Poesia no CAM: obras da exposição «Linha de Maré»
Poema Odessa inspirado na obra Stabat mater (2006), de Jorge Pinheiro
O Battleship Potemkin é um dos meus filmes preferidos e inclusive fiz um trabalho sobre ele na faculdade, o sorteio da obra Stabat mater foi uma coincidência e no poema fiz alusão a algumas cenas e técnicas de filmagem usadas na sequência da escadaria de Odessa.
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Odessa
Como é que podes matar o teu próprio povo
Como é que podes ouvir um bebé chorar
E não cessar fogo?
Somos todos animais da mesma raça
A dor permanece
Enquanto mais uma guerra passa
Mas a ira do homem não é escassa
Porque para a guerra acabar
Quantos morrerão?
Os corações são os mesmos
Mas aparentemente... os juízos não
Vês pânico na rua?
Ou recusaste a vê-lo porque a dor não é tua?
Recusas-te a ver o horror desta correria
Enquanto as pessoas tropeçam na escadaria
Na cara deles só vês o que queres
E nada te convence
De que aqueles que feres
São homens e mulheres
Que podiam ser o teu filho ou a tua mãe
Se eles morressem à tua frente
Morrias tu também
Mas a dor deste povo não te maça
Encolhes os ombros enquanto ela passa
Matas todos os que se manifestaram na praça
Porque te recusas a perceber
Que somos todos animais
Da mesma raça
Leonor Ribeiro
Poema A Mutação inspirado na obra Posta (2013), de Rosa Carvalho
Ponto de partida. Não é o mesmo para cada um de nós, seja na arte ou na vida. Foi esta a premissa para o meu processo de criação de um texto poético para a obra Posta, de Rosa Carvalho. A carne, enquanto parte comum ao animal e ao Homem. O respeito, a mudança dos tempos, a imediatez e as consequências que advêm destes tempos conturbados. A minha relação com a obra foi imediata e visceral e a caneta escreveu a minha viagem por milhares de pinceladas.
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A mutação
Sou carne para canhão.
São várias as camadas que me revestem neste mundo doente.
Nem tudo o que parece é. Consumimos ou somos consumidos por aquilo que não queremos ver na cultura do imediato.
Estou doente.
Talvez necessite de me reidratar com silêncios e calar a sociedade.
Costumamos separar as nervuras da carne. Gostas de palavras no ponto ou malpassadas?
Nem sempre o que observas à distância é real.
Aproxima-te. Procura no pormenor a diferença.
És carne da minha carne. Um ser vivo como eu.
Vivamos com dignidade. Sejamos todos mais que um pedaço de carne.
Reidratei-me, curei-me com as palavras.
Encontrei na mutação o caminho.
Não separo o nervo da carne. Alimento-me da verdade e procuro bem de perto as pinceladas.
Não me repugnam.
Uma por uma transformam a pintura em realidade. Somos aquilo que comemos.
Estamos doentes. Deixei de segregar palavras. Talvez tenha cancro nas glândulas palavrares.
Talvez...
Margarida Azevedo
Poema Eixo metalíquido inspirado na obra Rotação a 19 graus, translação e prumo (2013), de Inês Botelho.
Amálgama poético. Um breve mergulho na Rotação a 19 graus, de Inês Botelho, em 20 minutos. Caí como o corpo celeste em eterna rotação no meio da sala da linha da maré. O peito aceleradíssimo, as partículas estelares a descolarem-se dos meus dedos na folha em branco. O corpo celeste não parava de girar em mim e as palavras alagavam-se na adrenalina de inundar uma vez mais o palco com um último poema.
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Eixo metalíquido
Um corpo celeste caiu
do céu
A girar, a girar, a girar
sem sair da sua rotação
não demorou muito tempo
até chegar às águas.
Sim, um corpo celeste caiu
Não fez feridos nem mortos
Eu acho.
Ao menos no início
As águas suavizaram a queda
Eu acho.
Um corpo celeste caiu...
Era uma pergunta?
Ou um poeta?
Pergunta
Ou poeta
Era celeste?
Era corpo?
Então a voz:
Uma voz de Deusa:
Uma voz de Deusa que perguntava:
- O que faz um poeta
nas areias de frente ao mar
que avança em seus pés?
(O poeta avança)
- O que faz um poeta
dentro das ondas
com as folhas todas molhadas
e as palavras
como um impulso desfalecido
entre as espumas
e o movimento das marés?
...Uma mão surge dos céus
(Não, não era outro corpo celeste!)
- O que faz um poeta
dentro do barco a remo que
a sua imaginação construiu
porque a pele já estava demasiada enrugada,
o ar faltava, a vontade falhava,
os mares fechados para ele,
as nuvens a caírem na sua cabeça como ofensas proferidas em língua estrangeira,
mas que ofendia da mesma maneira.
A violência com que a chuva saía da
boca
Boca? Corpo celeste? Fissura oceanística? Fissura oceanística gerada pelo corpo celeste?
Ou...
Era uma boca
Boca, cheia de cravos afogados
(Sim, a boca estava cheia de cravos)
1 milhão, 108 mil e 764 cravos afogados,
para ser mais exato.
Era mesmo uma boca enorme
Como um transatlântico
Não parava de engOlir
o Oceano
E o poeta no abismo do barco
- O que faz um poeta
num barco a remo?
remando sempre na contramaré
como se quisesse salvar os poemas
que ainda pudessem saltar das águas...
Da sua caneta de pesca
só vinham linhas apagadas
de passado,
Estavam a escrever por cima da história
de dentro dessa boca!
Como se quisessem amarrar uma âncora ao anzol
Virar o barco completamente:
Chega de poeta, de poesia, palavras,
Chega de qualquer coisa que rime com Verdade!
- O que faz um poeta
com as linhas soltas,
a tempestade íntima,
o coração pesando a maresia,
o estômago cheio de dejetos plásticos
num barco a remo afundado?
(enquanto os iates passeavam
com suas peles bronzeadas
e bem exibidas
como turistas a assistirem
o caos
Caos, este
que só fazia aumentar
a abundância de seus privilégios)
- O que faz um poeta...
O que faz um...
O que faz...
O que...
O
(Aprende a respirar debaixo d’água)
Felipe Castro