CAM em Movimento. Vasco Araújo, «Mulheres d'Apolo», 2010

Programa «CAM em Movimento» / 2.º Ciclo Vídeos

No âmbito do programa «CAM em Movimento», o segundo ciclo de vídeos da coleção do CAM volta a integrar a obra de Vasco Araújo, numa mostra dedicada à condição feminina. Apresentada no contentor instalado no Jardim Gulbenkian, a obra reflete sobre o trágico destino das mulheres de Tróia.

Em 2021, entre confinamentos e o definitivo encerramento do edifício do Centro de Arte Moderna (CAM) para obras que visam reconfigurar a área expositiva e criar um novo jardim aberto ao público, num projeto do arquiteto Kengo Kuma (Japão, 1954), o CAM iniciou um «programa fora de portas» intitulado «CAM em Movimento».  

Gerado num momento de transição e guiado pelo desejo de uma arte mais democrática e feita para as pessoas, este novo ciclo sustenta o seu modelo na espontaneidade, reunindo uma programação capaz de suscitar a curiosidade do público através da invasão da paisagem comum e da tentativa de disrupção do quotidiano na cidade. A partir de um exercício de experimentação e reflexão, o programa «CAM em Movimento» pretende questionar criticamente a instituição, explorando o leque de possibilidades, papéis e funções a adotar no presente e no futuro, em contexto local, nacional e internacional.  

Para Benjamin Weil, crítico de arte francês e diretor do CAM desde dezembro de 2020, a instituição conseguiria cumprir os seus objetivos se durante o período do fecho conseguisse alargar a sua área de influência para lá do perímetro da Fundação Calouste Gulbenkian, procurando relacionar-se com outros públicos que, por uma ou outra razão, habitualmente se escusam a interagir com a arte (Conversa on-line: Alargar e diversificar geografias, nov. 2021).

Afinal, para o novo diretor do CAM, a obra do edifício oferece à instituição «uma oportunidade (…) [de] se reinventar e construir um futuro dinâmico, criar e estreitar laços de colaboração com outras áreas da Fundação, e explorar novos modos de se dar a conhecer e de atrair novos públicos» aproximando-os da arte contemporânea (Cruz, Expresso, 20 dez. 2020). Como admitiu numa entrevista dada aos jornalistas da RTP (15 out 2021), a instituição quis aproveitar a situação de exceção para «estender a mão aos visitantes», permitindo que a experiência da arte faça parte da vida quotidiana de todos».

Em outubro de 2021, o programa inaugural do «CAM em Movimento» incluiu várias iniciativas. A escultura de Miguel Palma (1694) Cemiterra-Geraterra (1991) viajou até Loures para ser instalada no Parque Quinta dos Remédios, na Bobadela. Os artistas Didier Fiúza Faustino (1968) e Fernanda Fragateiro (1962) intervieram no exterior das carruagens dos comboios da CP das linhas de Sintra e de Cascais, respetivamente. Vinte e quatro obras da Coleção do Centro de Arte Moderna viajaram até à Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, para a exposição «Coleção de Arte Britânica do CAM». O ilustrador António Jorge Gonçalves iniciou o projeto de desenho para os tapumes que circundavam o perímetro das obras do edifício do CAM, que viria a inaugurar em novembro. Um contentor de carga e transporte de mercadorias foi instalado no jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, para servir de sala de projeção de vídeos da Coleção do CAM, ao qual, mais tarde, e até final de 2022, se juntariam outros contentores espalhados pela cidade para acolher novos projetos artísticos site-specific, como o de Rui Toscano na praça do Centro Comercial Fonte Nova, Carlos Bunga na Praça do Comércio e António Pedro no Parque da Bela Vista em Chelas, um projeto desenvolvido em colaboração com os moradores desse bairro.

Para Benjamim Weil, a criação de uma sala de projeção dentro de um contentor marítimo colocado no meio de um jardim, era um acontecimento inusitado. No entanto, seguia a linha do programa «CAM em Movimento», favorecendo o encontro com a arte em locais onde este seria, à partida, inesperado.

Num dos vídeos de apresentação desta iniciativa, publicado no Facebook a 25 novembro de 2021, Benjamin fala sobre o efeito de surpresa que pretendeu causar junto do público, e da relação mais descontraída que quis criar entre a arte e o público: «Quero que as pessoas pensem que podem entrar no CAM, no futuro, da mesma forma que entraram nestes contentores».

Entre outubro de 2021 e o final de 2022, o contentor recebeu quatro ciclos de vídeos. Sem exceção, as obras exibidas no contentor marítimo do Jardim Gulbenkian pertenciam à coleção do CAM. O primeiro entre eles, que ocorreu entre 15 de outubro de 2021 e 10 janeiro de 2022, foi dedicado a questões políticas e sociais como a solidão e a guerra, tendo a paisagem e a natureza como cenários de fundo. Contou com obras de João Onofre (1976), Lida Abdul (1973), Pedro Barateiro (1979) e Fernando José Pereira (1961) e curadoria de Patrícia Rosas e Rita Albergaria (Centro de Arte Moderna / CAM em Movimento. Fernando José Pereira).   

O segundo ciclo ocorreu entre 11 de janeiro e 3 de maio de 2022, e permitia refletir acerca da condição feminina, da angústia e da solidão, do prazer ou mesmo das questões de género, através das obras de Vasco Araújo (1975), Ana Vidigal (1960), Maria Lusitano (1971) e Gabriel Abrantes (1984).

Se Mulheres d´Apolo (2010), de Vasco Araújo, conta o trágico destino das mulheres de Tróia, Domingo à Tarde (2000), de Ana Vidigal, e Modern Woman (2015), de Maria Lusitano, inventam soluções para escapar à monotonia do quotidiano da mulher. The Brief History of Princess X (2016), o último vídeo do ciclo, narra com humor a história de como foi criada a famosa escultura fálica Princess X, de Constantin Brancusi, um dos artistas mais reconhecidos do século XX.

A obra Mulheres d´Apolo (Col. CAM, Inv. IM35), foi especificamente produzida para a mostra itinerante «Mais que a Vida – Vasco Araújo / Javier Téllez» (2010), integrada nas comemorações do Ano da Saúde Mental e apresentada na Fundação Calouste Gulbenkian e no Museo de Arte Contemporánea de Vigo, entre maio de 2010 e janeiro do ano seguinte.

Em março de 2013, Isabel Carlos – curadora dessa mesma exposição e à data diretora do CAM – escreve um texto refletindo sobre esta obra inédita de Vasco Araújo, entretanto adquirida pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Mulheres d’Apolo inicia com um prólogo que contextualiza vários aspetos do filme. Identifica o local onde se passa a ação – a Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo, em Lisboa –, o ano da sua fundação – 1832 – e a dupla funcionalidade da Sociedade enquanto Escola de danças desportivas e Salão de Baile. Com uma oferta cultural simultaneamente formativa e lúdica, a Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo é um espaço tanto para alunos como para curiosos pela dança.

Segundo a tradição, Apolo – deus do Olimpo, símbolo do sol, da luz e da verdade – defendeu e apoiou as mulheres torturadas e escravizadas durante a Guerra de Troia. É partir deste mito que Vasco Araújo trabalha, entre outros textos, o tema de As Troianas (415 a.C.), peça de Eurípedes (480 – 406 a.C.) que, nas palavras de Isabel Carlos, retrata a coragem, o heroísmo «e a inteligência das mulheres de Troia frente ao massacre perpetrado pelos gregos».

No ambiente glamoroso do Salão de Baile, estas mulheres – alunas ou frequentadoras da Sociedade de Apolo – começam por nos ser apresentadas por uma voz (interpretada pela atriz Lúcia Sigalho), que ecoa pelos espaços da escola vazia. Lamentando «a sorte» e os maus-tratos que a vida lhe tem reservado, manifesta-se num apelo à resistência. Tomando o exemplo das troianas, reitera: «Não há mais nada a dizer – é só sentir. Não há mais nada a fazer – é só esperar…

…Vamos dançar!»

Acompanhada pela música de Salão, a câmara fixa-se em folhos e tecidos exuberantes e voluptuosos de tons coloridos. Regista mãos pintadas e adornadas, sorrisos e passos decididos até à pista de dança. De pé ou sentadas, com braços repousados sobre a mesa, várias figuras admiram o espetáculo. Entregues à dança ou presas ao chão, ora olham em redor, na esperança de encontrar companhia, ora desviam o olhar para o vazio, inexpressivas.

A música pára e regressa o monólogo. A câmara fecha-se em close-ups e capta fragmentos desta mulher. A sua mente é agitada. As mãos irrepreensivelmente cuidadas seguram um cigarro. Impaciente, a fumadora vai largando abanos nervosos enquanto se perde em pensamentos ruminantes sobre o estado da sua vida conjugal.

Pouco depois, a sua cara é revelada. A mulher é afinal o próprio artista, no seguimento daquilo que Vasco Araújo tem vindo a fazer desde o início da sua carreira. Conforme sublinha Isabel Carlos, «a auto-representação, (…) o encarnar de papéis femininos, (…) a dimensão teatral e (…) a herança do filme musical» são frequentes na sua obra. E em Mulheres d’Apolo, a dança, o teatro e a performance são usadas como formas de escapismo.

Partindo do mito e da dimensão heroica, Mulheres d’Apolo acaba por desenvolver proporções trágico-cómicas, estabelecendo-se entre o drama e a comédia musical. De facto, apesar do ambiente fantasioso, «aparentemente propício ao romance e ao glamour», a obra retrata momentos fugazes repletos de tristeza e desespero.

No contentor instalado no jardim Gulbenkian, o filme com cor, som e 18 minutos de duração foi apresentado em loop.

Embora integrada na programação do «CAM em Movimento», favoravelmente divulgada pelos meios de comunicação social no momento da sua inauguração, a comunicação do segundo ciclo de vídeos e da mostra em causa, não teve registos críticos na imprensa que a destacassem em particular, à exceção de uma pequena referência no artigo da revista Gerador (Nogueira, 2022), e da devida menção no texto de Luísa Santos, na Contemporânea (ed. 01-02-03, 2022) –  o mais extenso e expressivo artigo de reflexão crítica publicado até à data sobre a iniciativa CAM em Movimento.

Para uma contextualização da programação do ciclo «CAM em Movimento» na primeira metade do ano de 2022, quando se integra este ciclo, consultar o artigo do Público (Tavares, 19 jul. 2022).

Dada a natureza e condições do espaço de apresentação dos vídeos — um contentor marítimo de livre circulação — não se realizou relatório de exposição, questionário ao público — no que diz respeito ao grau de satisfação pela visita —, ou contagem do número de visitantes. 

Madalena Dornellas Galvão, 2023


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Mulheres d'Apolo

Vasco Araújo (1975-)

Mulheres d'Apolo, Inv. IM35


Material Gráfico


Documentação


Periódicos


Páginas Web


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