“Os jovens são uma esperança que tem de ser despertada”

Filipa Dias, investigadora da Ipsos Apeme e autora do estudo Clima de Mudança, faz, nesta entrevista, uma radiografia da comunidade e mostra alguns caminhos para uma vida conjunta mais sustentável.
28 out 2025 9 min

Encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian à Ipsos APEME, o estudo Clima de Mudança: perceções sobre os desafios ambientais em Portugal procurou, entre outras questões, compreender as atitudes dos cidadãos perante os temas ambientais: Quais são as suas preocupações? O que os mobiliza, em termos de sustentabilidade? Que mitos subsistem? O que pode cada um fazer por um mundo mais sustentável? Nesta entrevista, a autora do estudo, Filipa Dias, deixa uma série de ideias. 

O que a surpreendeu mais neste estudo?  

Surpresa – ou, diria, uma certa frustração – foi sentir que, apesar de se falar de sustentabilidade há tanto tempo, ainda parece que estamos numa fase inicial. Quando perguntámos aos portugueses que comportamentos individuais, na sua perspetiva, têm mais impacto no combate às alterações climáticas, o mais referido é “fazer a separação de lixo e reciclar”, quando sabemos que muito mais relevante é a transição energética e a transformação na mobilidade. Surpreende que a viragem necessária tarde tanto. 

Está a falar de rotinas? 

Sim. Falta-nos ativar uma comunidade que seja transformadora na adoção de novas rotinas, mais sustentáveis. 

71% dos inquiridos considera que é urgente agir, mas apenas 16% vê as alterações climáticas como uma prioridade. Como é que isto se explica?  

As pessoas estão preocupadas com a saúde, com o custo de vida, que são necessidades básicas. Apesar da sustentabilidade ser importante, há temas muito mais urgentes nas suas vidas. Pensa-se ao dia, semana, mês, um prazo demasiado curto para a sustentabilidade. 

Numa das entrevistas, um jovem dizia: “eu sei que há um problema de sustentabilidade, mas neste momento preocupa-me mais uma pessoa que não tem condições para sobreviver. Quando vier o colapso do ambiente, vamos todos!” Ou seja, as questões sociais e ambientais não podem ser vistas como duas dimensões separadas…  

A comunidade também não é homogénea. Tem grupos distintos, que exigem respostas diferentes. 

De acordo. Com o propósito comum de sustentabilidade, é um desafio entender segmentos relevantes para poder mobilizar uma comunidade naturalmente diversa.  

É uma conquista a consciencialização para os temas ambientais. O estudo identifica uma minoria – 8% – que se assume completamente desligada do assunto. São os “desinteressados”. 

Depois há o resto da população: um quarto é “entusiasta”, sabem que há muito por fazer, mas relevam aquilo que já está a ser feito. São mais otimistas por natureza. Estão tendencialmente abertos a experimentar e a aderir a novos desafios de como viver no seu dia a dia de forma mais respeitadora para com o ambiente.  

Há cerca de outro quarto da população – 27% – que, embora comprometido com o ambiente, não reconhece o esforço coletivo, sentindo uma certa frustração. São os “esforçados”. É preciso dar-lhes voz, reconhecer e valorizar o seu esforço, como estímulo para outros. 

Depois, identificamos uma parte da sociedade menos comprometida. Nesta categoria temos, por um lado, os “recetivos” – 25% – que fazem algumas coisas, mesmo que não de forma consistente. É preciso, acima de tudo, captar a sua atenção e inspirá-los, porque apesar de terem uma certa abertura para estes temas, não tendem a procurar informação por sua iniciativa. Por outro lado, temos os “ocupados” – 15% –, assoberbados no seu dia a dia, que tendem a achar que o que fazem já é muito. É importante “captá-los” no seu tempo livre e propor soluções sustentáveis que, antes de mais, sejam boas para eles.

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O “nós” é quem?  

São as entidades com poder para fazer e ser exemplo, em proximidade: as autarquias, as escolas e espaços de cultura, as empresas e serviços relevantes, todas as que se cruzam com a rotina dos cidadãos, capazes de criar novos contextos, mais sustentáveis, e promover novos hábitos. 

Mas para que esse processo seja virtuoso, é importante que se garantam três fatores essenciais. Primeiro, a consistência na experiência desses novos comportamentos sustentáveis – a experiência tem de ser positiva e benéfica do ponto de vista da pessoa, agregado ou comunidade. Pensando por exemplo na mobilidade, se se quer estimular a adoção de transportes coletivos, importa garantir que a infraestrutura e o serviço sejam confiáveis, ou seja, positivamente consistentes – pontualidade, conforto, rapidez, por exemplo –, relevando-se como opção ao transporte individual. Depois, importa garantir a escala: aquilo que faço no meu bairro deve poder ser feito noutros espaços que habito, nomeadamente onde passo férias. Por fim, tenho de perceber que, com essas rotinas, há qualquer coisa que está a mudar. Ao constatar o impacto do que faço, será mais fácil procurar ou estar aberta a prosseguir na mudança, adicionando novos comportamentos. 

E os jovens, nesta equação?  

São uma esperança que tem de ser despertada. 

Quando lhes perguntamos aquilo que mais os preocupa, surge o desemprego, o custo de vida, a inflação. Temos uma camada jovem que se insurge porque não consegue aceder a casa, porque tem medo de não conseguir emprego ou, pior, conseguir emprego mas não conseguir fazer face às suas necessidades básicas. 

Enquanto comunidade, temos a responsabilidade de criar bairros, infraestruturas e serviços em que os jovens se consigam rever e sentir parte integrante.  

Que mitos surgiram neste estudo e como os podemos desconstruir?  

Ainda é muito presente que o caminho da transição para a sustentabilidade é oneroso. Importa desmontar esse mito adotando o caminho da redução, reutilização ou circularidade.  

Por exemplo, no contexto europeu, destacamo-nos pelo peso do carro como principal meio de transporte no dia a dia. E perceciona-se que a substituição para um carro elétrico é onerosa. Contudo, mais do que trocar de carro, importa introduzir o transporte coletivo na equação: o carro dá autonomia, mas também traz o stress do trânsito, a dificuldade de estacionar, o custo com o estacionamento e do combustível. É preciso criar e validar novas métricas de valor: poder ir descansado no transporte público, poder antecipar o tempo da deslocação, não ficar limitado pelo custo de estacionamento ou onde ficou o carro estacionado… 

Também há o preconceito de que “o que eu faço não vai fazer a diferença”. 

Sim. Podemos estar a caminhar para uma “banalização do ambiente” se não formos capazes de demonstrar o impacto positivo das mudanças individuais e coletivas promovidas e necessárias para responder aos desafios das alterações climáticas. Como dar a volta? Mais uma vez, as entidades com poder de criar infraestruturas e de implementar políticas e medidas em proximidade podem viabilizar esse caminho sustentável e torná-lo acessível e relevante. 

O conceito de pegada ecológica individual pode ser bloqueador ao pressionar cada um a ser construtor e caminhante de um percurso que é complexo de desbravar. Temos de reforçar o significado e a força da comunidade, neste propósito de transformação que é benéfico para todos. 

Como se torna isto possível?  

Temos de pôr os “entusiastas” nos pontos focais de mudança, a liderar pelo exemplo. 

A sustentabilidade é um caminho, um processo que se faz e nunca vai ser totalmente perfeito. Agora, o exemplo público também não se faz só com uma entidade. Cada comunidade tem de agregar as entidades com capacidade de criar consistência e escala para “conquistar” as pessoas e, nesse esforço comunitário, validar e demonstrar o impacto positivo de uma nova realidade. 

Quer dar sugestões? 

A cidade de Münster, na Alemanha, abraçou o desafio da transição energética para chegar a 2030 com total independência dos combustíveis fósseis. Investiram numa estratégia comunitária, desafiando a população a fazer uma transformação conjunta, criando incentivos para as pessoas se organizarem em cooperativas para comprar as infraestruturas de energia eólica. É um investimento grande que um indivíduo não consegue fazer sozinho. As pessoas tornaram-se sócias desse investimento, tendo acesso a energia para consumo próprio e a uma receita pela venda da restante energia. É inspirador porque o indivíduo, na sua escala, vê a força da comunidade. 

Outro exemplo: em Paris, uma estação ferroviária abandonada foi transformada num espaço aberto ao público onde se criaram hortas urbanas que abasteciam a cafetaria, se construíram oficinas para as pessoas recuperarem eletrodomésticos, onde se ofereceram workshops, ciclos de cinema e outras atividades. A existência destes espaços consegue ser inspiradora para um “recetivo” e apelativa para um “ocupado” que vai àquele café e “tropeça” num estilo de vida mais sustentável. 

Noutro nível, há uns anos, o presidente da Associação Nacional de Ciclistas disse que a grande maioria das crianças nos espaços urbanos não sabiam andar de bicicleta. Se queremos incentivar o uso da bicicleta, há que investir nessa pedagogia. E se introduzirmos a bicicleta nas aulas de educação física nas escolas? E se criarmos incentivos para os jovens que atingem a maioridade poderem ter bicicletas elétricas, valorizando este meio de transporte em alternativa à moto ou ao carro?

© DR

Há exemplos com provas dadas…  

Também já há bons exemplos em Portugal que apontam caminho. 

A estratégia de sensibilização da Associação Rio Neiva, em Esposende, passou pela valorização do rio como fonte de vivência e de boas experiências na comunidade, particularmente as atividades desportivas. Ao crescerem usando o rio, os miúdos interiorizam a importância de o proteger, tornando-se “guardiões” em causa própria. É um exemplo de que a transformação não se faz por decreto mas sendo exemplo.  

A Alegria de Viver, que procura dar resposta ao isolamento social das pessoas mais velhas, criou, em Belém, uma “Casa Alegria” aberta à comunidade. A existência desse espaço promoveu o encontro de pessoas vizinhas e criaram-se naturalmente grupos que, em autonomia, estabeleceram rotinas – encontros para jogar sueca, almoços de grupo. Um dos testemunhos partilhado é muito inspirador: “não podia convidar as pessoas para virem à minha casa, mas posso organizar um almoço na Casa da Alegria”. Podemos fazer o exercício com a questão ambiental no centro. 

Estes exemplos captam os fatores que o estudo destaca como essenciais para envolver, de forma mais eficiente, os cidadãos: a proximidade, uma abordagem otimista e a experiência da realidade que se quer explicar ou promover. 

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