CAM em Movimento. Ciclo de filmes «Quatro Modos Inesperados da Geometria»

Jorge Varanda, Yto Barrada, Javier Tellez, Narelle Jubelin

Ciclo de filmes projetado no contentor de transporte de mercadorias então instalado no Jardim Gulbenkian no âmbito do programa fora de portas «CAM em Movimento». Segundo a curadora, Leonor Nazaré, os quatros filmes selecionados «permitem avaliar e refletir sobre o papel estruturante da geometria quer no desenho explícito das suas formas conhecidas, quer na sua capacidade de dar corpo simbólico a personagens e narrativas».

O ciclo «Quatro Modos (In)esperados da Geometria» foi uma das iniciativas levadas a cabo pelo Centro de Arte Moderna (CAM) no âmbito de uma programação fora de portas que se concretizou entre outubro de 2021 e setembro 2024, sob a designação «CAM em Movimento». Através deste programa, o CAM procurou, durante o período de encerramento para obras de renovação e ampliação do seu edifício num projeto do arquiteto Kengo Kuma, ocupar equipamentos e espaços públicos com obras da coleção ou com criações diversas de artistas convidados.

Guiado pelo desejo de uma arte mais democrática e feita para as pessoas, este novo ciclo, gerado num momento de transição, sustentava o seu modelo na espontaneidade, reunindo uma programação capaz de suscitar a curiosidade do público, que se concretizava na invasão da paisagem comum e na tentativa de disrupção do quotidiano na cidade. Através de um exercício de experimentação e reflexão, pretendia-se questionar criticamente a instituição, explorando o leque de possibilidades, papéis e funções a adotar no presente e no futuro, em contexto local, nacional e internacional.  

Uma das principais iniciativas desde programa consistiu na instalação de um contentor de carga e transporte de mercadorias no jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, para servir de sala de projeção de diferentes ciclos de vídeos da Coleção do CAM.

O ciclo « Quatro Modos (In)esperados da Geometria», foi o primeiro ciclo programado em 2023, entre 10 janeiro e X [MC1] abril, e contou com obras de Jorge Varanda, Yto Barrada, Javier Tellez e Narelle Jubelin. Segundo a curadora, Leonor Nazaré, os quatro filmes da Coleção do CAM selecionados «permitem avaliar e refletir sobre o papel estruturante da geometria quer no desenho explícito das suas formas conhecidas e derivativas – fixadas na arquitetura, na pintura, na escultura e no desenho, disciplinas suscetíveis de animação e de composição fílmica –, quer na sua capacidade de dar corpo simbólico a personagens e narrativas. A esses quatro filmes fez-se corresponder «os quatro modos seguintes do trabalho mais ou menos explícito ou, por vezes, mais ou menos subterrâneo da geometria.» (Leonor Nazaré in CAM \ CAM em Movimento. Ciclo «Quadro Modos…», 2023)

No website da agenda do CAM, podemos aceder às sinopses dos vídeos escritas pela curadora desta iniciativa, e transcritas no final do presente texto.

Embora integrada na programação do «CAM em Movimento», amplamente divulgada pelos meios de comunicação social no momento da sua inauguração, a divulgação deste ciclo de vídeos não teve registos críticos na imprensa que a destacassem em particular. Para uma contextualização inicial do «CAM em Movimento» nos meios de comunicação social, destaque para a crítica de Luísa Santos na Contemporânea (Santos, Contemporânea, ed. 01-02-03, 2022), para as menções em artigos nas revistas Time Out (Moreira, Time Out, 19 out. 2021) e Umbigo (Duarte, Umbigo, 3 nov. 2021), e para as peças nos programas de rádio e de televisão Jornal da Noite (SIC, 15 out. 2021), As Horas Extraordinárias (RTP3, 29 out. 2021) e Portugal em Direto (RTP1, 3 nov. 2021).

Dada a natureza e condições do espaço de apresentação dos vídeos — um contentor marítimo de livre circulação — não se realizou relatório de exposição, questionário ao público — no que diz respeito ao grau de satisfação pela visita —, ou contagem do número de visitantes. 

 

A polivalência do desenho animado
Jorge Varanda, S.L.N.D. (Sem Lugar nem Data), 2001
8'57'' / Col. CAM, Inv. IM57
10 jan. – ? fev. 2023

Animação em 3D com planos recortados de pinturas e de figuras estilizadas que percorrem espaços expositivos, tornados labirintos e lugar de presenças fantasmáticas. Pessoas e objetos surgem como seres imaginários, animalescos, surreais e improváveis. Os espaços são maleáveis e tudo é suscetível de se tornar movimento imprevisível, percurso, visita, experiência e desafio. Todas as figuras são animadas e/ou estáticas, humanas e/ou humanoides, pictóricas, escultóricas ou virtualmente reais.

O ecrã de computador na imagem final, já surgido no início, lembra-nos enfaticamente que estivemos dentro de uma espécie de jogo de computador.


Personagens geométricas no palco
Yto Barrada, Tree Identification for Beginners, 2017
36´/ Col. CAM, Inv. 20IM104
7 fev. – 5 mar. 2023

Encomendado para o evento Afroglossia, com curadoria de Adrienne Edwards, este vídeo retrata uma viagem realizada pela mãe da artista aos EUA em 1966. Com apenas 20 anos, a estudante socialista marroquina foi uma dos 50 «Jovens Líderes Africanos» convidados para uma excursão cultural patrocinada pelo Departamento do Estado. Através de arquivos, relatórios, jornais e têxteis, Yto Barrada entrelaça eventos da história e da política (o Pan-Africanismo, os movimentos pela descolonização e contra a guerra do Vietname, o Black Power) com acontecimentos e mitos relacionados com a sua família.

Diálogos e informação em voz off são acompanhados pela animação de formas geométricas, de objetos e manchas pictóricas, cuja pulsação define o ritmo da representação e da narrativa.

 

Fascínio e perversidade do pan-ótico

Javier Tellez, O Rinoceronte de Dürer, 2010

38’ / Col. CAM, Inv. IM32

7 – ? mar. 2023

 

Encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian, O Rinoceronte de Dürer foi filmado no pan-ótico do hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, construído em 1896, e foi realizado em colaboração com doentes psiquiátricos de ambulatório. Os pacientes são apresentados nos espaços que terão sido os quartos, ou celas, nos quais se imaginam como moradores do antigo asilo e atuam em cenários quiméricos, numa reconstrução imaginária de seu quotidiano dentro da instituição.

As imagens são complementadas por locuções de trechos de três textos ligados ao tema do olhar num corpo estático: uma carta de Jeremy Bentham que apresenta o panótico como sistema de vigilância, A Caverna de Platão e A Toca de Kafka.

Em simultâneo, um rinoceronte é puxado à volta do pátio do hospital. O animal será uma referência a Ganda, o rinoceronte que o rei Manuel I de Portugal enviou de presente ao Papa Leão X, mas que se afogou a caminho de Roma.

A obra pode ser interpretada como um memento mori.

 

 

Pintura, design e arquitetura modernistas
Narelle Jubelin, Albers. Seidler Establishing. Shots, 2012-2013
6’ 21’’ / Col. CAM, Inv. 14IM69
4 – ? abr. 2023

 

Este vídeo sobre Josef Albers e sobre o arquiteto australiano Harry Seidler foi produzido para a exposição Plantas e Planos, que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian em 2013.

A obra é constituída por dois filmes diferentes, posicionados lado a lado. O filme da esquerda é composto por imagens do interior da casa de Jubelin e por excertos de entrevistas com Penelope Seidler (em 1968) e com Harry Seidler (em 2000), tendo o design da sua casa como tema principal. Estas imagens são intercaladas com fotografias da Casa Seidler, em Killara, Sydney (Nova Gales do Sul, Austrália) e grandes planos de uma pintura da série Homage to the Square [Homenagem ao Quadrado] de Joseph Albers.

O vídeo da direita é composto por fotografias de obras de arte de Albers que integraram a exposição Josef Albers na América. Pintura sobre Papel (que decorreu no CAM, de 18 de maio a 1 de julho de 2012), e de trabalhos de David La Rua e Patricia Leal. Estas imagens são intercaladas com excertos do documentário The Responsive Eye, filmado por Brian de Palma na exposição Op Art que teve lugar no MoMA em 1966. Aqui, o realizador entrevista o curador William Seitz, o teórico Rudolf Arnheim e alguns dos artistas apresentados naquela exposição.


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

O Rinoceronte de Dürer

Javier Téllez (1969-)

O Rinoceronte de Dürer, 2010 / Inv. IM32

S.L.N.D. (Sem Lugar Nem Data)

Jorge Varanda (1953-2008)

S.L.N.D. (Sem Lugar Nem Data), 2001 / Inv. IM57

Albers. Seidler Establishing. Shots, 2012-13

Narelle Jubelin (1960- )

Albers. Seidler Establishing. Shots, 2012-13, 2012-13 / Inv. 14IM69

Tree Identification for Beginners

Yto Barrada (1971-)

Tree Identification for Beginners, Inv. 20IM104


Material Gráfico


Fotografias

Frames do vídeo de Javier Téllez, «O Rinoceronte de Dürer», 2010 (Col. CAM, Inv. IM32)
Frames do vídeo de Jorge Varanda, «S.L.N.D. (Sem Lugar nem Data), 2001», 2010 (Col. CAM, Inv. IM57)
Frames do vídeo de Narelle Jubelin, «Albers. Seidler Establishing. Shots», 2012-13 (Col. CAM, Inv. 14IM69)
Frames do vídeo de Yto Barrada, «Tree Identification for Beginners», 2017» (Col. CAM, Inv. 20IM104)

Páginas Web


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