• 1958
  • Tela
  • Óleo
  • Inv. P1282

Paula Rego

O Gigante de Minsky

No início da sua carreira, correspondentes aos anos de formação na Slade School de Londres (1952-1956), Paula Rego realiza obras assumidamente figurativas e, por vezes, com uma intenção evidente de descrição ou comentário social. São disso exemplos Under The Milk Wood (1954), Festa de Anos (1953), Dia (1954) e Noite (1954).

 

A presente obra, O Gigante de Minsky, é datada do período em que a autora, sediada em Londres, vivia temporariamente na Ericeira. A linguagem plástica e o fantástico do tema afastam-na das obras mencionadas. Parece que um determinado realismo que acompanhava a dimensão social das obras anteriores é rendido por um expressionismo tradutor do irreal e do fantástico. Não é certa a origem da narrativa que lhe serve de base, mas a autora julga que a ideia para esta obra e para o seu título derivaram de uma obra de Henry Miller.* Efectivamente, surgem referências a Minsk em obras como Trópico de Câncer (de 1934) ou Nexus (de 1959, posterior, portanto, à pintura de Rego), ainda que apenas pontuais. Todavia, existe uma lenda associada à cidade de Minsk, na Bielorrússia, segundo a qual um gigante, de seu nome Menesk ou Mincz, era detentor de um moinho de água (provavelmente associado ao rio Menka, situado a 20 km da actual cidade) no qual triturava pedras para fazer o pão com o qual alimentava os seus guerreiros.

 

Não obstante a interpretação narrativa da obra, o certo é que nela assistimos a uma estruturação da forma pouco comum a Paula Rego: a primazia do desenho é substituída pelo predomínio da mancha de cor, que não só define os volumes das personagens, como o fundo com que estas se parecem fundir. No canto superior esquerdo da composição, observamos uma figura de maiores dimensões, correspondente provavelmente ao gigante. Em primeiro plano, ocupando como um friso a parte frontal da composição, vemos uma amálgama de corpos, cujas posições e expressões sugerem um momento de catástrofe. O fundo que rodeia as personagens, a vermelho, enfatiza essa sensação, seja pelas conotações com o fogo, como pela forma como a mancha encarnada se adapta e funde com o contorno das figuras.

 

Também a ordenação espacial da composição não apresenta a clareza característica da autora neste período (mas seria já um ensaio para o tipo de composição que veremos, por exemplo, nas suas obras sobre óperas, de 1983, ou em The Vivian Girls as Wildminds, de 1984?), já que as personagens se parecem amontoar num espaço que abdicou de qualquer alusão às convenções da perspectiva linear. Porém, essa opção contribui sem dúvida para enfatizar a sugestão de angústia e catástrofe que parece emanar da representação.

 

As poucas camadas de tinta que emprega, a indefinição (ou desfiguração) de várias das personagens e até mesmo a desigual atenção prestada na definição dos diversos elementos da composição pode sugerir que a autora tacteava uma nova linguagem plástica, afastada do que até então explorara. Não será, todavia, um caminho com continuidade na sua obra. No verso da tela lê-se: “Vic protestou”.

 

 

* Depoimento de Paula Rego em correspondência electrónica, datada de 13.13.2014.

 

 

 

Luísa Cardoso

Julho 2014

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Atualização em 23 janeiro 2015

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