que vimos dentro e fora dos palcos, nos olhares, nas trocas, no impacto dos projetos apresentados, vem criar espaço para “passo a passo”, se pensar e principalmente para se pôr em prática os direitos culturais.
A autora escreve de acordo com a antiga autografia.