“Em Portugal, a participação pública é muito pobre”

A Fundação Gulbenkian criou uma iniciativa que apoia 11 projetos de promoção da participação na ação climática, em todo o país. O de Alcanena envolve crianças e jovens, mas também pais e avós, na expectativa de mudar mentalidades.
30 jun 2025 7 min

“Mãos no ar! Mãos no ar!” Nuno Barroso não é nem se assemelha a um polícia corajoso perante criminosos em fragrante delito. Engenheiro do Ambiente com uma vida feita à volta de atividades artísticas, cabia-lhe a ele, naquela manhã, animar a sessão com alunos do 5.º ano da Escola Básica Dr. Anastácio Gonçalves, em Alcanena. 

Com a sua ordem, procurava acalmar uma turma de adolescentes demasiado entusiasmados com a atividade. Tudo tinha, no entanto, começado com grande tranquilidade. Em sessões anteriores, já tinham falado sobre a formação da Terra e o aparecimento dos primeiros seres vivos. Agora, os alunos eram levados a criar uma maquete de um pedaço de Terra que Nuno haveria de moldar até que, aos poucos, tudo se assemelhasse a um território familiar – qualquer coisa que os fizesse pensar no rio Alviela, ali bem perto. Começaram com uma caixa vazia, que encheram de areia. Depois, foram moldando a paisagem (tal como a erosão tem feito com o nosso planeta) e juntando a água que haveria de fazer o seu curso até se assemelhar a um rio que acabaria por desaguar no mar. 

“A água é super inteligente. Encontra sempre o seu caminho. Chama-se a isto inteligência líquida”, diz Nuno. Tal como a criação da Terra demorou vários milhares de milhões de anos, também este processo demoraria o seu tempo. “Enquanto se espera pela passagem de uns mil milhões de anos”, e pela chegada da água ao mar, Nuno desafia a turma a ver um filme. Intitulado Diatomáceas e Infomicetos, Parte II (nome que poucos alunos conseguem reproduzir), o filme era uma sucessão de desenhos dos miúdos e remetia para a formação de microrganismos no planeta (coisa que, de modo imaginário, estava a acontecer na tal caixa onde os anos passavam ).  

“E onde é que se deitam, quando forem à praia?” 

Os alunos gostaram do filme, mas o regresso à caixa de areia é que animava as hostes. Nuno começa por distribuir plantas e dinossauros pelo terreno, que os alunos recolocaram à sua maneira. Depois faz uma pausa e com alguma teatralidade… lança o meteoro que mataria todos os dinossauros! Os ânimos exaltam-se. O terreno (com um rio já bem formado) começa a ser ocupado por crocodilos, elefantes, ursos, polvos, enguias, e homens que, como na vida real, se tornariam sedentários e criariam hortas dependentes de açudes e barragens.  

Nuno põe os alunos a dizer porque gostam do rio e porque acham o rio importante: “para brincar”, “nadar”, “criar energia”, “para nos alimentar”. A areia depressa se enche de entraves. Aqui e ali, a enguia deixa de poder navegar rio acima. Aqui e ali, a água deixa de passar e de levar vida e sedimentos até à foz. A animação cresce. Os alunos mexem no terreno, nas enguias, lançam mergulhadores para o rio e é nesse momento que Nuno decide acalmar os ânimos com um aparatoso “Mãos no ar!”. Era preciso recentrar atenções para mostrar que, tal como na caixa de areia, a confusão também estava montada no planeta. Era preciso pensar no que se poderia seguir, no futuro. “E se a areia ficar presa? E se deixar de chegar à costa da Caparica? Aí… onde é que se deitam, quando forem à praia?”  

A mensagem, dita, mostrada e repetida, estava passada. Nuno, do coletivo Guarda Rios, a trabalhar num projeto da GEOTA apoiado pela Fundação Gulbenkian, contava que estes alunos passassem a mensagem aos pais e aos avós. Que lhes contassem como o homem foi moldando a paisagem para seu proveito mas que neste momento “muitas destas barreiras já não têm função. Já não moem farinha. Já não servem para nada”. E que deixá-las no rio só traria complicações futuras. 

A dificuldade de passar à ação 

Esta sessão enquadra-se no projeto “Restauro Fluvial como forma de Ação Climática – Um processo participativo na Bacia do Alviela”. Foi pensado pela associação GEOTA como meio de mudar mentalidade. Lígia Figueiredo, daquela organização, explica que há muita resistência em mudar as coisas. A memória dos espaços, o uso que se faz deles – do rio, neste caso – é o maior dos entraves, sobretudo para a população mais velha . Mas a verdade é que há coisas que têm de mudar. Como bem se viu na grande caixa de areia, deixar intactos açudes que já não servem para nada não trazem nada de bom a ninguém. Retirá-los, deixar o rio fluir outra vez, só traria benefícios para a biodiversidade. E seria uma forma de mitigar os efeitos das alterações climáticas Mas como convencer a população – sobretudo a mais velha – a mudar as coisas?  

Para a população, conta Lígia, o argumento – fluidez do rio, alterações climáticas –  até era pertinente, mas não o suficiente para evitar protestos. Não era propriamente uma preocupação, garante. A certo ponto, perceberam que havia um argumento que batia forte, lá dentro: “então e os seus netos?”. Alto e pára o baile. À semelhança das “mãos no ar!”, a atenção estava captada. Foi então necessário mudar a forma de trabalhar. Seria necessário envolver todos, a começar pelas crianças.  

A GEOTA criou então uma série de parcerias e, em conjunto, começaram a fazer sessões nas escolas – ao todo, estão envolvidos 120 alunos das escolas básicas de Alcanena e de Minde – e a prever outras atividades, entre as quais um walkingfest e visitas ao rio, em família. 

Passadas as sessões de desenho que se transformam num filme, as conversas sobre a formação da Terra e o aparecimento dos primeiros seres vivos e as brincadeiras nas caixas de areia, o projeto passou para outra fase. A das conversas entre filhos e netos com os mais velhos. Cada miúdo ficou incumbido de falar com os avós (ou pessoas mais velhas) sobre o rio e de partilhar o resultado. A avó de Alice, por exemplo, contou-lhe como ia ao rio todas as quintas-feiras de Ascensão, de burro, com os pais e os oito irmãos . Era todo um programa. Esta avó Adília também contou à neta como “não havia passadiços, Centro Ciência Viva, parques de estacionamento e casas de banho. Está bem melhor agora”. Já o pai de Maria Inês acha que “não devia haver tanta poluição no rio” onde vão todos os verões em família. E Maria Inês já diz que “não são precisos tantos açudes e barragens. Precisamos de algumas, como a de Castelo de Bode, mas açudes já não fazem tanta falta.” Devagar, devagarinho, o objetivo do projeto parece estar a ser cumprido. 

O caminho começa a ser feito, com todos. “Em Portugal, a participação pública é muito pobre. Não basta ouvir ou sensibilizar. É preciso envolver as pessoas, pô-las a fazer parte do processo e da decisão”, explica Lígia Figueiredo. O apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, diz, “permitiu-nos dar esse passo” e, através da relação da população mais idosas com as crianças, “efetivámos ações concretas no âmbito da mitigação climática.” 

Este é um dos 11 projetos apoiados pela Fundação Calouste Gulbenkian no âmbito da iniciativa que procura promover a participação na ação climática.  

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