CAM em Movimento. Ciclo de filmes «Artes da Fuga»

Noé Sendas, João Onofre, António Palolo

Ciclo de filmes apresentado no contentor de transporte de mercadorias, então instalado no Jardim Gulbenkian no âmbito do programa fora de portas designado «CAM em Movimento». Neste ciclo, a ideia de fuga, desvio ou deslocação está presente, de distintos modos, em cada um dos três filmes da Coleção do CAM nele reunidos.

O ciclo «Artes da Fuga» foi uma das iniciativas levadas a cabo pelo Centro de Arte Moderna (CAM) no âmbito de uma programação fora de portas que se concretizou entre outubro de 2021 e setembro 2024, sob a designação «CAM em Movimento». Através deste programa, o CAM procurou, durante o período de encerramento para obras de renovação e ampliação do seu edifício num projeto do arquiteto Kengo Kuma, ocupar equipamentos e espaços públicos com obras da coleção ou com criações diversas de artistas convidados.

Guiado pelo desejo de uma arte mais democrática e feita para as pessoas, este novo ciclo, gerado num momento de transição, sustentava o seu modelo na espontaneidade, reunindo uma programação capaz de suscitar a curiosidade do público, que se concretizava na invasão da paisagem comum e na tentativa de disrupção do quotidiano na cidade. Através de um exercício de experimentação e reflexão, pretendia-se questionar criticamente a instituição, explorando o leque de possibilidades, papéis e funções a adotar no presente e no futuro, em contexto local, nacional e internacional.  

Uma das principais iniciativas desde programa consistiu na instalação de um contentor de carga e transporte de mercadorias no jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, para servir de sala de projeção de diferentes ciclos de vídeos da Coleção do CAM.

O ciclo «Artes da Fuga» foi o último ciclo programado em 2023. A curadora, Leonor Nazaré, reforça a ideia de que a fuga, desvio ou deslocação está presente, de distintos modos, em cada um dos três filmes da Coleção do CAM nele reunidos: «No filme de Noé Sendas (Pursuit, Left Running, 2000), a fuga física é real. No trabalho de João Onofre (Instrumental Version, 2001), um desvio interpretativo de uma partitura musical já existente recria em absoluto a música a que corresponde. No filme de António Palolo (Metamorfose, c. 1968/1969) a reconfiguração da figura humana desloca-a da sua articulação habitual.» (Leonor Nazaré in CAM \ CAM em Movimento. Ciclo «Artes da Fuga», 2023)

No website deste evento podemos aceder às sinopses dos vídeos, escritas pela curadora desta iniciativa, e transcritas no final do presente texto.

Embora integrada na programação do «CAM em Movimento», amplamente divulgada pelos meios de comunicação social no momento da sua inauguração, a divulgação deste ciclo de vídeos não teve registos críticos na imprensa que a destacassem em particular. Para uma contextualização inicial do «CAM em Movimento» nos meios de comunicação social, destaque para a crítica de Luísa Santos na Contemporânea (Santos, Contemporânea, ed. 01-02-03, 2022), para as menções em artigos nas revistas Time Out (Moreira, Time Out, 19 out. 2021) e Umbigo (Duarte, Umbigo, 3 nov. 2021), e para as peças nos programas de rádio e de televisão Jornal da Noite (SIC, 15 out. 2021), As Horas Extraordinárias (RTP3, 29 out. 2021) e Portugal em Direto (RTP1, 3 nov. 2021).

Dada a natureza e condições do espaço de apresentação dos vídeos — um contentor marítimo de livre circulação — não se realizou relatório de exposição, questionário ao público — no que diz respeito ao grau de satisfação pela visita —, ou contagem do número de visitantes. 

 

Noé Sendas , Pursuit, Left Running, 2000
Loop / Col. CAM, Inv. IM25

Noé Sendas questiona as noções de identidade e de autoria, atribuindo outros sentidos a registos preexistentes. Assim acontece em Pursuit, Left Running (2000), em que o artista altera o ritmo original e utiliza o loop para prolongar indefinidamente um excerto do filme Drunken Angel, de Akira Kurosawa» (Helena Barranhas, abril de 2013).

Fugir, correndo sempre diante de uma ameaça, projeta-nos no mau sonho que a personagem criada por Noé Sendas está a viver e que todos podemos ter. Fica a angústia do esforço extenuante a que assistimos e da incompletude narrativa na qual somos suspensos.

 

João Onofre, Instrumental Version, 2001
6’53’’ / Col. CAM, Inv. IM18

Em Instrumental Version, o Coro da Universidade de Lisboa, dirigido pelo maestro José Robert, interpreta o tema The Robots, composto pelos Kraftwerk e integrado no álbum The Man Machine (1978). A banda germânica, considerada pioneira da música eletrónica europeia, explorou com eficácia sonoridades obtidas com o uso extensivo de sintetizadores, a par de uma imagem visual limpa e geminada com ecos de estética futurista. Sendo o próprio tema original uma teatralização musical sobre o argumento da máquina e da transformação do Homem em máquina, ele alimenta-se da repetição de sons eletronicamente programados e de uma gestualidade despojada de afetos, idealização de uma super-humanidade sem falhas ou indeterminações.

Com a recontextualização do tema para coro a capela, segundo o artista dá-se um retorno paradoxal da emoção, da tonalidade e do calor estritamente humanos através dos vocalizos, sem suporte textual, dos cantores. O arranjo da música sintetizada para as vozes humanas obriga-os a uma execução funcional e repetitiva, como se de música automaticamente programada se tratasse.

 

António Palolo, Metamorfose, c. 1968/1969
2’52’’ / Col. CAM, Inv. IM46

Palolo está interessado na investigação do corpo como meio de alargar a perceção da realidade. Neste filme de uma primeira fase do seu trabalho, apresenta diferentes possibilidades de reconfiguração da figura humana, numa posição iconoclasta através da qual questiona o carácter reprodutível e formatado das representações mediadas da realidade.

Aos corpos recortados sobrepõem-se formas geométricas. A relação destas primeiras experiências a preto e branco com a arte Pop, o movimento Dada e o Surrealismo é visível no recurso a imagens da cultura popular, mas também a formas geométricas que recordam o Cinema Anémico (1926) de Marcel Duchamp.


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Metamorfose

António Palolo (1946-2000)

Metamorfose, c. 1968/1969 / Inv. IM46

Instrumental Version

João Onofre (1976-)

Instrumental Version, 2001 / Inv. IM18

Pursuit, Left Running

Noé Sendas (1972-)

Pursuit, Left Running, 2000 / Inv. IM25


Material Gráfico


Fotografias


Páginas Web


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