Uma casa para “ensaiar uma vida melhor em conjunto”

A Casa Novo Bowing, em Odemira, é o novo espaço de encontro de pessoas e culturas para promover a integração de pessoas migrantes através da arte, com o apoio da Fundação Gulbenkian.
Loading
19 mai 2025 4 min

Estamos em Odemira, naquela que foi em tempos uma grande residência de estudantes. É um edifício amplo e espaçoso, com muitos quartos, salas e corredores. Sente-se o alvoroço dos preparativos para o grande dia: é a véspera da inauguração da Casa Novo Bowing, e há muito para fazer. Os músicos ensaiam na grande “Sala Panorama”, no piso de cima, enquanto um grupo de mulheres nepalesas prepara, na cozinha, uma quantidade industrial de iguarias do sul da Ásia (como momos e selrôti), para alimentar a multidão de visitantes que se espera no dia seguinte.

Este novo espaço, também conhecido como “Centro para as Relações Planetárias”, será, nos próximos tempos, o principal local de encontro do projeto Novo Bowing, com o objetivo de promover a inclusão da população migrante em Odemira e, através da arte, “tentar abordar as grandes questões que aqui estão em aberto”, de acordo com a coordenadora, Madalena Vitorino. São elas: a educação, o labor e as pessoas.

Inspirado na experiência do projeto Bowing (2021-2023), promovido pela Cooperativa Lavrar o Mar com a coordenação de Madalena Victorino, este “é um projeto de pontes” – em particular, a ponte entre as culturas oriental e ocidental – para perceber “como é que nós, portugueses e alentejanos, podemos olhar para este mundo que aqui está e trocar com eles, com elas, uma situação de vida promissora, de hospitalidade, de acolhimento; perder medos e preconceitos, e pensar que estão à procura de uma vida melhor, tal como nós”.

All really good feelings [Tudo bons sentimentos]

As mulheres que agora cozinham chegaram momentos antes de finalizar o seu trabalho diário nos campos de agricultura. No intervalo entre o amassar dos momos e o ensaio das canções que vão interpretar com os músicos, conseguimos falar com uma delas, Prariva Dahal, que nos conta que participa no projeto há dois meses. “O meu marido está cá há cinco anos, portanto eu vim para cá sozinha, com a minha filha e filho. A minha filha nasceu no Nepal, mas o meu filho já nasceu cá”, explica, em inglês.

Para a família de Prariva, ao início a língua foi uma barreira, mas agora sentem-se bem recebidos. “Este projeto mudou a nossa vida e a nossa rotina diária. Porque todos trabalhamos em agricultura neste momento, basicamente. Com este projeto, podemos fazer cursos para aprender português ou outras competências como costura. Talvez mais tarde tenhamos mais oportunidades de trabalho, e formas de conectar com pessoas”. E acrescenta: “ainda é difícil, mas estamos a ir muito bem. ‘It’s all really good feelings’ [Tudo bons sentimentos]”.

É realmente bom o ambiente que se sente nesta casa, onde todos parecem ter um papel a desempenhar. Ao longo dos próximos três anos, serão dinamizadas oficinas – como línguas, costura, cozinha ou instrumentos musicais – abertas a toda a população, conforme as necessidades e vontades que forem surgindo.

“Acreditamos que a arte não só combate, como também nutre e produz momentos extraordinários dentro de uma vida ordinária, uma vida banal”, explica Madalena Victorino. “E é essa energia que queremos construir aqui, para que a Casa Novo Bowing seja uma casa de extrema felicidade, dentro de todas as problemáticas que existem nas vidas das pessoas”.

A arte como língua abstrata e universal

Outro dos grandes eixos do projeto Novo Bowing é o trabalho nas escolas, onde há cada vez mais alunos migrantes que não falam português nem inglês. Durante a tarde, no mesmo dia, assistimos a uma aula de Ciências do 9º ano sobre o sistema cardiovascular, em que duas bailarinas (Susana e Carolina) foram traduzindo a matéria dada pela professora através da dança, desenhando com o corpo conceitos como “válvula”, “sangue” ou “artéria”.

Este é um eixo muito experimental e desafiador, mas “o seu efeito é imediato”, dizem as bailarinas. O uso de expressões artísticas como a dança ou a música numa sala de aula que mistura culturas tão diferentes permite encontrar uma língua que “apesar de abstrata, é muito universal”.

Gurpreet Singh, natural da Índia, integra a equipa de direção do Novo Bowing, juntamente com Madalena e Alexandra Neves Silva. Faz “um pouco de tudo”, mas é sobretudo nas escolas de Vila Nova de Milfontes, São Teotónio e Odemira que tem tido mais impacto, fazendo a ponte com os estudantes que, de outra forma, não entenderiam o conteúdo das aulas, sentindo-se sozinhos e isolados. “Eles ficam muito contentes quando vamos lá, sentem-se mais seguros connosco”, diz Gurpreet.

Ver para crer, ou acreditar para ver

Rajendra Shiwakoti, que veio do Nepal há mais de cinco anos, trabalha como tradutor e mediador na Câmara de Odemira, além de ser também um músico exímio. Acompanha o projeto Bowing desde o início (em 2021), e acredita que este é “muito importante e necessário”. “Há alguns desafios, porque as pessoas não aceitaram facilmente. Mas quando veem o que estamos a fazer aqui, acreditam e vêm!”.

É isso que verificamos quando as portas abrem finalmente e a Casa se enche de público curioso. Entre visitas, concertos, danças e degustações gastronómicas, há uma intensa energia de partilha e harmonia no ar.

“Acreditamos que aqui, neste projeto, podemos ensaiar uma vida melhor em conjunto”, explica a coordenadora, “atravessando a vida dos mais novos nas escolas, onde imensa incompreensão existe, na vida do trabalho, onde há imensas dificuldades, e na vida pessoal e humana, que vai possivelmente produzir uma vida social mais feliz”. 

Cedida pela Câmara Municipal de Odemira durante pelo menos um ano, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, a Casa Novo Bowing será, certamente, uma casa “cheia de vida”, nas mãos de Madalena Victorino e de todas as pessoas que habitarem as suas vastas paredes.

Relacionados

Definição de Cookies

Definição de Cookies

Este website usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. Podendo também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.