“Quando estamos a cantar, esquecemos as coisas más da nossa vida”

O projeto Music&Motherhood, apoiado pela Fundação Gulbenkian, centra-se na prevenção da depressão pós-parto e na promoção do bem-estar. Os resultados têm surpreendido.
13 nov 2025 7 min

Segunda-feira não costuma ser um dia feliz. I hate Mondays (Odeio segundas-feiras, numa tradução livre para português) deve ser a frase mais famosa de Garfield, o gato cor de laranja, preguiçoso e sarcástico, lido ao longo de décadas em jornais do mundo inteiro. Mas a aversão às segundas-feiras extravasa largamente as tiras de banda desenhada criadas por Jim Davis em 1978. A canção dos The Boomtown Rats I don’t like Mondays (Não gosto de segundas-feiras) será, porventura, a mais famosa, mas não a única que refere esse sentimento de desalento, frustração, tristeza que caracteriza o fim do fim-de-semana e o inevitável regresso à rotina. 

Surpreendentemente, na sede da Ajuda de Mãe, em Alcântara, a segunda-feira parece ser o dia mais esperado da semana. É o dia de massagem aos bebés, de manhã, e de música e canto, à tarde!  

As sessões de música e canto surgem como uma forma de apoiar algumas das mães acompanhadas pela instituição, em situação ou em risco de depressão pós-parto. O projeto (de seu nome Music&Motherhood) não é novo, mas só chegou a Portugal em outubro de 2024. Voltaremos a esta história mais à frente. Por ora, falemos da sessão a que fomos assistir. 

No primeiro andar de um edifício isolado, em Alcântara, Lisboa, dez mães e os seus bebés esperavam pelo início da sessão. Umas aguardavam, de olhos no vazio… mas a maioria conversava enquanto dava de mamar, mudava uma fralda ou embalava o seu recém-nascido. Ninguém diria que para ali estarem tinham de ter sido sinalizadas (por uma unidade de saúde, um serviço social, uma junta de freguesia, pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, ou no seio da própria instituição) por se encontrarem em situação de vulnerabilidade – fossem adolescentes, migrantes, monoparentais, sofressem de isolamento e/ou de vulnerabilidade socioeconómica –, em risco ou em plena depressão pós-parto.  Várias referem solidão e sobrecarga, algumas estão desempregadas e sem saber a quem recorrer. 

Ana Lídia e Felícia, líderes de canto, fariam a diferença, naquela hora. Em conjunto, respirariam até se sentirem bem, lá no fundo, aproveitariam aquele tempo para se abstrair da vida e relaxar ao espreguiçar, rodar o pescoço, e se forçariam a sentir os ombros e a deixar sair a pressão. Não tardariam a baixar as guardas, a deixar sair o som e a cantar, juntas. 

A sessão é também um momento de relaxamento e de introspeção © Márcia Lessa

Passada a Canção do olá, passaram para outra, “para embalar os bebés”, explicava Ana Lídia, enquanto dedilhava na guitarra. “Às vezes nós também precisamos de nos embalar. Às vezes também precisamos de colinho, não é?” Subtilmente, estava introduzido o tema. E daí passariam para uma música mais alegre, aberta ao improviso, e assim por diante, com pequenos apontamentos em que se falaria discretamente de solidão e de gratidão, sobre pôr o telefone atrás das costas, tal como se podem pôr os problemas atrás das costas também. Na última ronda, cantaram juntas, com cada uma a referir como sentiu a sessão – “muito boa”, “feliz”, “maravilhosa”, “divertida”, “alegre”, “espetacular”… tudo sentimentos bons para levarem para casa. Uma mãe aproveita a melodia que ecoa e ainda diz “Porque é que não demora [mais]?” e outra responde, melancolicamente, “Porque não podemos dormir aqui”. 

O estigma da depressão pós-parto 

No fim da sessão, as mães voltariam para casa – para a casa, ou o quarto onde cada uma está a ficar. Com 41 anos, Beharina considera-se “a mãe do grupo”. Vinda da Guiné-Bissau há oito anos, divide os dias entre o apoio à mãe, doente, e Alwedim, de oito meses. “Quando o meu patrão descobriu que estava grávida, despediu-me”, conta. Desempregada, não consegue pagar a casa. E foi assim que, com o peso do mundo nas costas e um bebé no colo, foi à Câmara de Odivelas pedir ajuda. Foi lá que a encaminharam para a Ajuda de Mãe, onde além do apoio à criança (roupa, brinquedos), receberia formação para facilitar a procura de um novo emprego. O curso contempla aulas de português, de cidadania, comportamento social, gestão e economia doméstica, lavandaria e engomadoria, cuidados a idosos, a crianças, cozinha, entre outras matérias. E acaba com um estágio. 

O programa de música e canto foi introduzido por proposta da Escola Nacional de Saúde Pública, que está a adaptar à realidade portuguesa um projeto lançado em 2015 no Reino Unido e se tem expandido por outros países, com o apoio da Organização Mundial de Saúde. 

Beharia, mãe solteira, tem a cargo a mãe, doente, e um bebé de colo © Márcia Lessa

As sessões têm ajudado muito Beharina. “É muito divertido. Faz-me animar e extrair muitas coisas da minha cabeça”, conta. As sessões também têm ajudado Isabel, com 32 anos e uma filha, Malia, de quatro meses. Chegou de Cabo Verde há seis meses, de férias, mas acabou internada com problemas com a gravidez e teve de cá ficar, longe dos seus três rapazes (de 10, 6 e 3). Conta como “tinha muitas coisas preocupantes na cabeça… se não temos quem nos apoie, há gente que entra em depressão. Mas quando estamos a cantar, esquecemos as coisas más da nossa vida”. 

Isabel veio a Portugal de férias e já não voltou. Em Cabo Verde, tem três filhos menores © Márcia Lessa

O estigma em relação à saúde mental em geral, e à depressão pós-parto em particular, continua a ser uma barreira à procura de ajuda, em Portugal e noutros países. “A adoção de intervenções baseadas nas artes, implementadas em contextos comunitários, pode mitigar essa barreira, oferecendo uma oportunidade para melhorar a saúde mental e o bem-estar, através de uma linguagem que normaliza o apoio recebido”, explica Sónia Dias, diretora da Escola Nacional de Saúde Pública e investigadora principal do projeto Music&Motherhood em Portugal, apoiado pela Fundação Gulbenkian, no âmbito da iniciativa Growing Minds. Esta intervenção, prossegue, “visa prevenir e reduzir os sintomas de depressão pós-parto e melhorar o vínculo entre a mãe e o bebé. Complementa, quando disponíveis, os cuidados clínicos e terapêuticos, oferecendo uma via adicional de expressão e bem-estar. Esta intervenção aumenta o sentimento de pertença, promove redes de suporte, diminui o estigma e as barreiras de acesso; é uma abordagem da questão, em paz e em grupo, num espaço seguro, com o bebé.” 

Envolver os profissionais de saúde sem os sobrecarregar 

Este é o terceiro grupo a passar por este tipo de sessões. Antes dele, já duas dezenas de mães tinham passado, entre maio e julho, por esta experiência noutras organizações da sociedade civil. Segundo resultados preliminares, explica Maria João Marques, coordenadora do programa – “observou-se uma diminuição média de 49% nos sintomas no final do programa, sendo que sete em cada dez mulheres deixaram de apresentar valores compatíveis com depressão pós-parto. As mães reportaram ainda melhorias no vínculo materno-infantil, aumento da autoestima, reforço do sentido de pertença e maior suporte social, entre outros resultados positivos registados”. 

A sessão é um momento de alegria e deixa uma semente e ferramentas para a construção de uma vida melhor © Márcia Lessa

 “Embora a depressão pós-parto possa afetar mulheres de todos os contextos, a evidência mostra que, em situações de maior vulnerabilidade social ou económica, as necessidades de apoio emocional e social tendem a ser mais acentuadas”, refere.  A partir de janeiro, prevê-se que o projeto conte com o envolvimento de outros locais de implementação, nomeadamente de unidades locais de saúde da Área Metropolitana de Lisboa. É importante, diz ainda Maria João Marques, que a intervenção seja feita em contextos comunitários porque ao estar enraizada na comunidade, a intervenção contribui para reduzir a pressão sobre os cuidados de saúde e para desenvolver respostas próximas, eficazes, e custo-efetivas de apoio às famílias”.  

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