14 livros para (re)pensar e (re)conhecer os nossos mundos

Uma seleção de Edições Gulbenkian e títulos nacionais e internacionais, da botânica à cultura contemporânea.
12 dez 2025 16 min

O que ler quando queremos perceber o mundo complexo em que vivemos? Para esta difícil tarefa não existe uma resposta certa, apenas vários caminhos possíveis para explorar aquilo que nos inquieta, nos desafia ou nos pede atenção.

Por isso, esta seleção de livros disponíveis nas nossas lojas – de publicações próprias a edições nacionais e internacionais – reúne títulos que dialogam com a programação da Gulbenkian e com os temas que atravessam o trabalho que desenvolvemos: da nossa relação com o mundo natural às transformações políticas e culturais, da criação artística às formas como imaginamos o futuro.

Este ano, a Gulbenkian dá um destaque especial ao Brasil e à sua relação com Portugal, trazendo um conjunto de publicações – para além do catálogo da exposição complexo brasil e do novo número da Colóquio – que ajudam a (re)conhecer um país plural, feito de muitas histórias e identidades.

Recomendamos 14 livros para (re)pensar os nossos mundos próximos e longínquos, descobrir histórias que faltavam, revisitar ideias conhecidas e abrir espaço a novas formas de ver e compreender o que nos rodeia.

 

Arte participativa

corpoemcadeia – dança, prisão e gestalt, Catarina Câmara

Resultado de quatro anos de trabalho no Estabelecimento Prisional do Linhó, com o apoio da Fundação Gulbenkian, corpoemcadeia documenta um projeto que une dança e psicoterapia Gestalt para pensar a liberdade a partir do lugar onde ela parece impossível.

Catarina Câmara criou um processo artístico que trabalha o movimento como forma de expressão e de encontro: dançar torna-se um modo de explorar emoções, experimentar confiança e desafiar padrões corporais associados à prisão – um espaço onde o corpo é, por definição, limitado.

Neste livro, que reúne textos, reflexões e um vasto conjunto de imagens, a autora explora a prisão como microcosmo social e como espaço onde gestos de cuidado, humor e vulnerabilidade surgem de formas inesperadas.

corpoemcadeia é, assim, um ensaio sobre a arte como transformação, sobre os limites e as potências do corpo, e sobre a forma como o movimento pode abrir fissuras de liberdade mesmo nos contextos mais restritivos.


 

Cultura Contemporânea

Teoria King Kong, Virginie Despentes

Publicado em 2006, Teoria King Kong tornou-se um dos textos mais discutidos de Virginie Despentes, onde a autora revisita episódios marcantes da sua vida – a violação na adolescência, o trabalho sexual, a receção polémica das suas obras – para interrogar as construções sociais em torno do género, do desejo e da violência.

Com uma escrita direta e mordaz, Despentes recusa os ideais convencionais de feminilidade e expõe os mecanismos que condicionam o corpo feminino na sociedade contemporânea. “Escrevo da terra das feias, para as feias”, afirma na abertura do livro, declarando o ponto de vista a partir do qual questiona discursos hegemónicos sobre sexualidade e poder.

Entre o ensaio e a autobiografia, este livro propõe uma reflexão crítica que continua a suscitar debate, oferecendo novas perspetivas sobre as tensões entre intimidade, política e representação.


 

Clássico

Reflexões sobre a Revolução em França, Edmund Burke

Publicado em 1790, Reflexões sobre a Revolução em França tornou-se um dos textos políticos mais influentes do século XVIII. Nele, Edmund Burke, então parlamentar Whig, distingue claramente a mudança repentina da reforma sustentada, argumentando que as instituições que serviram bem uma sociedade devem ser preservadas e aperfeiçoadas ao longo do tempo.

Crítico do impulso revolucionário que via em França, demasiado rápido e assente em princípios teóricos desligados da realidade social, Burke alerta para os riscos de transformar uma ordem política sem considerar a experiência histórica e a complexidade das relações humanas: para ele, inovar não é o mesmo que reformar.

Reeditado recentemente na coleção de Textos Clássicos da Gulbenkian, é uma reflexão sobre tradição, progresso e responsabilidade política.


 

Fotografia

O Livro da Patrícia, David-Alexandre Guéniot

O Livro da Patrícia nasce de um projeto interrompido: a “história pessoal da fotografia” que Patrícia Almeida deixou por concluir quando morreu, em 2017. Mas o que poderia ter sido um manual tornou-se, nas mãos de David-Alexandre Guéniot, um livro sobre o que as imagens fazem, e desfazem, quando alguém desaparece.

A partir das notas, fragmentos, primeiras fotografias e referências que Patrícia tinha reunido, Guéniot constrói um ensaio visual que parte de uma questão colocada no momento da sua morte: que fotografia escolher para o velório? O livro parte da tarefa impossível de condensar uma vida numa imagem para revisitar o projeto inacabado, refletindo sobre a forma como fotografias constroem identidades, preservam ausências e convocam memórias que persistem para lá de quem as produziu.


 

Catálogo

Carlos Bunga. Habitar a Contradição

Esta monografia acompanha a exposição homónima no CAM e oferece uma visão aprofundada da prática de Carlos Bunga. O artista transforma materiais provisórios, como cartão, tinta e fita adesiva, em arquiteturas efémeras que se tornam meditações sobre a ausência, a reinvenção, e a complexidade de manter em simultâneo múltiplas verdades, muitas vezes contraditórias.

O livro reúne vários ensaios inéditos, uma introdução do curador Rui Mateus Amaral e uma extensa secção com fotografas de instalações, performances e processos de montagem realizados entre 2019 e 2025. Inclui ainda DNA 2015–25, um conjunto de palavras-chave definido pelo artista, que funciona como porta de entrada para a poética do seu trabalho.


 

Cultura contemporânea

Raving, McKenzie Wark

Em Raving, a teórica australiana McKenzie Wark leva-nos ao coração da cena rave queer e trans de Nova Iorque, onde a pista de dança se torna vício, ritual, catarse e ato de resistência. Entre a autoficção e a autoteoria, escreve a partir da sua experiência pessoal enquanto mulher trans e raver, acompanhando uma comunidade que encontra na rave um espaço onde o tempo parece dobrar-se e suspender-se.

Mais do que um retrato de noites intermináveis, o livro propõe uma nova linguagem para pensar corpo, género, desejo e intimidade. Para Wark, raving é uma prática colaborativa que torna a vida mais suportável, ainda que por algumas horas, graças à entrega coletiva ao som, ao movimento e à criação de um “nós” temporário.

Apresentado recentemente em Portugal, este livro é uma leitura intensa sobre o que significa dançar – e existir – entre as ruínas.


 

Arquitetura

My Life as na Architect In Tokyo, Kengo Kuma

O arquiteto japonês Kengo Kuma, uma das figuras centrais da arquitetura contemporânea, mantém hoje uma relação especialmente próxima com Portugal: depois da premiada renovação do CAM, assinou também o projeto do Pavilhão de Portugal para a Expo 2025 Osaka.

Neste livro, regressa ao seu país natal para refletir, em 25 histórias, sobre as suas influências, a cultura japonesa e a forma como estas moldam os seus projetos numa das maiores metrópoles do mundo.

“Quando desenho um edifício, em qualquer cidade, acredito que o mundo é uma coleção de vilas, em vez de um grupo de nações”.


 

Design

Alda Rosa, Coleção D

Reconhecida como uma das pioneiras do design gráfico em Portugal, Alda Rosa (1936–2025) ajudou a definir a identidade visual de várias instituições culturais e marcou gerações com o seu estilo minimalista e modernista.

Formada em Lisboa e em Londres, integrou a primeira geração de designers portugueses com formação académica na área, desempenhando um papel crucial nas primeiras exposições de design português na década de 1970.

Este livro revisita mais de 50 anos do seu trabalho, revelando uma criativa que explorou diferentes linguagens, do construtivismo ao pós-modernismo. Faz parte da coleção “D”, editada pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda, dedicada a designers portugueses de várias gerações e disciplinas.


 

Botânica

Flora do Jardim Gulbenkian

Este guia reúne 275 espécies que habitam o Jardim Gulbenkian – um conjunto de herbáceas, arbustos e árvores que combina espécies autóctones com plantas ornamentais vindas de várias geografias. Juntas, formam um oásis de biodiversidade no coração de Lisboa, essencial para a riqueza ecológica da cidade.

Resultado de décadas de observação e registo, este novo livro apresenta cada planta ao longo do seu ciclo anual, com descrições e fotografias que ajudam a identificar as espécies e a compreender o modo como se relacionam entre si.

Integrado na coleção de guias do Jardim Gulbenkian, este livro convida a olhar o Jardim como um microcosmo vivo, onde aves, insetos e outros animais encontram refúgio, e onde cada visitante pode descobrir, a seu ritmo, a diversidade que faz deste lugar uma ode à paisagem.


 

Catálogo

Natura Mirabilis. Arte e Natureza

Editado em parceria com a editora italiana Franco Maria Ricci, Natura Mirabilis é dedicado aos dois temas prediletos de Calouste Gulbenkian: Arte e Natureza.

A investigadora e escritora Susana Neves parte de doze peças do Museu – de épocas, geografias e tipologias diversas – para construir um percurso que cruza arte, ciência e história. A estas leituras juntam-se ensaios de conservadores do Museu e de outros colaboradores, ampliando o diálogo entre as obras e o mundo natural.

A publicação justapõe fotografias do acervo com paisagens, evocando a relação singular entre o Museu e o Jardim Gulbenkian e homenageando os ideais do Colecionador. O livro convida a refletir sobre a forma como a natureza inspira a criação artística e sobre como a arte, por sua vez, transforma a nossa perceção e relação com nos rodeia.


 

Cultura Contemporânea

Ofendidinhos, Lucía Lijtmaer

Em Ofendidinhos, a escritora e jornalista Lucía Lijtmaer desmonta o novo léxico que domina o debate público – “politicamente correto”, “puritanismo”, “linchamento”, “ofendidinhos” – e mostra como estas palavras são usadas para deslegitimar o direito ao protesto e silenciar quem se opõe ao poder.

Com humor ácido e uma leitura atenta dos media e das redes sociais, Lijtmaer analisa casos recentes que revelam como a liberdade de expressão é instrumentalizada, não para proteger minorias ou opiniões divergentes, mas para reforçar agendas dominantes e penalizar quem exige mudanças.

Num ensaio breve mas incisivo, a autora expõe o truque: quem aponta o dedo ao “ofendidinho” não está a defender a liberdade, mas a desviar o debate e a atacar a possibilidade de ação coletiva. Ofendidinhos é, assim, um mapa claro das armadilhas discursivas do presente e um convite a reconhecer quem realmente ameaça a democracia.


 

Literatura e artes

Colóquio 220 – Este Brasil

Inteiramente dedicado à literatura e às artes do Brasil contemporâneo, este número da Colóquio reúne ensaios, inéditos, crítica e fotografia que traçam um vasto panorama cultural dos primeiros 25 anos do século XXI. Quase 70 autores, entre escritores, artistas e investigadores, contribuem para uma leitura plural e multifacetada do Brasil de hoje.

A revista semestral inclui ensaios que atravessam literatura, cinema, arquitetura, teatro e cultura contemporânea; uma secção de inéditos; crítica literária; e ainda um conjunto de séries fotográficas de Claudia Andujar, que percorrem a cidade e a floresta amazónica, revelando uma visão singular das relações entre paisagem natural, urbana e humana.


 

Poesia

A rosa do povo, Carlos Drummond de Andrade

Escrito entre 1943 e 1945, A rosa do povo nasceu num momento de convulsão mundial e de tensões internas no Brasil. Dos jornais que noticiavam a Segunda Guerra ao ambiente político do Estado Novo brasileiro de Getúlio Vargas, Drummond escreve a partir de um Rio de Janeiro em rápida transformação, onde a vida quotidiana se mistura com o espectro da catástrofe global.

“Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.”

Ao longo dos 55 poemas que compõem o livro, o autor confronta o medo, a violência e a incerteza do seu tempo, procurando ainda assim sinais de persistência e sobrevivência. Obra maior do modernismo brasileiro, A rosa do povo continua a dialogar com o presente: um retrato de tempos sombrios e daquilo que lhes resiste, apesar de tudo.

Uma das várias obras de autores brasileiros que trouxemos para a nossa loja por ocasião da exposição «Complexo Brasil».


 

Ensaio

Viagem do Recado: Música e Literatura, José Miguel Wisnik

O novo livro de José Miguel Wisnik – um dos mais importantes ensaístas brasileiros contemporâneos e curador da exposição «Complexo Brasil» – percorre as fronteiras porosas entre música e literatura, revelando como estas duas artes se iluminam mutuamente e ajudam a compreender a experiência cultural e política do Brasil.

Reunindo alguns dos seus ensaios mais marcantes, o livro revisita Villa-Lobos, Mário de Andrade, Tom Jobim, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, mostrando como cada autor encontra, à sua maneira, modos de pensar o país através do som.

Viagem do Recado é um mapa sensível das forças que moldaram a canção brasileira e da forma como ela continua a imaginar o Brasil.


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