Paula Rego

1935 – 2022

A “portuguesa de Camden Town”, como lhe chamava o poeta Alberto de Lacerda, vai estudar para Inglaterra aos 16 anos porque nas palavras do pai, Portugal «não é terra para mulheres».

Desmontar jogos de poder, denunciar o autoritarismo político, a hipocrisia, expor o sofrimento no amor e a sexualidade encapotada, exaltar o poder feminino, não menos violento, perante todas as agressões, são alguns dos princípios subjacentes a uma obra, que desde a primeira exposição em Lisboa (SNBA, 1965/66), até hoje, continua a suscitar tanto a admiração quanto o embaraço.

Considerada durante décadas como “artista marginal”, porque indiferente às artes conceptual e performativa dominantes na Inglaterra, obtém o reconhecimento do establisment artístico britânico quando, em 1990, aceita ser a primeira “artista associada” da National Gallery, em Londres.

Se tivesse ficado em Portugal possivelmente teria sido «uma bêbada profissional» afirmou numa entrevista a Marco Livingstone, comissário da retrospectiva realizada no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madrid, 2007. A ida para Inglaterra foi decisiva, de outra forma nunca poderia ter faltado às aulas da Slade School of Art para ir ao cinema ou conhecido Victor Willing (1928-1988), intelectual, pintor, marido cúmplice da sua obra, cuja morte lenta inspirou novas metáforas, trevas e sombra que apreciava comentar.

Em criança, na companhia do pai, Paula Rego sentia um prazer especial em ver as gravuras de Gustave Doré, publicadas no livro “O Inferno”, de Dante. Sem o menosprezo «snob das belas artes» relativo à ilustração, a sua pintura privilegia contar uma história, o suspense, ultrapassando a obra na qual se inspira, seja ela proveniente da literatura oral ou escrita, pictórica, musical ou cinematográfica.

Conseguir passar «da cabeça para a mão» a corrente torrencial de imagens, sem censura, é um objectivo constante, muito embora, desde a série a pastel “A mulher-cão” (1994) utilize com frequência modelos, sobretudo Lila Nunes, antiga enfermeira de Victor Willing.

O prazer físico de cortar e colar desenhos, modus operandi de finais dos anos 50 até ao início da década de 80 – gerando quadros abstractos e viscerais, numa clara inspiração em Jean Dubuffet, defensor da Arte Bruta – foi assimilado à pintura a pastel das últimas décadas.

Criadora de fábulas, Paula Rego desenvolve um trabalho prévio de metteur en scène. Em Londres, o atelier é um palco secreto, no qual contracenam «fantasmas», alguns deles nascidos de esculturas que a pintora constrói. Longe de Portugal, a pátria que os inspira, submetem-se. Aqui «eles não virão mordê-la no rabo», lembra Nicholas Willing, o filho cineasta. Como a pintura é uma forma de «magia poderosa», esses fantasmas correm somente para dentro de quem os teme.

 

Susana Neves

Maio de 2010

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Atualização em 29 junho 2022

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