CAM em Movimento. Ciclo de filmes «Histórias de uma Coleção»

Ana Hatherly, Rui Calçada Bastos, António Olaio, Ana Léon, Irineu Destourelles e Mónica de Miranda

Ciclo de filmes integrado na exposição «Histórias de uma Coleção» e apresentado no contentor de transporte de mercadorias, então instalado no Jardim Gulbenkian no âmbito do programa fora de portas «CAM em Movimento». Este ciclo vem assinalar quatro momentos diferentes de aquisições de obras em suporte fílmico para a coleção do CAM, a partir de 2001 e até 2022.

O ciclo de filmes «Histórias de uma Coleção», assumido como uma extensão da exposição homónima a decorrer na Fundação, foi apresentado entre 4 de maio e 1 de outubro de 2023 no emblemático contentor de transporte de mercadorias instalado no Jardim Gulbenkian desde 2021.

Recorde-se que este contentor foi um dos principais mecanismos utilizados pelo CAM para difundir a sua Coleção no período de encerramento para obras de renovação e ampliação do seu edifício, num projeto do arquiteto Kengo Kuma. Esta iniciativa foi apenas uma das dezenas levadas a cabo no âmbito da programação fora de portas intitulada «CAM em Movimento», que entre outubro de 2021 e setembro 2024, se propôs ocupar equipamentos e espaços públicos com obras da coleção ou com criações diversas de artistas convidados.

O presente ciclo de filmes, que acabou por se estender mais 13 dias além da mostra «Histórias de uma Coleção», integrou seis obras adquiridas pelas diferentes direções do CAM desde 2001 (portanto, deste Jorge Molder) até 2022. Peças de Ana Hatherly, Rui Calçada Bastos, António Olaio, Ana Léon, Irineu Destourelles e Mónica de Miranda, dialogaram assim com os dois últimos núcleos da exposição – Depois das Belas-Artes 1990-2005 e Permanentes e Temporárias 2006-2020 –, abrindo-se igualmente a um novo ciclo de aquisições iniciado em 2021.

No website da agenda do CAM, podemos aceder às sinopses dos vídeos escritas pela curadora desta ciclo, Leonor Nazaré, uma das quatro curadoras da mostra «Histórias de uma Coleção», e transcritas no final do presente texto.

Embora integrada na programação do «CAM em Movimento», amplamente divulgada pelos meios de comunicação social no momento da sua inauguração, a divulgação deste ciclo de vídeos não teve registos críticos na imprensa que a destacassem em particular. Para uma contextualização inicial do «CAM em Movimento» nos meios de comunicação social, destaque para a crítica de Luísa Santos na Contemporânea (Santos, Contemporânea, ed. 01-02-03, 2022), para as menções em artigos nas revistas Time Out (Moreira, Time Out, 19 out. 2021) e Umbigo (Duarte, Umbigo, 3 nov. 2021), e para as peças nos programas de rádio e de televisão Jornal da Noite (SIC, 15 out. 2021), As Horas Extraordinárias (RTP3, 29 out. 2021) e Portugal em Direto (RTP1, 3 nov. 2021).

Dada a natureza e condições do espaço de apresentação dos vídeos — um contentor marítimo de livre circulação — não se realizou relatório de exposição, questionário ao público — no que diz respeito ao grau de satisfação pela visita —, ou contagem do número de visitantes. 

 

Ana Hatherly, Revolução, 1975
10'36'' / Col. CAM, Inv. IM12
4 – 24 maio

Exibido pela primeira vez na Bienal de Veneza, em 1976, Revolução faz parte de um grupo de curtas-metragens que caracterizam o trabalho de Ana Hatherly. Filmado nas ruas de Lisboa com uma câmara Super 8 após a Revolução do 25 de Abril de 1974, documenta os cartazes da propaganda política, sobrepostos e rasgados, os graffiti e os murais de ideologia revolucionária inscritos nas paredes da cidade. O ritmo acelerado das imagens gravadas e a edição do filme representam exemplarmente a manifestação plural das vozes na cena política portuguesa, bem como a participação coletiva e a euforia vivida no espaço público. O filme apresenta um testemunho evocativo do ambiente social e político que marcou o período revolucionário.

Ana Hatherly regista, documenta e atua nas ruas da cidade, posicionando-se criativamente em relação aos traços marcantes da cultura urbana durante esse momento de mudança tão significativo.

 

Rui Calçada Bastos, Studio Contents, 2004
4'47'' / Col. CAM, Inv. IM24
25 maio – 14 junho

No ecrã, sucedem-se e sobrepõem-se palavras que se referem a objetos presentes num ateliê, e a metamorfose visual de cada palavra na seguinte constrói um inventário obsessivo.

Metáfora simples para a ação de guardar coisas numa caixa, uma sobre a outra, até que o espaço interior fique saturado, a sucessão lenta a que assistimos reduz a identidade do objeto à voz e ao desenho da palavra que os descrevem. Dessa forma, Rui Calçada Bastos constrói um espaço mental e visual transportável e resistente ao tempo, que ajudará o espectador a associar cada estímulo às suas próprias referências, numa viagem íntima ao processo criativo.

 

António Olaio, Kuenstlerleben, 2010
8'38'' / Col. CAM, Inv. IM34
15 junho – 5 julho

A plasticidade da imagem é dominante sobre outros fatores de elaboração da obra: o lado performativo e coreográfico, a opção cromática minimal e mesmo a associação musical servem um desígnio visual de muito forte pregnância: a estátua, o estudante universitário na sua batina, o toureiro ou o bailarino fundem-se numa personagem única e anónima, sem rosto nem pés visíveis, cujos braços e capa esvoaçam sem nenhuma pausa, numa sequência hipnótica de movimento. No final, a vida retira-se da estátua, a razão de ser da imagem perde-se e a obra «acaba» por momentos.

 

Ana Léon, Jeux, 1998
5'52'' / Col. CAM, Inv. 19IM100
6 – 26 julho

A partir de meados dos anos de 1990, o trabalho de Ana Léon é realizado sobretudo em desenho e em filme de animação em Super 8, preterindo a anterior pintura e/ou escultura. A ideia de metamorfose e de animação preside a todos os filmes que realiza a partir destes anos, até à atualidade. Em Jeux, uma ou duas bailarinas sem cabeça fazem gestos diante da barra e do espelho até colocarem a sua própria cabeça sobre o pescoço. Marcados pelo sentido lúdico, muitas vezes irónico e cínico, e por uma ostensiva simplicidade de meios, os seus filmes propõem figuração e progressiva destruição abstratizante das figuras, narrativa e repetição, anonimato na elisão do rosto, estranheza dos movimentos intermitentes e da desarticulação, iluminação, coreografia e dinâmica cénica.

 

Irineu Destourelles, One Hundred and Two Houses on Fire (Cento e Duas Casas a Arder), 2019
9'43'' / Col CAM, Inv. 19IM103
27 julho – 29 agosto

A morte paira neste vídeo a preto e branco em que se sucedem cento e dois desenhos de casas em chamas que evocam memórias de uma África a autoconsumir-se, revelando ao mesmo tempo a precariedade do conceito de casa que, para «o sujeito da diáspora é um tópico complexo» (palavras de Irineu Destourelles).

O artista desenha as casas a esferográfica e marcadores, formando os contornos dos muros, das portas e das janelas fechadas; desenha também as manchas de fumo negro em arabescos obsessivos que por vezes parecem engolir as casas. Estas parecem bunkers ou prisões, casas frias e isoladas, ocupando as margens da imagem, no meio de paisagens desoladas, angulares e inóspitas.

Como noutros trabalhos, o artista recorre à quantificação – cento e duas casas, diferentes filtros, várias maneiras de cair –, um processo de abstração que introduz distanciamento, contra qualquer veleidade de sedução: estamos numa operação de tradução e não de identificação.

 

Mónica de Miranda, Path to the Stars, 2022
34'41'' / Col. CAM, Inv. 22IM111
30 agosto – 1 outubro

O filme Path to the Stars [Caminho para as Estrelas], cujo título alude a um poema de Agostinho Neto, líder da luta anticolonial e primeiro presidente de Angola após  a independência, foi a peça central da exposição da artista No longer with the  memory but with its future [Não mais com a memória, mas com o seu futuro], que integrou a programação paralela da 59.ª Bienal Internacional de Arte de Veneza (2022). O filme segue, do amanhecer ao anoitecer, uma ex-combatente da luta pela libertação angolana, enquanto viaja de barco pelas margens do rio Kwanza, local de origem do reino do Ndongo, um estado pré-colonial africano tributário do reino do Kongo, criado por subgrupos do Ambundu, e liderado pelo rei Ngola. Assim se constrói uma metáfora de um lugar feminino que atravessa vários tempos e espaços.


Ficha Técnica


Fotografias

Frames do vídeo de Rui Calçada Bastos, «Studio Contents», 2024 (Col. CAM, Inv. IM24)
Frames do vídeo de Ana Hatherly, «Revolução», 1975 (Col. CAM, Inv. IM12)
Frames do vídeo de António Olaio, «Studio Contents», 2024 (Col. CAM, Inv. IM34)
Frames do vídeo de Ana Léon, «Jeux...», 1998 (Col. CAM, Inv. 19IM100)
Frames do vídeo de Irineu Destourelles, «One Hundred and Two Houses on Fire (Cento e Duas Casas a Arder)», 2019 (Col. CAM, Inv. Inv. 19IM103)
Frames do vídeo de Yto Barrada, «Tree Identification for Beginners», 2017» (Col. CAM, Inv. 20IM104)

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