“Nós somos o país da família, mas na Holanda é que se envelhece em casa”

António Fonseca explica o que está por trás do seu novo livro e deixa pistas para o que se pode fazer na área do envelhecimento em casa e na comunidade.
António M.Fonseca © DR

Ageing in place – Modelos e estratégias centrados na autonomia, participação social e promoção do bem-estar das pessoas idosas é o título do novo livro coordenado pelo psicólogo, investigador do Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano da Universidade Católica no Porto e consultor da Fundação Gulbenkian para a questão do envelhecimento ativo, António Fonseca. O livro é lançado hoje, dia 5 de julho, na Fundação Gulbenkian.

 

Que estudo é este e o que traz de novo?

O trabalho anterior, Ageing in Place. Boas Práticas em Portugal, pretendia mostrar boas práticas de Ageing in Place, no nosso país.. O que está agora em questão é descentrar o problema do apoio a idosos; é deixarmos de ver a resposta institucional como a única possível e centrar essa prestação de cuidados nas comunidades onde essas pessoas vivem, mantendo-as em suas casas; é valorizar o paradigma de que o melhor lugar para envelhecer é na casa dessas pessoas, mesmo quando precisam de apoio.

 

Este estudo procura mostrar ou reforçar a ideia de que há alternativas à institucionalização.

É um reforço dessa perspetiva, com sustentação teórica, propondo um conjunto de 12 dimensões para as quais é necessário olhar, se pretendermos manter as pessoas em casa pelo maior tempo possível. E com alguns exemplos, que materializam a vontade de muitas instituições (públicas, privadas, municipais, IPSS), propondo soluções à medida das pessoas.

 

Se há essa vontade, por que não se faz?

Tem mais impacto inaugurar um lar de idosos do que distribuir o dinheiro disponível por soluções a 10 ou 12 anos… A vontade política (e de muitas IPSS e municípios) é ter um lar em cada terra, o que é insustentável. Hoje temos dois milhões de pessoas com mais de 65 anos; em 2030 serão quase três milhões. É insustentável. Temos de deslocar o nosso olhar para soluções na comunidade e ver a solução institucional como uma segunda linha de apoio.

 

Já há uma lista de boas práticas. O que resultou e pode resultar, no futuro?

O trabalho que a Associação Alzheimer Portugal tem feito é um bom exemplo do que pode resultar. Até ao aparecimento da Associação, a preocupação com a demência era apenas do foro médico. O trabalho que tem feito mostra que as pessoas com demência e os cuidadores que as mantém nas suas casas podem continuar a ter uma vida tão próxima quanto possível da que tinham antes do surgimento da demência.

Hoje, é impensável que exista uma limitação a um invisual ou a pessoas em cadeiras de rodas, não é? Seria considerado um atraso civilizacional. O trabalho da Associação Alzheimer é ao mesmo nível. Só que a incapacidade cognitiva não é tratada como a incapacidade física; é estigmatizada.

 

A demência é um caso muito específico…

Há outros exemplos. Em Coimbra foi criado um serviço de mobilidade que liga a parte alta e a parte baixa da cidade, para que os mais velhos se possam deslocar com facilidade. E em Pinhel, por exemplo, há um transporte público a um preço simbólico que permite às pessoas das aldeias deslocarem-se até à sede do município. Porque se na sede do município um ben-u-ron pode custar 1€, para os idosos das aldeias pode chegar a custar 30€ porque tem de cobrir a ida e volta de táxi até à farmácia. A população rural vive claramente com falta de serviços e no meio rural vivem muitos, muitos idosos. Há que criar igualdade de direitos para estas pessoas.

Mas há outros exemplos: as soluções que levam livros a estas populações, as que facilitam as ligações, levam cuidados de saúde básicos ou curativos e atividades culturais ou de sociabilização até a casa das pessoas. Há respostas às necessidades das pessoas sem que estas tenham de ser institucionalizadas.

 

Estas também são as melhores práticas noutros países ou como se lida com a questão “lá fora”?

Lá fora estão mais avançados nas soluções residenciais. Aqui é o 8 ou o 80: ou vivemos em casa ou numa instituição. Na Holanda, Inglaterra, Dinamarca, há soluções intermédias, baseadas no cohousing ou coliving, residências em que os habitantes partilham serviços. Não são residências assistidas. Nestas, há regras comuns, mas os residentes é que são os responsáveis pela gestão do espaço. Na Dinamarca até são sustentadas pela Segurança Social local.

 

Uma espécie de república, de residência universitária?

Mas que em vez de universitários tem pessoas mais velhas. Algumas instituições têm procurado criar soluções deste tipo, em Portugal, mas têm tido dificuldade em justificá-las junto da Segurança Social.

 

As coisas não têm evoluído bem?

Passámos de uma lógica de “todos em casa” (há 50 anos, morria-se em casa) para “todos na instituição”. Há aldeias, em Portugal, onde há tantos idosos em casa como no lar. O apoio domiciliário só apareceu depois.

Mas a mensagem, agora, não é “vamos fazer tudo diferente”. É colocar em cima da mesa a opção de poder envelhecer em casa, sempre que seja possível mantê-las com segurança e bem-estar. É esta a forma natural de envelhecer.

 

O que aconteceu nestes 50 anos?

As famílias começaram a faltar. Primeiro com a emigração, nos anos 50, 60; depois com a mobilidade interna; agora com o encurtamento das famílias. Supostamente nós é que somos o país da família, mas na Holanda é que 95% das pessoas envelhecem em casa.

 

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