Clima de Mudança: sete ideias-chave

Neste artigo, olhamos a fundo para as sete ideias-chave que resultaram do estudo "Clima de Mudança: perceções sobre os desafios ambientais em Portugal", encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian à Ipsos APEME.
25 jun 2025 12 min

Esta investigação procurou compreender as atitudes dos cidadãos portugueses face aos desafios climáticos e caracterizar as organizações que atuam na área do ambiente e as abordagens que seguem para envolver os cidadãos na sua missão. O cruzamento entre estas duas dimensões permite identificar oportunidades para potenciar mudanças, individuais ou em comunidade, que contribuam para uma transição sistémica na resposta às crises climática e da biodiversidade.

Ideias-chave

1. Desafios ambientais: consciencialização não significa ação

Em geral, os portugueses reconhecem a importância dos desafios ambientais. À pergunta “Serão maiores os custos económicos das medidas para combater as alterações climáticas ou os custos económicos do seu impacto?”, 71% dos inquiridos acredita que serão maiores os custos associados ao impacto das alterações climáticas.

Serão maiores os custos económicos das medidas para combater as alterações climáticas ou os custos económicos do seu impacto?

0%
0%
0%
Custos do impacto das alterações climáticas
É indiferente
Custos das medidas de combate às alterações climáticas

A maioria dos portugueses também acredita que poderia fazer mais pela defesa do ambiente, porém, há um claro desfasamento entre intenção e prática: a preocupação com o ambiente não está no topo das suas prioridades, sendo ultrapassada por questões como os cuidados de saúde ou a pobreza e a desigualdade social.

Quais os temas que considera mais preocupantes em Portugal?

Cuidados de Saúde
 
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Pobreza & desigualdade social
 
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Corrupção política/financeira
 
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Impostos
 
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Controlo migratórios
 
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Inflação
 
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Crime & violência
 
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Educação
 
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Aumento do extremismo
 
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Alterações climáticas
 
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Desemprego
 
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Conflitos militares entre países
 
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Declínio moral
 
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Ameaças contra o ambiente
 
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Terrorismo
 
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Acesso ao Crédito
 
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Manutenção dos Programas Sociais
 
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Covid 19
 
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Entre os problemas ambientais com mais expressão no país, os portugueses destacam como principais preocupações os eventos climáticos extremos , o esgotamento de recursos e as alterações climáticas. Já a poluição atmosférica, a desflorestação, a degradação dos solos e a perda de biodiversidade são consideradas relativamente menos preocupantes.

Dos problemas ambientais listados abaixo, quais considera serem mais preocupantes em Portugal?

Eventos climáticos extremos
 
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Esgotamento de recursos
 
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Alterações climáticas
 
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Acumulação de lixo, embalagens e plástico
 
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Poluição das águas
 
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Desertificação e/ou secas
 
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Poluição do ar
 
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Desflorestação
 
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Poluição do solo
 
0%
Diminuição da biodiversidade
 
0%
Não sei
 
0%

2. O espaço público deve liderar pelo exemplo

Quando olham à sua volta, seja na rua ou nas instituições que frequentam, a maioria dos portugueses afirma não ver exemplos de boas práticas, não sendo por isso despicienda a sua preocupação com a acumulação de lixo.

“Vivi cinco anos na Suíça e é completamente diferente. Não há poluição, ou seja, as pessoas não podem deitar lixo na rua e os lixos são recolhidos a horas certas. Não podemos deitar lixo fora da hora. Ou podes, mas depois és multado. E eles cumprem as regras, não tem nada a ver com o que temos aqui em Portugal.”

— Cidadão em conversa de grupo

Apenas uma pequena parte da população reconhece ver implementadas práticas sustentáveis no espaço público. No entanto, mais de metade dos inquiridos acredita que deve ser o espaço público a liderar pelo exemplo na transição ambiental, a fim de gerar confiança na mudança.

Relativamente a comportamentos individuais, quando questionados sobre que ações podem ter mais impacto no combate às alterações climáticas, metade dos portugueses inquiridos selecionou a opção “fazer a separação de lixo e reciclar”. Só depois surgem as mudanças que, à luz do conhecimento atual, são mais relevantes e, por isso, urgentes, como a transição energética ou a mudança de hábitos na mobilidade, nomeadamente um maior uso de transportes públicos.

Entre os comportamentos individuais listados abaixo, quais são os que têm mais impacto no combate às alterações climáticas, na sua opinião?

Fazer separação de lixo e reciclar
 
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Consumir energia apenas de fontes renováveis
 
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Passar a usar transportes públicos
 
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Usar menos embalagens
 
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Reduzir o consumo e consumir produtos mais duráveis
 
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Remodelar a casa para ser mais eficiente (janelas, por exemplo)
 
0%
Usar equipamento para cozinha mais eficiente
 
0%
Cultivar ou produzir os seus próprios alimentos
 
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Fazer uma condução energeticamente mais eficiente (andar mais devagar, evitar rotações altas, por exemplo)
 
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Viver sem carro
 
0%
Ter uma dieta alimentar à base de vegetais
 
0%

3. Diferentes perfis de cidadãos exigem abordagens diferenciadas

Com base nas entrevistas realizadas durante a investigação, foram identificados cinco segmentos de cidadãos, dos mais aos menos comprometidos com a transição para estilos de vida mais sustentáveis. Tais perfis devem ser considerados no momento de construir narrativas e mensagens para sensibilização e mobilização em temas de ambiente e clima.

Assim, partindo dos 1509 inquiridos, conseguiu traçar-se os seguintes perfis:

  • Entusiastas (25%) – Proativos e motivados, já adotam práticas sustentáveis;
  • Esforçados (27%) – Comprometidos, mas frustrados com a falta de apoio coletivo;
  • Recetivos (25%) – Interessados, mas inconsistentes nos hábitos;
  • Ocupados (15%) – Envolvimento limitado devido às exigências da rotina;
  • Desinteressados (8%) – Sem interesse ou envolvimento com a causa ambiental.

Importa conhecê-los. Em traços gerais, nos segmentos mais empenhados em práticas sustentáveis há uma percentagem elevada de licenciados (43% nos Entusiastas, 50% nos Esforçados) e menos elevada nos segmentos menos preocupados (32% nos Ocupados, 33% nos Desinteressados). Enquanto os Entusiastas são compostos por uma maioria de mulheres (53%), os Desinteressados são o segmento que integra a maior percentagem masculina (56%). Em termos etários, há um contraste claro entre segmentos: enquanto os Entusiastas são compostos por uma larga maioria de cidadãos entre os 45 e os 60 anos (60%), por oposição a apenas 13% de jovens entre os 18 e os 24 anos, é no segmento dos Desinteressados que o peso destes jovens (20%) relativamente às faixas dos 25-44 e 45-60 (40% cada) é maior.

4. Ser jovem não garante um ADN de sustentabilidade

Tanto os dados do inquérito como as conversas tidas ao longo da investigação [focus groups] demonstram que há uma parte significativa de jovens mais ansiosos com o aumento do custo de vida ou o desemprego do que com a sustentabilidade ambiental. Para além disso, estão menos ligados à comunidade (participam menos em associações e outras iniciativas coletivas) e menos orientados para a adoção de rotinas mais sustentáveis.

Rotinas mais sustentáveis

Reutilizar sacos compras
 
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Separação de lixo
 
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0%
Consumir produtos da época
 
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0%
Banhos curtos
 
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0%
Evitar andar de carro
 
0%
 
0%
Limitar consumo de carne
 
0%
 
0%
Comprar em 2ª mão
 
0%
 
0%
18 – 24 anos | Faz sempre ou quase sempre
Total amostra | Faz sempre ou quase sempre

Mas o que mais os distingue, acima de tudo, é a forma como consomem informação. À questão sobre a origem do conhecimento que têm sobre sustentabilidade, 52% responde “redes sociais”, um valor muito superior à média do total da amostra (27%).

Olhando para esta faixa etária com a lupa dos cinco segmentos, verificamos que, tal como já foi referido, são menos envolvidos e menos confiantes e, por oposição, o quadrante dos mais envolvidos e confiantes é o que mais decresce comparativamente aos demais grupos etários: entre os jovens, encontramos apenas 13% de Entusiastas.

Compreender as diferenças entre os jovens

Conclui-se que é fundamental reforçar a educação ambiental desde a infância e criar experiências práticas e positivas que envolvam os jovens de forma mais significativa e que os levem a agir pelo coletivo.

5. Incentivos superam penalizações na promoção da mudança

Que dificuldades encontra na adoção de rotinas mais sustentáveis para o ambiente?​

Exige gastar dinheiro que não tenho
 
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Falta de alternativas acessíveis
 
0%
Falta de incentivos
 
0%
Exige gastar mais dinheiro e não estou disponível para isso
 
0%
Falta de tempo
 
0%
Falta de informação sobre o que posso/devo fazer
 
0%
Tenho outras prioridades no momento
 
0%
Falta de informação sobre como fazer
 
0%
Falta de porta-vozes ou projetos inspiradores e mobilizadores
 
0%

A perceção de que ser sustentável é financeiramente mais exigente é uma barreira significativa: cerca de metade dos inquiridos refere que não faz mais pelo ambiente porque isso implicaria custos adicionais e porque faltam alternativas acessíveis. Assim, medidas de incentivo, como benefícios financeiros, prémios ou recompensas, podem revelar-se mais eficazes para estimular mudanças de comportamento do que abordagens punitivas, como multas ou subida de impostos. É importante ir ao encontro das preocupações mais imediatas das pessoas e demonstrar os benefícios diretos que cuidar do ambiente pode ter.

6. É preciso aproximar as organizações ambientais dos cidadãos

Ao olhar para as organizações do terceiro setor que atuam na área ambiental, apenas uma minoria de cidadãos não valoriza a existência das mesmas; a esmagadora maioria da população reconhece o valor destas organizações em muitas das suas valências. No entanto, não têm qualquer relação com as mesmas e desconhecem quais atuam na sua região.

Em que medida valoriza a existência e atuação de Organizações Ambientais, na sua comunidade local?

Defesa dos interesses locais
 
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Proximidade e disponibilidade
 
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Sentimento de comunidade e ação coletiva
 
0%
Motivação e interesse genuínos
 
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Capacidade para desafiar o Poder Local
 
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Dar visibilidade aos desafios ambientais
 
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Capacidade para desafiar o Governo Central
 
0%
Não Valorizo
 
0%

As próprias organizações reconhecem a dificuldade de chegar às pessoas e envolvê-las, devido aos limitados recursos: 41% das organizações ambientais inquiridas opera exclusivamente com trabalho voluntário e apenas 55% tem trabalhadores a tempo inteiro. Esta falta de trabalho especializado é um dos obstáculos à boa comunicação da sua missão e trabalho desenvolvido.

“É preciso, realmente, formação específica [em Comunicação] para se chegar às pessoas e essas associações são feitas de voluntários, que muitas vezes vêm de áreas que nada têm a ver com o assunto que estão a tratar. E não é só criar uma conta no Instagram ou no Facebook, meter lá umas fotos de quando se vai aqui e ali...”

— Esforçada, 20 anos, Faro

Apenas 24% dos representantes destas organizações ambientais considera ter uma “construção de narrativas bastante desenvolvida para envolver de forma eficaz as pessoas” com quem interagem. Angariação de fundos ou conhecimento sobre o acesso a programas de financiamento são, além da comunicação e marketing, outros desafios identificados por estes representantes.

7. As organizações ambientais como catalisador da mudança

Se o desconhecimento sobre as organizações ambientais e as iniciativas que promovem são uma barreira à participação dos cidadãos, 90% das organizações inquiridas acredita na importância de uma rede estruturada para potenciar a colaboração e o impacto do seu trabalho.

A partir das conversas com os cidadãos, pôde inferir-se que tornar as causas ambientais mais visíveis e relevantes no dia-a-dia pode ser uma estratégia vencedora para um maior envolvimento.

 “Toda a gente se junta e paga para participar em maratonas. Não fica assim tão barato e temos milhares de pessoas a participar. Se criássemos maratonas de limpeza da floresta, uma estratégia de coletivo, mesmo que não tivessem que pagar... ”

— Cidadão em conversa de grupo

A criação de espaços comunitários de convívio (third places, ou seja, locais onde passamos tempo e convivemos, precedidos pela nossa casa – first place – e pelo trabalho – second place) que sejam simultaneamente modelos de vida sustentável e locais de partilha de ideias, pensados para propiciar a cocriação de projetos de transição ambiental, podem ser uma solução para motivar a participação e mobilizar os cidadãos.

O estudo demonstra também que organizações ambientais mais capacitadas, que já têm o compromisso para com a sustentabilidade no centro da sua ação e uma maior proximidade das pessoas e dos seus contextos, podem ser a força motriz da mudança, sendo capazes de convocar autarquias, empresas, escolas, espaços de cultura, comunicação social e cidadãos para concretizar uma visão conjunta de transição e uma mudança sistémica.  

Ler estudo

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