CAM em Movimento. Gabriela Albergaria, «Can we go in a new direction?»

Programa «CAM em Movimento»

A instalação que Gabriela Albergaria concebeu para o contentor instalado na praça do Centro Comercial Fonte Nova, em Benfica, gerou surpresa e promoveu reflexões e ações em torno da preservação da natureza. Através da promoção de uma ampla variedade de atividades educativas, a mostra conseguiu atrair diferentes públicos.

Can we go in a new direction? [Podemos seguir numa outra direção?] foi o título da instalação site-specific, de natureza escultórica, criada por Gabriela Albergaria (Vale de Cambra, 1965) num contentor de carga marítima, no âmbito da programação «CAM em Movimento». O projeto teve curadoria de Rita Fabiana, coordenadora do programa «Live Arts», no qual esta iniciativa também surgiu integrada. Instalada na praça do Centro Comercial Fonte Nova (Benfica, Lisboa), entre 5 de março e 31 de julho de 2023, a instalação surpreendeu os habitantes e os transeuntes da zona, convidando-os a entrar e refletir sobre o excesso de consumismo, o compromisso com a sustentabilidade do planeta e estratégias para revertê-lo. Uma vasta oferta educativa, incluindo workshops, conversas e passeios, acompanhou o projeto e fortaleceu a sua componente comunitária e participativa.

Iniciado em 2021, o programa fora de portas «CAM em Movimento» envolveu a participação de vários criadores, e foi concebido para dar resposta às obras de renovação e ampliação do Centro de Arte Moderna (CAM), que mantiveram o edifício fechado por um longo período. Instalações site-specific e obras da coleção do CAM visitaram diferentes espaços urbanos da Área Metropolitana de Lisboa, através da ocupação temporária não só de polos museológicos mas, sobretudo, de locais inusitados de passagem, onde na maior parte dos casos foram instalados e adaptados contentores marítimos de carga, permitindo aos transeuntes a fruição inesperada de obras de arte no contexto da sua vivência diária.

A ligação de Gabriela Albergaria com o Centro de Arte Moderna remonta a 2002, ano em que passou a ser representada na coleção do CAM – que integra atualmente cinco obras da sua autoria, produzidas entre 2001 e 2012. A Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) já havia apresentado criações assinadas pela artista em cinco exposições coletivas, a primeira das quais em 2003. Albergaria estudou pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto e expõe regularmente desde 1999, recorrendo à fotografia, ao desenho, à instalação e à escultura. Tem produzido e exibido trabalhos em diversos países além de Portugal, como a Alemanha, a Colômbia, o Brasil, o Reino Unido e a Bélgica. As suas obras integram várias coleções privadas e públicas, tanto nacionais quanto internacionais.

Ao longo dos anos, nas suas criações, Gabriela Albergaria tem refletido sobre a relação do ser humano com a natureza, na tradição ocidental e ao longo dos séculos, enfatizando a necessidade de uma maior conexão entre ambos. Partindo da consciência de que os recursos naturais não são inesgotáveis e de que os seus ciclos necessitam de ser respeitados, a artista tem alertado para as consequências nefastas do consumo desenfreado de bens materiais supérfluos e para o desperdício que lhe está associado. Más práticas que, no contexto da contemporaneidade, têm vindo a comprometer cada vez mais, e de forma potencialmente irreversível, a sustentabilidade do planeta Terra e a sobrevivência das espécies que o habitam. Materializando estas reflexões nas suas obras, Albergaria tem privilegiado a regeneração, a recuperação e a reutilização de práticas, materiais e objetos, com enfoque em materiais naturalmente perecíveis.

Inspirado no conto After the End (2022), de Ben Okri, o título da intervenção artística, Can we go in a new direction? formula uma pergunta que, remetida diretamente ao espectador, surge na sequência das questões anteriormente formuladas. Gabriela Albergaria inquire sobre a possibilidade de, agindo consciente e coletivamente, o ser humano ainda estar a tempo de mudar o rumo da comprometedora destruição de ecossistemas, valorizando a natureza e reaprendendo ou reinventando outros modos de estar e de fazer.

A madeira, recuperada e reciclada de outros projetos, foi o material mais utilizado no âmbito da instalação que concebeu a convite do CAM, com o apoio da Junta de Freguesia de Benfica, do Centro Comercial Fonte Nova e do Grupo Blueotter. Tendo como ponto de partida um contentor de carga marítima, a artista optou por revestir integralmente as duas faces laterais do exterior da estrutura com placas de madeira de dimensão reduzida, aplicadas verticalmente. Esta matéria-prima também marcou presença, em conjunto com aglomerado, no interior. O chão, o teto e as paredes foram cobertos com ambos os materiais, igualmente usados na construção de bancos e mesas, que contribuíram para reforçar o convite à sua habitabilidade enquanto espaço de reunião, reflexão e partilha. O interior acolheu ainda frases, desenhadas pela artista a lápis de cor sobre papéis reutilizados, retiradas do livro Direitos da Natureza: Ética biocêntrica e políticas ambientais (2015) do sociólogo uruguaio Eduardo Gudynas, que se foca nos sistemas de valorização da natureza enquanto sujeito de direitos e não como recurso ao serviço da exploração humana desenfreada. No telhado da estrutura, no contexto da inauguração e com a participação do público, foi criado um canteiro – uma espécie de jardim sustentável que, pelo efeito da própria natureza, se foi transformando ao longo do período de exibição, com a previsível secagem de algumas plantas e o crescimento espontâneo de outras. Uma parede de vidro transparente foi disposta num dos topos, permitindo a entrada de luz natural, e o acesso ao contentor fez-se através de uma rampa.

No texto que escreveu sobre o projeto, Gabriela Albergaria afirmou que uma das suas ideias orientadoras foi a de criar uma cabana de madeira, o que, no imaginário comum, remete para tempos ancestrais, povos originários e formas de vida mais próximas da natureza. Concretizada, esta intenção despertou surpresa e estranheza nos transeuntes e habitantes da zona, ao confrontarem-se com uma estrutura desta génese, inserida num contexto assumidamente urbano, em frente a um templo do consumo e ladeada por edifícios de vários andares e estradas de circulação rápida. O objetivo foi proporcionar um momento de pausa, fruição e reflexão, em contraponto à frenética correria quotidiana, e incentivar ações concretas em defesa da natureza. A artista recusou, desde o início, a possibilidade da mera contemplação de obras de arte inseridas num espaço improvável.

Foram várias as propostas desenhadas no âmbito da programação educativa que acompanhou a exposição, estimulando e fortalecendo o envolvimento e a participação de diferentes tipologias de públicos. Nas imediações da instalação decorreram quatro workshops: «Bombas de sementes», orientado de Leonor Pego (4 de março); «Proteger a biodiversidade urbana», com a Liga para a Proteção da Natureza (22 de abril); «Aprender a fazer vermicompostagem», com o projeto Hortas Ecológicas (22 de abril); e «Remédios caseiros», com Fernanda Botelho (17 de junho). Da oferta constaram ainda três conversas no mesmo local: «O valor das plantas silvestres», liderada por Fernanda Botelho e Paula Côrte-Real (11 de março); «Guardiões de sementes – porquê preservar as variedades tradicionais?», pela Associação Colher para Semear (1 de abril); e «Alimentação e práticas para desperdício zero», com Maria Antunes e Rui Catalão, dos Kitchen Dates (3 de junho). Complementaram a programação dois passeios: um ao Parque Florestal de Monsanto, orientado pelo Centro de Interpretação de Monsanto (6 de maio); e outro, subordinado ao tema «Ervas comestíveis e medicinais», com Fernanda Botelho, no Parque Urbano da Quinta da Granja, em Benfica (27 de maio). Finalmente, no dia 16 de julho, realizou-se uma festa de encerramento, que contou com uma roda de aprendizagem informal orientada pelo Clube da Agulha e com um baile de danças tradicionais europeias, promovido pelo DJ MATi@s e pela Tradballs – Cooperativa de Artes e Cultura.

Em 2021, ano em que a programação «CAM em Movimento» teve início, participaram no projeto, com criações inéditas e site-specific, os artistas Fernanda Fragateiro e Didier Fiúza Faustino, através de intervenções em comboios da linha urbana de Cascais e Sintra. A Casa das Histórias Paula Rego (Cascais) acolheu 24 obras da coleção do CAM; o Parque Quinta dos Remédios (Bobadela) exibiu uma escultura de Miguel Palma; e os tapumes que envolviam as obras do edifício do CAM foram suporte de ilustrações de António Jorge Gonçalves. Nesse mesmo ano, teve início o ciclo de vídeos da coleção do CAM, que projetou obras de João Onofre, Lida Abdul, Pedro Barateiro e Fernando José Pereira num contentor marítimo instalado no Jardim Gulbenkian.

O ano seguinte, 2022, ficou marcado pelas instalações site-specific de Carlos Bunga e Rui Toscano, apresentadas novamente em contentores marítimos, localizados junto à estação fluvial do Terreiro do Paço e na praça do Centro Comercial Fonte Nova, ambos em Lisboa. Deu-se continuidade aos ciclos de filmes da coleção do CAM, levando ao local trabalhos de treze artistas – Vasco Araújo, Ana Vidigal, Maria Lusitano, Gabriel Abrantes, Helena Almeida, Rui Calçada Bastos, Graham Gussin, Manon de Boer, Miguel Soares, Emily Wardill, Filipa César, Bruno Pacheco e Salomé Lamas –, distribuídos por três momentos distintos. Neste ano, num contentor instalado no Parque da Bela Vista, em Lisboa, o artista António Pedro desenvolveu um projeto participativo que envolveu um grupo de moradores dos bairros de Chelas.

Além da instalação site-specific de Gabriela Albergaria, em que este texto se foca, 2023 ficou ainda marcado pela ocorrência de dois projetos participativos: «Entre olhares. Encontros (in)comuns», na Biblioteca de Alcântara, que incluiu a exibição de obras da coleção do CAM e de livros de artista da Biblioteca de Arte da Fundação; e «Lugar», desenvolvido no âmbito da «Fábrica de Projetos» do CAM, entre alunos de escolas básicas de Lisboa e o artista Márcio Carvalho, culminando numa instalação que ocupou um outro contentor instalado no Jardim Gulbenkian.

Tiveram ainda continuidade, no mesmo espaço das edições anteriores, dois ciclos de filmes da coleção do CAM: o primeiro com projeções de obras de Jorge Varanda, Yto Barrada, Javier Tellez e Narelle Jubelin; e o segundo com trabalhos de Ana Hatherly, Rui Calçada Bastos, António Olaio, Ana Léon, Irineu Destourelles, Noé Sendas, João Onofre e António Palolo.

Cristina Campos, 2024


Ficha Técnica


Fotografias

Guilherme d´Oliveira Martins (ao centro) e Gabriela Albergaria e Benjamin Weil (à dir)
Rita Fabiana (à esq)
Rita Fabiana, Gabriela Albergaria, Susana Gomes da Silva (da esq para a dir.)
Rita Fabiana, Gabriela Albergaria, Susana Gomes da Silva e Guilherme d´Oliveira Martins (ao centro), Benjamin Weil e Adriana Pardal (à dir.)
Gabriela Albergaria
Gabriela Albergaria

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